segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Vovó contra mim

     De  vez  em  quando,  ao  telefonar  para  o  Brasil ou quando estou em Divinópolis, gosto de transmitir para minha mãe uma imagem de que sou amalucado, anarquista e revolucionário ao extremo. Como ela ainda é uma das últimas pessoas que ainda se escandalizam neste mundo, prodigaliza então conselhos e reprimendas. Após dar entrevista para algum jornalista britânico ou brasileiro, conto-lhe que desanquei meio mundo, que falei mal até da rainha, que cobri de invectivas os costumes atuais, o comportamento de meus amigos ou de uma autoridade qualquer. Tudo mentira ou, no máximo, algo elevado à máxima potência. Então ela me diz que sou muito desabusado, que devia ter medo das consequências, que não sabe de onde veio a minha arrogância, que o sucesso me subiu à cabeça!
     Acho  engraçado  quando  ela alude a meu sucesso, pois constantemente me sinto um fracassado, um autêntico loser neste mundo cujos valores mais em voga se distinguem tanto dos meus.
     Lembro-me  de  que no mês passado, quando estive com ela, contei-lhe com veemência que o havia reprimido, já que você passou muito tempo sem fazer contato comigo no fim do ano passado. Inventei que você até havia chorado após meu xingamento. Como era de se esperar, ela tomou seu partido, dizendo-me que não devo fazer isso, que você é uma gracinha e que me adora, que você não se esquecerá de minhas reprimendas e se revoltará contra mim, que penso ser o dono da verdade etc. etc. Em suma, desempenhou bem seu papel de vovó protetora.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Uma noite em Montmartre


     Depois  de  passar  dois anos do outro lado do canal, sem aparecer por aqui, retorno a Paris. Num café de Montmartre, descanso um pouco após andar pelas ruas estreitas dessa região tão cheia de história e de histórias. É noite e faz um friozinho bastante suportável enquanto assisto às pessoas que passam na rua calçada com paralelepípedos. Passei há pouco diante do busto da cantora Dalida, que aqui viveu e aqui morreu. Gosto dela. 
     Estou  tendo  aqui  a  oportunidade  de  praticar  mais intensamente a língua francesa, que uso quase diariamente em leituras e na audição de programas de rádio.
     Amanhã  à  tarde,  depois  de  uma reunião de trabalho, pretendo revisitar o Museu do Quai Branly, cujo acervo etnográfico é fantástico. Se tivesse a oportunidade, viveria em Paris. E se fosse possível, eu o traria para viver comigo. Teríamos sempre o que ver e o que fazer por aqui.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Uma página de Kafka

     E  eis  que  por  acaso,  fazendo  uma busca na internet a propósito de outro assunto, descubro que no dia 13 de janeiro deste ano foi aberto um processo de natureza criminal contra mim no fórum de Santo Amaro e Ibirapuera, em São Paulo. No mês passado, quando eu estava na casa de minha mãe, contratou-se um advogado - esse piolho dos conflitos humanos - para que eu fosse obrigado a assinar um documento autorizando que você seja levado ao exterior a minha revelia. Tudo indica que a juíza, certa Dra. Sirley sem doutorado, é uma dessas feministas para quem todo homem é um canalha. O processo foi julgado de maneira sumária, sem que eu sequer tomasse conhecimento dele, e a sentença foi expedida automaticamente, dando-me, sem que eu fosse informado da coisa, um prazo de cinco dias não para me apresentar ali e discutir o problema, mas intimando-me a comparecer ao dito fórum e assinar a autorização. Como não compareci, expediu-se um documento que autoriza, de maneira legal, sua saída do Brasil sem meu consentimento.
     Diferentemente  do  que  acontece com você quando aludo a sua beleza, não houve nenhum pudor e nenhum rubor ao se dizer mentira para a Justiça, já que se declara na intimação que me encontro "atualmente em lugar incerto e não sabido". Nem as correspondências que lhe mando com meu endereço em Londres claramente escrito abaixo de meu nome como remetente, nem o endereço de meu escritório em meu perfil no site da universidade onde trabalho, nem o aviso prévio de que estaria naqueles dias na casa de minha mãe são suficientes para que o lugar onde me encontro seja certo e sabido. Mas a pensão que lhe pago mensalmente, é óbvio, tem origem certa e sabida.
     Essa  pérola  de  baixa jurisdição foi publicada no Diário de Justiça do Estado de São Paulo e agora ficará eternamente disponível na internet. E você poderá ser levado para fora do Brasil sem que eu seja consultado. Em outros tempos admito que cheguei a considerar a possibilidade da violência para lidar com essas manobras. Hoje me esforço para assumir uma serenidade de Buda adormecido, exercitando o desapego e mesmo certa indiferença. 
     Viver longe do Brasil me faz sentir como se eu fosse um aleijado. A despeito das coisas que tenho aprendido e dos momentos de alegria que acontecem por aqui, vivo sempre como se carregasse uma pedra dentro do peito. Mas coisas como esse processo têm me feito atravessar já vários anos nesta forma de exílio em parte escolhido, em parte imposto. E nele ficarei até não suportar mais. Ou até desaparecer em lugares mais longínquos.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Para além do espelho

     Acordo  cedinho  e  distante  no  dia  de  seu  aniversário. Estou pronto e equipado para atravessar a cidade de trem até o bairro de Haggerston, para ir jogar futebol nesta manhã fria. Há alguns dias lhe enviei o cartão com a mensagem acima.
     Ontem, no fim de tarde, eu corria ouvindo uma coletânea de sambas quando tocou "Além do espelho", de João Nogueira e Paulo César Pinheiro. Ouvindo a bela canção e já no clima de seu aniversário, era como se eu corresse nas nuvens, emocionado com as palavras do artista. Lembro aqui uma das estrofes, que diz muito sobre o que está no meu coração agora:

       Toda imagem no espelho refletida
       Tem mil faces que o tempo ali prendeu
       Todos têm qualquer coisa repetida
       Um pedaço de quem nos concebeu
       A missão de meu pai já foi cumprida
       Vou cumprir a missão que Deus me deu
       Se meu pai foi o espelho em minha vida
       Quero ser pro meu filho espelho seu

     Se meu próprio pai, porém, foi para mim uma espécie de espelho quebrado, na sucessão de gerações gostaria de ser para você, para sempre, um espelho intacto. Mas quero vê-lo a trilhar seu próprio caminho e ir além do espelho. 
     Por certo  conversaremos  ainda  hoje  via  computador, quando nos diremos sobre o que temos feito, e lhe darei novas congratulações. Que a vida lhe seja generosa e alegre.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Como envergonhar um bonitão

     "Benza-o  Deus,  que  gracinha  de  menino!"  "Mas  que garotinho lindinho, hein!" "Ô bichinho bonito, gente!" "Que olhos ele tem!" Tais eram as galanterias que eu costumava ouvir quando saía por Belo Horizonte ou Divinópolis carregando-o no colo ou no carrinho, quando você era bem pequeno. Naturalmente aquilo inflava o meu orgulho de recém-pai enquanto meu bebê seguia, indiferente, a sugar seu bico. Alguns transeuntes, não resistindo, vinham apertar-lhe a bochecha ou me pediam para pegá-lo no colo um pouco.
     Hoje, já rapazinho e compreendendo melhor as coisas, você tem vergonha que aludam a sua beleza. Por isso às vezes gosto de fazer sua face ficar ruborizada, disparando súbita e brasileiramente, quando o encontro após vários meses distante: "Rapaz, vá ser bonito assim lá na casa do chapéu! As meninas da escola devem suspirar fuuundo quando você passa!" É muito engraçado ver o seu encabulamento, olhando para o chão até que o tiro da situação constrangedora com um "Dá cá um abraço, estou morrendo de saudade".

domingo, 7 de fevereiro de 2016

De Minas e de literatura






     Conversamos  na  noite  de  ontem  via  computador, após eu haver passado ao menos sete meses sem vê-lo. Fiquei surpreso ao notar como você está desenvolvido física e intelectualmente às vésperas dos seus onze anos. Já parece mais um adolescente em flor que o menino com o qual estou acostumado.
     Você  me  contou  de  uma  viagem  que  fez neste fim de ano e também de uma passagem por Minas pouco antes do Natal, contando-me que esteve na casa de minha mãe, para visitá-la. Essa notícia me surpreendeu, pois há pouco voltei de Divinópolis, onde passei cerca de três semanas, e não me contaram que você havia passado por lá. Certamente imaginaram que eu iria ficar irritado pelo que veio em sua companhia no pacote da visita. Mas fiquei feliz por você haver reencontrado minha mãe, que sempre fala sobre a saudade que sente por passar tanto tempo sem vê-lo. Posso imaginar a alegria desse encontro, com Pérola rondando ao redor de vocês.
     Falávamos  ontem  sobre  os  livros  que  você  está lendo. A propósito, estive dois dias em sua cidade natal, Belo Horizonte, logo nos primeiros dias de minha estadia no Brasil. Andando pela região central, junto ao prédio da Imprensa Oficial de Minas Gerais, passei pelas estátuas de Carlos Drummond de Andrade e Pedro Nava, dois dos nossos maiores escritores. Tenho aqui uma foto sua, pequenininho, sentado entre as estátuas de Fernando Sabino e Otto Lara Resende, quando o monumento aos quatro mineiros ficava na Praça da Liberdade e nós mesmos vivíamos na capital de Minas. Gosto quando compartilhamos juntos essas aventuras e perambulações literárias.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Palavras belas e palavras dissonantes

     Há  algumas  semanas,  em  São  Paulo,  ouvi  alguém dizer que sentia uma "tristura". A palavra, que até está no dicionário, embora seja muito pouco usada, me parece mais expressiva que a simples "tristeza", transmitindo algo de realmente melancólico. Também gosto da palavra na língua francesa, tristesse, que evoca uma tristeza densa, latente, funda. Há ainda uma desolação patológica chamada "tristimania", sendo essa uma interessantíssima junção de duas palavras.
     Por  falar  em  outra  língua,  sempre  gostei  de  moon, em inglês, que, com seu longo oo, me parece melhor que o nosso "lua", sendo um termo que na própria pronúncia soa descritivo da coisa.
     Eça  de  Queirós,  quando  descrevia  um  gordo, costumava escrever que se tratava de um "gordalhufo", o que instantaneamente dava uma personalidade ao personagem. E uma vez ouvi meu amigo Doc descrever uma musa gordinha que ele cortejava como uma "gordelícia", o que já era um resumo do seu lirismo.
     Palavras  de  nossa  língua  de  que  me  soam  lindamente: "libélula", "aurora", "alvorada", "benzinho", "glossário", "hipocampo". Palavras de que não gosto: "esparadrapo", "esgoto", "catarro", "espuma", "carvão".
     Às  vezes  passo  um  longo  tempo  perambulando  pelo dicionário e lendo o significado, a etimologia, os sinônimos e os antônimos das palavras, o que é um prazeroso exercício. E quando o encontro, gosto de lhe propor que pronuncie trava-línguas, parlendas ou simplesmente uma frase difícil qualquer, a fim de testar suas habilidades linguísticas e nos divertir ao mesmo tempo. Infelizmente não pudemos fazer isso nesta virada de ano que acaba de passar...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Da justiça

     De  vez  em  quando  me  lembro  de  um  trecho  da apresentação do livro Com a Graça de Deus, de Fernando Sabino: "Ele gosta mais de uns que de outros. Deus tem as suas predileções: tem uma quedazinha pelas crianças, os mendigos, os doidinhos, os poetas, os pobres-diabos, os humilhados e perseguidos, os que sofrem por amor, enfim, os inocentes. Deve ter lá suas razões. Isso não é injustiça, não: é que a justiça de Deus é diferente da justiça dos homens."
     Embora  não  tenha  mais  fé,  se  é  que  algum  dia  a tive, gosto das palavras do escritor mineiro e acho que essa justiça dos inocentes da qual ele fala é de fato muito mais profunda que a proverbialmente falha justiça dos homens. Lembro-me dela quando penso em você e o alumbramento da sua infância, com sua visão de mundo plena de um vigor, uma verdade e uma poesia que já perdi há tempos. Daí sua alegria, apesar das desventuras de nossas vidas, daí meu lado escuro e o constante assédio da melancolia em virtude da vida que temos perdido. Mas se sou também um que "sofre por amor", ainda haverei de ser incluído nessa justiça de Deus.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Sapatinhos da primeira infância


     Cheguei  ontem  de  volta a Londres, após quase um mês entre Minas Gerais e São Paulo. Nos últimos dias, estive às voltas com muitos convites para jogar futebol e jantar com amigos. Nas três semanas anteriores, em Minas, pude ler muitos livros e conversar bastante com minha mãe enquanto tomávamos um café. Ela sempre me diz que morre de saudade de você.
     A  propósito,  casualmente  encontrei,  na  gaveta  da escrivaninha, em minha biblioteca, este velho par de sapatinhos que você usou lá pelos seus três ou quatro anos. Guardei-os, e também algumas roupinhas suas, como lembranças de sua primeira infância. Um dia, quando for adulto, eu os retornarei a você como um presente.
     Logo  que  ontem  cheguei  de  viagem, vi que havia um cartão de Natal seu para mim. Nele, que chegou depois de eu haver partido para o Brasil, você diz que está com saudade, deseja que os anjos me acompanhem e me lembra de que sempre me amará e se importará comigo. Que assim seja!

sábado, 23 de janeiro de 2016

A melhor cidade do mundo


     Acabo  de  chegar  a  São  Paulo  bem  cedinho  na manhã deste sábado. Já recebi uma mensagem da casa de minha mãe, em Divinópolis, dizendo que Pérola tem ido até o quarto onde dormi nestes dias, procurando por mim. Andei permitindo até que ela dormisse no chão, ao lado de minha cama, já que ela queria me acompanhar o tempo todo. Vejo agora que há até dois ou três pelos dela no teclado de meu computador.
     Como  não  o  encontrarei  neste  fim  de  semana, tenho planos de futebol e jantares com alguns amigos paulistanos, além de ir até seu condomínio, para deixar-lhe alguns presentinhos que lhe trouxe. Tais amigos já estão me telefonando e certificando-se de que já cheguei nesta cidade infernal mas que amo muito. Se tenho certo sentimento de tristeza por não encontrá-lo desta vez, não vou perder a alegria de estar nesta selva urbana que fez tanto por mim e que tanto mudou a minha vida. Quando chamo-a de melhor cidade do mundo, meus amigos paulistanos costumam se espantar, rir e dizer que não estou falando seriamente.
     Para  este  fim  de  semana  que  começa, gostaria de ter como epígrafe uma fala de Jayme Ovalle a Vinicius de Morais, numa entrevista de 1953: "Todo mundo é criado com o dom da poesia, é só deixa de ser poeta porque perde a inocência. Quanto mais um homem cresce carregando consigo a sua inocência, maior poeta ele é. No fundo, esse pessoal que se torna banqueiro, ou senador, ou Presidente da República, só faz isso porque deixou de ser poeta, ou porque é poeta frustrado." Que meu menino, onde quer que esteja e por todas as idades, jamais perca a poesia e essa boa inocência.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Algaravias

     Há  duas  semanas  estou  na  casa de minha mãe. Nestes últimos dias, tem chovido sem parar, fenômeno comum no sudeste do Brasil nesta época do ano. De todo modo, além do reencontro familiar, tenho revisto também alguns amigos e estado muito próximo de Pérola, nossa golden retriever fêmea, que passa o dia comigo onde quer que eu vá e quer mesmo dormir ao lado de minha cama.
     Mas esta passagem pelo Brasil está sendo marcada por alguns episódios não muito felizes. Nesta semana, há três dias, acordamos todos, por volta das duas da madrugada, com o som de vidro quebrando e Caju, o golden macho, que dorme do lado de fora, latindo alto. Minhas irmãs gritaram meu nome, e eu saltei da cama, pegando uma faca na cozinha e indo ver o que estava ocorrendo. Do lado de fora da casa, alguém subira pelas grades da janela do quarto de minha mãe, que dá para a rua, e quebrou, com uma pedra, o vidro da janelinha do banheiro no mesmo quarto, que também faz frente para a rua. Ou o criminoso fez um teste para verificar se havia alguém em casa ou pretendia tentar alguma coisa pela janela do banheiro, que era a única sem grades. Quando eu e meu sobrinho, bem como alguns vizinhos que acordaram com o rebuliço, saímos à rua, o bandido já havia fugido.
     Esse  episódio  nos  diz  muito  sobre o fracasso do Estado, das políticas de segurança pública em todos os níveis de governo e das relações sociais no Brasil. Como diante dessa infâmia temos de buscar soluções individuais, tivemos de colocar grades também na janelinha do banheiro, câmera filmadora, luz externa com sensor de movimento e uma placa avisando que há um cachorro bravo na casa.
     Outro  triste  acontecimento  foi saber, nesta semana, que você será levado em viagem justamente quando irei a São Paulo para encontrá-lo. É incrível que eu atravesse o Oceano Atlântico para vê-lo, e, exatamente quando estou aqui, você é levado para outro lugar. Obviamente isso me atinge fortemente. Enquanto penso nas medidas legais a tomar, deixarei, na portaria do seu condomínio, os presentes que lhe trouxe e os cheques para pagar sua pensão ao longo deste ano. Algaravias da avareza espiritual...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Desconectada e feliz

     Minha mãe está, ou melhor, é totalmente desconectada e é feliz. Figura que parece saída do Grande Sertão: Veredas, ela passa sempre longe dos computadores, possui um telefone celular bastante obsoleto que fica desligado dentro de seu guarda-roupa e acha o tal Facebook um coisa de gente sem o que fazer, no que estou inteiramente de acordo. 
     Mineiramente sua avó desconfia desse excesso de tecnologia a reger nossas vidas. Outro dia, quando tomávamos café no meio da tarde, meu sobrinho Vinícius passou por nós. Virei-me para ela e tasquei-lhe a pergunta:
     - O que a senhora faria se descobrisse que este rapaz anda twittando por aí?
     E ela:
     - Problema dele, quer fazer coisa errada, assuma as consequências! 

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

No Brasil


     Estou  novamente  na  casa  de minha mãe por alguns dias. É sempre bom estar junto de nossas coisas e das pessoas fundamentais em nossas vidas. Quando o avião se aproximava do aeroporto, eu já sentia uma grande alegria ao ver, de cima, uma vasta paisagem com nossas montanhas e nossos rios. Em suma, eu me sentia como um Ulisses que retorna a Ítaca, um pequeno pontinho no cosmos onde pode ser ele mesmo em sua integridade, alguém que possui um nome e uma identidade. Tal como o herói grego, eu também reencontro o sentido da vida nesse retorno.
     Tenho  passado  muitas  horas  em minha biblioteca, lendo livros que não pude ler no decurso do ano passado, em virtude das exigências do trabalho e de outras leituras prioritárias. Nesta semana estou às voltas com Qu'est-ce Qu'une Vie Réussie, de Luc Ferry, A Espuma dos Dias, de Boris Vian, e O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov.
     No  penúltimo  fim  de  semana do mês, estaremos juntos em São Paulo. Levarei uma surpresa para você e tenho algumas ideias para uma disputa. Leremos juntos um livrinho com a história favorita de sua primeira infância. E viveremos juntos um pouco mais da nossa própria história.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Um ano bom


     Retorno  para  casa  na  noite  deste  último  dia  do  ano de 2015. Daqui a pouco começará uma queima de fogos de artifício nas margens do Tâmisa, junto às Casas do Parlamento. Quando der meia-noite, irei até a sacada do apartamento onde moro e darei uma olhada para aqueles lados.
     Já  estou  com  a  cabeça  em  2016  e  no  Brasil,  para onde viajarei no dia 3. Desejo reencontrá-lo, para realmente celebrar o Ano Novo com nosso futebol, nosso almoço num bom restaurante e nossas pequenas aventuras por São Paulo. Levarei ainda uma surpresa para você.
     Este foi, para mim, um ano sem grandes perturbações, tendo eu vivido muitas horas felizes. Nos poucos e breves momentos em que estivemos juntos, pudemos conversar, nos divertir, simplesmente fruir a alegria de estarmos juntos depois de longos intervalos.
     Que em 2016 meu menino continue se desenvolvendo como um rapazinho inteligente e de bom coração. E que comece a despertar sua consciência para os problemas do nosso país e da nossa sociedade, afastando-se do reacionarismo da classe mediana de São Paulo. Principalmente, que possamos estar mais próximos e nos reencontrar com mais frequência.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Natal sozinho e distante

     Jamais  havia  tido  um  Natal  tão  solitário,  ficando assim sozinho em casa enquanto lá fora faz frio, venta e cai uma chuvinha fina. É a primeira vez que passo o fim de ano longe de todos. Mesmo quando morei nos Estados Unidos e passei um Natal por lá, viajei para a região de Nova York, onde morava meu tio Wilson. E lá participamos das celebrações natalinas com uma família ítalo-americana de amigos dele.
     De todo modo, tenho feito muitas coisas. Pela manhã saí para correr, li umas 50 páginas de uma biografia de Tennessee Williams e finalizei a escrita de um conto em que vinha trabalhando durante esta semana. Também cozinhei o almoço em casa. Daqui a pouco irei levar minha bicicleta para um conserto e também comprar uma mala para minha viagem ao Brasil no dia 3. 
     Sinto sua falta. Telefonei-lhe na noite de ontem, mas não consegui falar com você. Certamente estará bem. Quando nos encontrarmos, em janeiro, vou levar-lhe uma surpresa.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Um conto de Natal

     Não  pude  ir  para  o  Brasil  a  fim  de  passar  este Natal e o dia de Ano Novo junto com minha família e meus amigos. Depois de todos estes anos longe, é a primeira vez que isso acontece. Muito especialmente, estou triste por não poder vê-lo nestes dias, como acontece todo ano. A noite de hoje será triste, fria e solitária.
     Mas  penso  agora  num  Natal  que  passamos  juntos  e rio sozinho. Era 2009 e foi a última vez que você veio passar uma breve temporada comigo. Fomos para a casa de minha mãe, em Divinópolis, onde ficamos cerca de dez dias. Você estava feliz, brincando muito, jogando futebol com os meninos da vizinhança e passeando na chuva.
     No  Natal  propriamente,  no  auge  dos  seus  quatro anos, nos preparamos com ansiedade para a vinda do Papai Noel. Na noite do dia 24 de dezembro, antes de você dormir, eu lhe disse para colocar na janela, do lado de fora, alguns biscoitinhos e um copo de água para nosso visitante noturno. Então fui colocá-lo para dormir, e ficamos especulando sobre que presentes lhe seriam trazidos.
     Quando  você  dormiu,  fui  até  a  janela,  joguei  fora mais da metade da água do copo e esfarelei um pouco dos biscoitos, retirando-os de lá. Coloquei, então, seus presentes ao pé da janela. Na manhã seguinte, dia de Natal, quando você acordou, pedi-lhe que fosse até o lado de fora para ver se o Papai Noel havia vindo e se ele havia lhe deixado algum presente. Então você pulou da cama e correu para verificar o que se passara no meio da noite. Fiquei no quarto, esperando para ver qual seria sua reação. Foi quando ouvi seu grito animado e os passos apressados de sua corrida de volta até o quarto, para o deleite de minha mãe e minhas irmãs:
     - Papai! Ele comeu tudo!!!
     Seus presentes quase nem foram percebidos.
     De vez em quando, ao lembrar essa história, algumas pessoas costumam ficar escandalizadas pelo fato de eu haver mentido a meu filho, fazendo-o acreditar na existência do Papai Noel. Ora, nem parece que todos nós estamos expostos todos os dias a grandes e descaradas mentiras por parte de políticos, jornalistas, vendedores e até de pessoas próximas em quem confiamos. A mentira sobre Papai Noel foi algo inocente que fez parte de um período de sua vida quando era realmente o tempo de acreditar nele. Abominável é privar a criança da imaginação e do sonho.
     Hoje,  aos  dez  anos  e  às  vésperas  da  adolescência, você não crê mais em Papai Noel. Mas sei que, como eu, lembra-se com carinho da noite em que ele comeu todos os biscoitinhos e bebeu o copo d'água que deixamos na janela do quarto.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Escalafobético

     Está no dicionário:

     escalafobético:  aquele  que  se  comporta  de  maneira excêntrica, esquisita, extravagante; que demonstra falta de jeito, de aprumo, de elegância; desengonçado, desconjuntado, maljeitoso.

     Pensei  hoje  na  estranha  palavra  ao  receber  uma mensagem de meu amigo Doc, propondo um almoço comigo para janeiro, quando eu estiver em São Paulo. Gosto de encontrá-lo, pois ele é sempre surpreendente e divertido. Lembro-me de uma vez em que Doc, depois de passar muitos dias quebrando a cabeça em contas escalafobéticas, surgiu brandindo um grosso caderno e dizendo, exaltado, que havia conseguido provar matematicamente a existência de Deus e que se tornaria famoso por isso. 
     Pedi  então  para  analisar  seu  revolucionário  modelo matemático. Abri o caderno com sua infindável sequência de fórmulas e números, não entendendo bulhufas do que estava rabiscado ali. Mas dei o veredito definitivo, falando com seriedade: "Doc, infelizmente preciso lhe dizer que há uma falha no seu modelo". Com olhar incrédulo, ele exclamou: "Não é possível!" E pegou o caderno de volta, levando-o para casa, a fim de rever sua aritmética divina.
     Uma  semana  depois,  Doc  bate  à  minha  porta. Quando abro, ele me abraça, emocionado, e me agradece efusivamente, pois eu havia evitado que ele se expusesse ao ridículo perante o mundo. Afinal, havia de fato uma falha em suas contas, que precisariam ser refeitas.
     Os  anos  correram,  e  ele  nunca  mais  falou  em  seu modelo matemático que provaria a existência de Deus, embora tenha passado uma outra fase tentando criar o moto-contínuo, o que os maiores cientistas da história afirmaram ser impossível. Mas isso não impediu nosso moderno alquimista de dedicar-se por algum anos à realização da máquina de movimento perpétuo que se movimentaria para sempre com a energia gerada por seu próprio movimento.
     Com  toda  a  sua  maluquice,  Doc  é  uma  das  pessoas mais inteligentes, mais honestas e mais generosas que já encontrei por este mundo. E a história mostra que são indivíduos como ele que costumam criar algo realmente grandioso, inovador e duradouro. Ele me faz lembrar estes versos de Walt Whitman, na tradução de Geir Campos:

     Que passe para trás quem se achava na frente,
     que passe para a frente quem estava atrás,
     que os doidos, apaixonados, sujeitos mal-comportados,
     encaminhem novas proposições,
     que sejam postas de lado as proposições antigas,
     que um homem busque o prazer em toda parte
     exceto nele próprio,
     que uma mulher busque a felicidade
     em toda parte, exceto nela própria.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Viagens


     Em  virtude  de  problemas  burocráticos  e  profissionais que estou enfrentando, não poderei ir ao Brasil para passar este Natal e o dia de Ano Novo. No entanto, somente hoje pude saber que no comecinho de janeiro isso será possível. Embora seja triste ficar este período do ano longe de você, de minha família e de meus amigos, estou feliz por poder reencontrá-los alguns dias mais tarde, já no ano que vem.
     Por falar em viagens, nos últimos anos tenho empreendido muitas delas, às vezes a trabalho, às vezes por interesse próprio, em períodos de férias ou de recesso no ano letivo. Através delas tenho encontrado pessoas e lugares com os quais tenho aprendido muito e vivido muitos bons momentos. Por todos os países por onde passo, sempre lhe mando um cartão-postal, muitas vezes manifestando o meu desejo de que você estivesse ali comigo ou imaginando o que você diria diante da cena ou da experiência que estou vivendo naquele momento. De todo modo, desejo no mínimo compartilhar com você aquela parte do mundo e as lições de partir. E como tenho partido no decorrer da vida!
     Espero  que,  como  eu,  você  possa  vir  a  ter  muitas oportunidades de viajar, ver o mundo e vivenciar experiências felizes em culturas diferentes da nossa. Melhor ainda será se tivermos a oportunidade de fazer isso juntos.
     Vou  agora  começar  a  preparar  as  malas para mais uma partida feliz para o seu abraço e algum tempo, ainda que curto, junto de você.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

As listras de um tigre

     Estou  lendo  aqui  O  Oitavo  Dia,  excelente  romance de Thornton Wilder escrito no final dos anos 1960, cuja ação gira em torno de um suposto assassinato ocorrido numa cidadezinha no interior dos Estados Unidos. Há pouco estremeci diante de uma passagem que, numa tradução rápida, seria mais ou menos assim: "É isso a vida? As crianças que crescem são deformadas por pais que, de várias maneiras, foram eles mesmos deformados pela cegueira, a ignorância e as paixões de seus próprios pais? E os erros mesmos de uma pessoa empobrecem e mutilam seus filhos? Eis aí o interminável encadeamento das gerações."
     Trata-se  de  uma  reflexão  perturbadora.  Sei  que  o próprio Wilder for "deformado" por um pai exigente e muito controlador. No meu caso, por mais que procure me diferenciar de meu próprio pai, de quem sou um crítico feroz e às vezes até injusto, muitas vezes me pego repetindo sua cegueira, sua ignorância e suas paixões. E talvez hoje eu esteja inconscientemente empobrecendo meu próprio filho e mutilando-o com minhas exigências e meu destempero. Embora ache que lhe dou espaço para ser você mesmo, viver sua infância e fazer suas escolhas, até mesmo pela distância em que estou, sei que minha personalidade forte e meu temperamento impulsivo, meu tom de voz incisivo e minha tendência a tomar a frente em tudo o que faço podem estar bloqueando algum campo de ação ou de desenvolvimento de sua personalidade. Mas como poderia ser diferente? Não se pode mudar as listras de um tigre.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Rabelo


      Já  estamos  respirando  o  Natal  por  todos  os  lados. Como parte das comemorações de despedida do ano, meus alunos me convidaram para uma noite numa churrascaria brasileira. Fui e, bem à maneira inglesa, após alguns discursos me exaltando, já que gostam de mim e de meu trabalho, deram-me um presente. Ao abri-lo, tive uma surpresa: uma camisa da seleção de futebol da Inglaterra personalizada, com um "Rabelo" gravado nas costas. Fiquei muito feliz e também discursei em agradecimento, elogiando o engajamento de meus alunos em seus compromissos acadêmicos e prometendo usar muitas vezes a camisa inglesa em meus jogos de futebol, aqui e no Brasil. E lhes disse que, quando reencontrar meu filho, vamos jogar juntos e tirar uma foto com nossos Rabelos gravados nas costas, pois lhe dei, há dois anos, uma camisa do Arsenal com nosso nome de família escrito na parte de trás. Será um fim de semana especial, longe da Inglaterra, mas com ela presente, agradecendo-a por haver me acolhido ao longo de todos estes anos e renovado a minha vida.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Uma carta e sua reza

     Neste  começo  de  semana,  logo  depois  do  café  da manhã, sento-me para trabalhar ao computador e dou com um e-mail seu dizendo que não estava respondendo minhas mensagens porque estava em época de provas na escola, mas que sempre se lembra de mim e inclusive reza por mim.
     Há  alguns  dias  lhe  enviei  uma  carta  pelo  Correio, desancando-o por sua atitude de ficar muito tempo sem fazer contato e me dizer o que anda se passando em sua vida. Mas agora o simples fato de saber que você reza por mim já me faz perdoá-lo automaticamente. Se pudesse, resgataria minha carta antes que ela chegasse a seu endereço em São Paulo.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Palavrões



     Nesta semana lhe enviei uma carta em que, entre outras coisas, dou-lhe o conselho de não falar palavrões e evitar toda forma de vulgaridade. Talvez tenha sido a arte moderna que passou a utilizar palavras, gestos e imagens grosseiras para se contrapor ao chamado “bom gosto” e muitas vezes chocar o burguês. Mas como os limites vão sendo sempre levados mais longe, vivemos num tempo em que a vulgaridade assumiu o centro da cultura. Todavia, é óbvio que você não precisa e não deve se identificar com as tolices da nossa cultura ou do nosso tempo.
     Uma vez, quando eu devia ter seis ou sete anos, disse "bunda" perto de meu avô, patriarca de tempos antigos e de valores tradicionais. Ele ficou horrorizado e ameaçou lavar minha boca com água e sabão, dizendo que teria uma conversa muito séria com meus pais. Curioso como, pelo excesso de uso, aquela terrível palavra hoje perdeu todo o impacto e faz parte do vocabulário comum mesmo dos mais pudicos falantes de nossa língua.
     Em  meados do ano passado, levei-o para assistir a um jogo do Campeonato Brasileiro entre o Galo e o São Paulo, no Morumbi. Como não era possível ficar junto com os atleticanos, tivemos de assistir à partida entre os são-paulinos. À nossa volta havia um grupo de torcedores que urrava os mais cabeludos palavrões e fazia gestos extremamente obscenos, especialmente porque o Galo tinha mais volume de jogo e mantinha a posse de bola por mais tempo, o que os irritava. A certa altura, você me puxou a manga da camisa e disse: "Nossa, papai, esses caras não têm nenhuma educação, nunca devem ter frequentado uma escola!" E eu disse: "É verdade." Se meu avô Antônio Paulino estivesse ali, por certo levantaria as duas mão para o céu e diria: "É o fim do mundo!"
     Minha  mãe,  que  é  da  mesma  têmpera  de  seu  pai  e é uma das últimas pessoas que ainda se escandalizam no Brasil, costuma chegar em casa horrorizada quando lê palavrões pichados nos muros de Divinópolis. 
     Outro  dia,  relendo  Dom  Casmurro  para  uma  aula  de  literatura, dou de cara com o Mestre - que gostava de fazer referências à mitologia grega para esclarecer os dramas de seus personagens - utilizando um termo que se tornou modernamente um tremendo palavrão. Ele se referia à hoje conhecida como "caixa de Pandora", para não chocar pessoas como minha mãe.
     Nesta  semana,  li  nos  jornais  que  pesquisadores  de uma universidade britânica descobriram que dizer palavrões pode ajudar a aliviar a dor, mas apenas em pessoas que não xingam com frequência.
     De  minha  parte,  não  utilizo  palavrões  no  dia  a  dia. Naquilo que escrevo eles são ainda mais raros. Na maioria dos casos, acho-os simplesmente desagradáveis, capazes de transmitir uma imagem degradante de quem os pronuncia. Há algumas ocasiões, no entanto, em que não consigo resistir a dizê-los. Uma delas é no próprio futebol, quando erro um gol fácil. Outra é quando dou uma topada de cabeça ou tropeço em alguma coisa. Nessas ocasiões, eles se libertam quase automaticamente, como os males que saíram da caixa de Pandora. Mas curiosamente, ainda que eu passe o dia inteiro a falar inglês, nas ocasiões em que um palavrão não pode ser contido, ele é sempre dito em português. E realmente ele parece ter um efeito terapêutico, pois me desafoga e me acalma para as novas lutas bravas da vida. Mas o palavrão deve ser uma rara exceção em nosso modo de nos exprimir, para que não polua nossa linguagem nem transmita uma imagem muito ruim de nós mesmos. E como ele representa sempre um golpe fatal na pureza e no sublime, sempre o aconselho a evitá-lo.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Histórias de sua primeira infância

     Quando  me  exercitava  em  alongamentos  num parque perto de casa, hoje pela manhã, depois de correr, vi alguns meninos pequenos que por ali estavam com suas mães e seus brinquedos. Ao terminar os exercícios, enquanto voltava para casa, fiquei me lembrando de você e de algumas histórias engraçadas do tempo em que tinha 3 ou 4 anos, mais ou menos a mesma idade das crianças que brincavam no parque. Como daqui a pouco você já vai entrar na adolescência, costuma sentir uma pontinha de vergonha quando as conto. Mas vamos lá.
     Uma  vez,  quando  estava aprendendo a contar, você recitava: "...dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, dezedez"!
     Numa  outra ocasião, levei-o a um circo. No começo do espetáculo, um casal com pernas de pau cobertas por uma longa calça colorida veio caminhando para o nosso lado. Você os olhou de alto a baixo, virou-se para mim e me fez duas perguntas: "Por que eles são tão grandes assim?" e "Por que eles não têm pé?"
     O  destino  fez  com  que  no  mesmo  dia  estivéssemos brincando perto de uma fonte, na região do Teatro Municipal de São Paulo, quando um anão parou perto de nós. Você o olhou intrigado, tentando entender o que era aquilo, e comentou: "Que meninão pequeno!" Todos em volta, inclusive o próprio anão, começaram a rir.
     Um  dia  você  me  pediu  que  o  levasse  à  sauna  do condomínio onde eu morava. Decidi então levá-lo para ficar cinco minutos. Mas logo ao entrar, sentindo o calor intenso, você esbravejou: "Não, papai, isso aqui é quente demais! É um deserto!" E a experiência não durou nem dez segundos.
     Ao  ver  um  carro  vermelho  passar  velozmente  pela rua, comentei: "É o Relâmpago McQueen!". Ao que você respondeu, com sua entonação peculiar: "Mas ele não tem boca!"
     Uma  vez  levei-o  para me ver jogar futebol no time de minha faculdade, na USP. O jogo era contra o time da Faculdade de Engenharia, nosso rival. Sentei-o junto com nossos jogadores reservas. Por volta dos dez minutos de partida, fiz um gol de cabeça e corri para o banco, a fim de abraçá-lo. Você me abraçou e me beijou, mas se agarrou a meu pescoço e pediu, ou melhor, exigiu colo, querendo que eu voltasse para o jogo com você nos braços... Tive de ser substituído.

domingo, 29 de novembro de 2015

Depois de uma fotografia de Brassaï


     Hoje  fui  visitar  uma  exposição  de  obras  do  grande fotógrafo húngaro-francês Brassaï. Dentre as imagens, uma delas, intitulada em francês "Le marchand de ballon (l'enfant sourriant)", tirada em 1931, me chamou a atenção e imediatamente me remeteu a você. Quantas vezes o vi nesse mesmo fascínio gratuito e maravilhoso por um objeto que remete ao sonho, à brincadeira e à liberdade como um balão de gás a esvoaçar. Essa cena de Paris nos anos 30 se repetiu em manhãs de domingo na Praça do Santuário, em Divinópolis, na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, e em algum recanto do centro de São Paulo, quando passávamos fins de semana juntos.
     Lembro-me  de  uma  fotografia  sua,  tirada  por  mim, quando você tinha quatro anos, provavelmente a mesma idade do garoto da foto de Brassaï, em que meu menino do século XXI abre um sorriso muito parecido com esse da imagem, olhando para uma bola de futebol que chutei forte, para cima.
     Que  a  sujeira  do  mundo  e  os desencantos da vida jamais o façam perder esse sorriso e esse olhar.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Paixões

     Passei  algumas  horas  do  dia  de  hoje,  após  dar aulas pela manhã, trabalhando no texto de um prefácio a um livro sobre Nelson Rodrigues. No mês passado também escrevi prefácios para um livro sobre Eugene O'Neill e outro sobre Thornton Wilder. Por haver estudado esses autores ou ter familiaridade com seu trabalho, costumo ser convidado a escrever ou a falar sobre eles. No entanto, nos últimos anos tenho sido um autor de textos menores e pouco prestigiosos como os prefácios ou pequenos artigos sobre temas ligados à literatura. Tenho ambições maiores, porém preciso de algum tempo, mais segurança profissional e alguma iniciativa para me dedicar a um projeto mais substancial.
     Todo  ser  humano  tem  de  ter  alguma  paixão.  Entre as minhas estão a literatura, o teatro e o futebol, que tenho buscado transmitir a você. Pelo futebol você se interessa naturalmente, vindo de uma família com várias gerações de bons jogadores. Quanto à literatura, sempre lhe dou livros de presente, sendo muitos deles condensações dos grandes clássicos. E procuro conversar com você sobre suas leituras, quando nos encontramos. Pelo que tenho percebido, venho conseguindo despertar também sua paixão pelos livros, sendo que você também tem se lançado na escrita de um diário num caderno que lhe dei.
     Por  fim,  há  o  teatro,  com  o  qual  tem  sido  muito mais difícil fazê-lo familiar, em virtude da separação e da grande distância em que vivemos. Quando vou a São Paulo e você pode passar todo um fim de semana comigo, um de nossos programas costuma ser o teatro, mas isso ocorre apenas uma ou duas vezes por ano. Lembro-me de uma vez termos assistido Nossa Cidade, de Thornton Wilder, A Mulher sem Pecado, de Nelson Rodrigues, e O Pagador de Promessas, de Dias Gomes. Tenho visto excelentes montagens dos grandes textos do teatro universal por aqui. Há algumas semanas, quando assistia Medida por Medida no Shakespeare Globe, desejei que você estivesse ali comigo.
     Mas  também  dou-lhe  espaço  para  suas  próprias paixões, algumas das quais não compartilho, como a dos jogos eletrônicos. No entanto, se elas lhe fazem bem e lhe proporcionam momentos felizes, possuem todo o meu apoio.

domingo, 22 de novembro de 2015

Praga, Kafka e Adoniran

     Cheguei  em  casa  no  meio  da  madrugada,  tendo enfrentado um frio terrível e cruzado o caminho das criaturas da noite londrina, após passar os últimos dois dias em Praga, que é uma de minhas cidades favoritas em virtude de sua beleza, de sua qualidade de vida e de sua personalidade. A capital da República Tcheca é certamente um lugar aonde um dia retornarei com você e onde faremos muitas coisas interessantes dos museus à culinária, dos passeios descontraídos ao aprendizado de história e arquitetura.
     Nos  últimos  tempos,  tenho  pensado  muito  no  dia  de retornar ao Brasil neste fim de ano e também no dia de retornar em definitivo. Infelizmente tenho dúvidas sobre se de fato poderei passar o Natal que se aproxima em Minas, reencontrando-o em São Paulo alguns dias antes. É que tenho tido de me haver com a Imigração britânica, para resolver questões relacionadas a meu direito de viver e trabalhar aqui no decorrer do próximo ano. Pode ser que venham a segurar meu passaporte durante esse período, a fim de analisar meus documentos antes de me concederem um novo visto. Nesta semana, ao me relacionar com seus oficiais em seu complexo escritório, mergulhei na burocracia desumanizada e tive um dia que foi uma página de Kafka.
     Passarei  por  grandes  mudanças  no  decorrer  do  ano que vem. Tenho certa apreensão, mas estou tranquilo, pois há muito tempo minha vida tem sido uma ciranda de transformações radicais e sei que no fim das contas tudo se ajeita. Como filosofa Adoniran Barbosa, "mulher, patrão e cachaça, em qualquer canto se acha".

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Bares e seus nomes


     Passei  outro  dia  por  um  bar  chamado  "O  Sapo Arrogante". Na entrada, esse anfíbio, pelo qual tenho simpatia mas que nunca imaginei tendo como sua característica definidora a arrogância, está lá num terno bem cortado, bengala e boina na cabeça, portando  estilosamente uma taça de vinho na mão esquerda. Um verdadeiro dândi à maneira de Oscar Wilde, um D'Annunzio dos brejos ou um Baudelaire dos pubs.
     Por  aqui  os  bares  costumam  ter  nomes  absurdos, que juntam duas coisas muito díspares. Lembro de haver passado diante alguns com nomes como "The mad Bishop and Bear", "Lamb and Flag", "Elephant and Castle", "Pig and Whistle". 
     E  até  já  escrevi  aqui sobre o Zuiudo's Bar, o Bar dos Pobres e o Pingo no i, em Divinópolis. 
     Bebo  muito  pouco,  tomo  sempre  muito  cuidado  ao consumir bebidas alcoólicas e não sou frequentador de bares. Mas gosto desse bom humor e desse surrealismo de alguns deles.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Minha mãe e a distância

     Conversei  na  tarde  de  hoje  com  minha  mãe,  após algumas semanas sem conseguir fazer contato. Ela, que está enfrentando problemas de pressão alta e outros perrengues, disse que tem medo de morrer e não conseguir se despedir de mim. Espero que isso jamais aconteça, pois eu sofreria muito numa situação assim. Conto com seu hábito de exagerar bastante os seus males a fim de provocar a simpatia e a comoção de seus filhos, apesar de saber que seus problemas de saúde são reais.
     Ela  disse  ainda  que  tem  rezado  muito por mim, pois estou num momento de transição e de obrigação de fazer escolhas que mudarão bastante a minha vida. E que está com muita saudade de você, a quem não vê há vários anos, que gostaria de lhe dar um abraço e pegá-lo no colo. Mal sabe ela que você já não é mais um menininho de se pegar no colo.
     Por  falar  em  você,  a  distância  tem  esse  mal  de  nos relaxar de vez em quando. Há algum tempo que não tenho notícias suas, em parte em virtude de problemas em seu telefone, mas há o computador e outros meios. Amanhã, que é um dia especial para mim, gostaria de receber um contato seu.

sábado, 7 de novembro de 2015

De um pai ausente

     Uma  vez  ouvi  o  educador,  sociólogo,  antropólogo, escritor e político Darcy Ribeiro dizer ironicamente, ao fazer um relato autobiográfico, que ele teve a sorte de perder o pai aos três anos. Talvez você possa dizer algo semelhante, não por haver me perdido, mas por haver se separado de mim na mesma idade. Hoje, após tanto sofrimento e tantas perdas, olhando para trás e avaliando esses sete ou oito anos de ruptura, vejo que, em muitos aspectos, ainda pior que ter um pai ausente é ter um um pai presente, já que você tem crescido sem essa autoridade repressora e sufocante a seu lado todos os dias, podendo ter uma infância mais livre e mais espontânea. Não que eu não me importe com o que está se passando em sua vida nem procure saber do que tem feito, como tem se desempenhado na escola e como tem se comportado. A separação teve isso de bom: estou em posição de ser incentivador de suas vocações e ajudá-lo a descobrir sempre coisas novas e alçar voos próprios sem o desgaste e a aridez do cotidiano. E cada um de nossos encontros, por raros que sejam, são sempre uma aventura e uma ocasião muito aguardada e planejada. A felicidade e a cumplicidade de nossos encontros nunca nos puderam ser tiradas.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A poesia brotando na vida

     Na  noite  passada,  tive  novamente  o  sonho  de que estou escrevendo um belíssimo poema. E, como sempre acontece, ao acordar não me lembrava de nada a respeito do texto. Sempre fico intrigado quando esse sonho vem e daria tudo para recordar o que escrevi enquanto dormia.
     De todo modo, este parece ter sido um estranho dia em que o poético andou povoando as minhas horas. Numa das aulas na universidade, em que os estudantes estavam relatando eventos especiais de que participaram ou tomaram conhecimento, minha aluna anglo-brasileira Isabella contou, de olhos úmidos, que, por ocasião da morte inesperada de sua prima, em plena juventude, quando, já ao anoitecer, o corpo esperava para ser preparado para o funeral, um beija-flor apareceu, sobrevoando-o e posteriormente pousando ao lado de sua avó, que interpretou aquilo como uma visita do espírito da jovem falecida e começou a falar com ele. Se esse acontecimento não corresponde à realidade, sendo apenas imaginado, pelo menos compõe uma bela história.
     Ao retornar para casa sob uma garoa fininha, vindo pela margem do rio, vi no céu um insólito arco-íris invertido, com o arco virado para baixo e as pontas para cima. Nunca tinha visto algo semelhante e acabo de ler que se trata de um fenômeno natural muito raro.
      E  ainda  no  campo  do  poético,  me  lembrei  há  pouco, quando estava desenvolvendo a nada poética tarefa de passar roupas, de um episódio da sua primeira infância, quando você passava temporadas na casa de minha mãe. Naquelas ocasiões, meu menino jamais ia dormir sem me pedir que o colocasse sobre os ombros e o levasse para "ver a cidade". Isso consistia em atravessar a rua e caminhar uns 50 metros até um muro em torno de um lote ainda vago. Nesse muro havia um furo por se via as luzes da área central de Divinópolis, já que o bairro onde minha mãe então morava fica numa parte mais alta e não muito distante do centro. Jamais ir dormir sem "ver a cidade" sempre foi para mim uma experiência viva de poesia. 

domingo, 1 de novembro de 2015

Uma sacada em Bucareste



     Após  uma  semana  longe  de casa, estou agora no aeroporto de Bucareste, pronto para retornar à Inglaterra. Passei os últimos três dias na Romênia, que é um país com uma rica cultura, embora parte dela esteja bastante mal cuidada, pelo que se vê em muitos belos edifícios de sua área central, que estão em péssimo estado de conservação, além de cartazes com publicidade cobrirem muitas fachadas que mereceriam ser vistas. Esse descaso com o patrimônio cultural infelizmente nos é familiar. Em agosto passado estive em Ouro Preto e me surpreendi com o estado precário de algumas igrejas por lá. Isso para não falar no estado dos centros históricos das capitais brasileiras.
     Olhando,  por  aqui,  a  sacada deste edifício, ontem à tarde penso nos muitos equívocos da arquitetura moderna, com sua obsessão pela linha reta e os facílimos blocos quadrados. Claro que as formas e conteúdos devem mudar, mas poucos são os Niemeyers, Frank Lloyd Wrights ou Le Corbusiers. Em virtude de nossa falta de planejamento, preservação do patrimônio do passado e urbanismo de qualidade, é evidente que nossas cidades estão ficando cada vez mais feias. Mas como poderíamos desenvolver grandes projetos coletivos com essa elite vagabunda e ignorante que nos comanda?
     Como  esta  vida tem sido uma agitação permanente de um lado para outro, vou agora tomar outro avião, dentro do qual prepararei minhas aulas de amanhã na universidade. Com a proximidade do fim do ano e de algumas provas, já estou às voltas com alunos tensos e preocupados. Que esses dias passem logo e que eu possa mais uma vez cruzar o Atlântico para reencontrá-lo no fim do ano.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Num frio de outono ao pé dos Bálcãs




     Cheguei ontem a Sófia, capital da Bulgária, uma cidade com aproximadamente 7 mil anos de história. Para um dia de outono, está extremamente frio. Hoje pela manhã fazia apenas 1 grau Celsius. Porém, como bom brasileiro, não saí apropriadamente agasalhado, pois deixei no hotel um casaco mais quente que trouxe comigo, indo para as ruas com uma blusa mais leve. Mas sou resistente a baixas temperaturas.
     O que mais gosto quando viajo é sair perambulando pelas cidades e encontrando as pessoas locais. E gosto mais de estar num lugar onde nunca estive no meio da semana, em vez de no fim de semana, pois dessa maneira se encontra a cidade funcionando como ela realmente é, com as pessoas engajadas em suas atividades do dia a dia.
     Soube hoje que na região central de Sófia há muitas fontes de águas termais públicas. Nelas a água jorra do fundo da terra, bem quente e soltando fumaça. Tem um gosto sulfuroso, e a gente daqui vem buscá-la em garrafas, para tomá-la em casa, pois, em virtude de sua composição química, é boa para problemas estomacais e renais. Embora felizmente não tenha nenhum desses problemas, também bebi um pouco, para ter uma experiência da vida local.
     Apesar de a cidade não ter várias atrações estonteantes, tenho me sentido bem aqui, pois os búlgaros se parecem com os brasileiros em muitas coisas, inclusive em seus defeitos, como nos hábitos de se atrasar e de adiar as coisas. De um modo geral, gosto mais da Europa do Leste que da do Oeste.
     Ao caminhar o dia todo pelas ruas centrais, deparei-me com uma iconografia bastante diferente para mim e também com quase tudo escrito em alfabeto cirílico. Como tenho estudado um pouco da língua russa recentemente, tenho podido ler muitas palavras, embora não compreenda a maioria delas. Também os sabores do país são distintos, com uma culinária bastante rica.
     Quando  vivencio  essas novas experiências tão longe de casa, sempre penso no que você diria se estivesse aqui comigo. E como faria uso do seu inglês, que é muito bom para a sua idade. Eu compartilharia muitas descobertas com você, mas lhe daria liberdade para explorar as coisas de acordo com seus interesses, tal como fazemos em São Paulo, quando o encontro e passamos alguns dias juntos.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Memórias do fim do amor


     Estou  hoje  na  cidade  de  Zagreb. Depois de resolver um compromisso acadêmico, saí a perambular pela cidade alta, que é a parte mais antiga da capital da Croácia. De repente, um tanto por acaso, minha atenção foi fisgada por uma placa: "Museum of Broken Relationships". Após ir ver do que se tratava, fui muito bem surpreendido por esse insólito Museu das Relações Terminadas.
     Tenho  visto  museus  sobre  quase  tudo  por  este mundo afora, mas nunca havia imaginado que um museu assim existisse, pois, no fim de relações amorosas, só se pensa em - ou só se deseja - esquecer. Além do mais, praticamente todos os museus do mundo são muito triunfalistas, dedicando-se à memória de homens e coisas bem-sucedidas, exaltando as mais belas realizações da arte, da cultura ou da história de uma civilização. O Museu das Relações Terminadas, porém, guarda a memória do fracasso, exibindo resíduos de amores mortos. Os objetos ali expostos são testemunhos da clássica antologia de sentimentos que assolam os amantes quando acaba uma relação em que investiram o melhor de si: melancolia, raiva, dor, desejo de vingança, senso de inadequação e perda de seus mais básicos referenciais.
     Numa  das  galerias,  há  um  machado  utilizado  por  um alemão de Berlim cuja companheira o trocou por outro homem. Com essa ferramenta, ele retornou à casa que partilharam e destruiu todos os móveis, para que o entulho produzido se parecesse com seu estado de espírito. Num outro canto, há um ursinho de pelúcia com um coraçãozinho no peito, onde se lê um convencional "Eu te amo". No entanto, logo ao lado há outra inscrição: "Que mentira! Mentiras, malditas mentiras!". Numa outra sala, há um anão de jardim partido e com o rosto bastante danificado após ter sido lançado por uma eslovena contra o para-brisas do carro novo do ex-marido no dia de seu divórcio. Já uma canadense doou ao museu duas bonequinhas de porcelana que representam as únicas coisas boas que permaneceram após o fim de seu casamento: as duas filhas. E as outras peças ali expostas, doadas por pessoas que vivenciaram relações mal-sucedidas, seguem nessa toada. Qualquer pessoa que tenha um objeto que sintetize um amor fracassado, pode doá-lo para o museu. E quem desejar também pode contar sua história e desabafar sua dor de cotovelo ali. Eu mesmo tenho objetos e histórias que poderiam perfeitamente fazer parte daquela coleção. E a frase de meu amigo Doc poderia estar escrita naquelas paredes: "Amar é um saco!".
     Fiquei  fascinado  com  um  museu  assim  num  tempo como o nosso, que cultua tanto o sucesso, a vitória, a superação de limites e a felicidade obrigatória. A tragicomédia do amor exposta pelo Museu das Relações Terminadas, para além de seu efeito catártico, lembra-nos que o fracasso, o sofrimento e a perda são parte intrínseca da vida de todos nós. E estimula uma importantíssima reflexão sobre a fragilidade dos laços humanos.
     Andando pelas galerias do museu, lembrei-me do filme As Canções, um documentário de Eduardo Coutinho em que ele registra depoimentos de pessoas comuns sobre suas perdas amorosas, associando-as sempre a canções que marcaram suas histórias, que são cantadas por elas ao fim de cada relato. E também me lembrei do poeta Ovídio, que há mais de 2.000 anos já havia escrito o brilhante Os Remédios do Amor, em que dá conselhos sobre como se restabelecer do luto amoroso e seguir a vida. É a única alternativa que resta.
     Um  homem  da  minha  idade  naturalmente  já enfrentou a questão do fracasso de relacionamentos, como testemunha a própria situação em que vivemos como pai e filho. Mas a sensação com que saí do museu foi mais leve do que a daqueles que tiveram de quebrar coisas como terapia para poderem seguir adiante. Há um momento, quando o relacionamento não frutifica mais, em que temos de simplesmente deixar o outro partir e cuidar de nós mesmos, pois mais doloroso que isso seja. Não conseguiremos jamais mudar as outras pessoas. Espero que você possa pensar nisso quando, dentro de mais alguns anos, se vir diante de um relacionamento que acaba e tiver de partir. Só não sei lhe dizer exatamente o que fazer, pois, na minha impulsividade, não tenho sido eu mesmo nenhum modelo sobre como agir.

domingo, 25 de outubro de 2015

Zema e Bob Dylan






     Chego  em  casa  um  pouco  tarde,  tendo  de  viajar amanhã bem cedinho, mas gostaria de escrever sobre a experiência que acabo de vivenciar. Venho do Royal Albert Hall, onde assisti a um concerto do grande Bob Dylan. Em plena maturidade e completo domínio do palco, ele manteve o público atendo por duas horas, cantando canções recentes e alguns clássicos de seu repertório em novos arranjos.
     Lembro-me  agora  de  uma  história  sobre  ele.  Eu devia ter uns 13 ou 14 anos, em Divinópolis. No fim da escola primária e pública, eu escrevi uma ingênua peça de teatro cômica na qual também atuei, juntamente com meu colega de turma Gelber. O diretor da peça foi Zema, nosso professor de Educação Artística, que faleceu há alguns anos. Como Zema era um homem que nos guiava nos meandros das artes, um dia, não me lembro se depois de um ensaio ou uma aula, perguntamos-lhe, à queima-roupa, quem era o maior cantor do mundo. E ele respondeu sem pestanejar: "Bob Dylan". A partir dali passei a ouvir com mais atenção o músico americano e, mais tarde, ao compreender a língua inglesa, a me impressionar com a qualidade de seus versos, sendo também profundamente tocado por sua gaita. Hoje, de vez em quando até saio para correr ouvindo ao telefone canções excepcionais como "Knocking on the heaven's door", "Like a rolling stone", "Mr. Tambourine man", "The times they are a-changing". Porém nunca imaginei que um dia estaria ali, a poucos metros do próprio Bob Dylan. Se Zema estivesse vivo, eu lembraria essa história e lhe mandaria algumas das fotografias que acabei tirando durante a performance do "maior cantor do mundo".