terça-feira, 28 de julho de 2015

Entre montanhas e lagos



     Em  período  de  férias,  enfim  me  decido a passar uns dias no Lake District, no norte da Inglaterra. É um lugar que vinha desejando visitar desde que vim morar aqui. 
     Tenho  passado  algumas  horas  no  topo  de  montanhas altíssimas e aproveitado algum tempo à beira de lagos de águas claras. Embora seja verão, alguns dias são frios e pode chover a qualquer momento. E o topo das montanhas, aonde se chega após duas ou três horas de árdua caminhada, é sempre muito frio.
     Como  há,  por  todo  lado,  um  batalhão  de  carneiros  e ovelhas espalhados pelas montanhas, acabei descobrindo que assustá-los, perseguindo-os, é algo muito divertido. Você iria adorar essa atividade. 
     Do  alto,  a  vista  dos  vales,  lagos,  pequenas  cidades e vilas é muito bonita. Aqui viveu William Wordsworth, o grande poeta romântico inglês que, não por acaso, escreveu muitos poemas inspirados nestas paisagens. 
     Dentro  de  mais  dez  dias,  chegarei  a  São  Paulo  para encontrá-lo, antes de ir passar algum tempo em Minas, onde está minha família e alguns amigos, e no Rio de Janeiro, onde terei um compromisso. Estou contando os dias, pois estou com muita saudade. Levarei uma surpresa para você.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Um jeito de ver as pessoas


     Tive  hoje  a  tarde  livre  e  fui  à National Gallery, onde passei cerca de três horas visitando as extensas e maravilhosas galerias dedicadas ao Renascimento. Entre tantas pinturas de cenas mitológicas, históricas, bíblicas ou hagiográficas, este "Baco e Ariadne", de Ticiano, chamou-me a atenção. No quadro, o deus do vinho, acompanhado por um séquito de músicos, sátiros, pessoas em estado de transe celebratório e animais (e pedaços de animais), surge de uma paisagem que sugere uma floresta. Apaixonado por Ariadne, ele salta de uma carruagem puxada por duas chitas e, pairando no ar, dirige-se a ela, que havia sido abandonada na ilha de Naxos por Teseu, cujo navio se vê à distância. Ariadne tem uma clara expressão de medo. Porém, como conta Ovídio nas Metamorfoses, Baco em breve a elevará aos céus, transformando-a na constelação representada sobre sua cabeça.
     Sempre  que  estou  diante  de pinturas e esculturas, vejo filmes ou peças de teatro, leio histórias, costumo fazer uma relação entre os tipos representados artisticamente e pessoas que conheço. Ainda que pertençam a épocas, circunstâncias e mundos completamente diferentes, os tipos humanos são limitados e muito recorrentes tanto nas representações artísticas quanto na vida. O Baco de Ticiano, por exemplo, com seu aspecto infantil e pleno de vida, me fez associá-lo a você. 
     Se  pensarmos na literatura, quando olho para as pessoas próximas, sempre vejo minha mãe como uma acabada personagem de Guimarães Rosa, com suas histórias de um Brasil arcaico, palavras inventadas e frases dignas de um Riobaldo ou um Manuelzão. Uma delas, que poderia perfeitamente estar em Grande Sertão: Veredas, é a recorrente "Neste mundo não há o que não haja". E ainda há as expressões como "cabelo estisicado", "zuiudo", "chatonildo da Silva".
     Minha  irmã  Renata,  com  seu  gênio  forte  e  sua perseverança, me lembra a Antígona de Sófocles. Já Kelly, minha outra irmã, é perfeitamente uma personagem do dramaturgo Tennessee Williams, algo meio Blanche Dubois, meio Laura Wingfield. Meu tio Iraci, com sua valentia teatral, é um Capitão Rodrigo de Erico Verissimo. E meu primo Paulinho, que atravessou a vida preso a seus complexos, mas que possui uma vida interior riquíssima, faz lembrar a Prima Biela de Autran Dourado, em Uma Vida em Segredo. E eu mesmo tenho sido um misto de Príncipe Mishkin, de Dostoiévski, e Holden Caulfield, de Salinger, com todo o sublime e o ridículo que eles contêm.
     Considerando  alguns  de  meus  amigos,  Doc,  em  São Paulo, é Macunaíma escrito e escarrado. Cleionário, em Divinópolis, que costumo definir, para júbilo de outros amigos, como hétero enrustido, é Quincas Borba. E tenho aqui uma amiga britânica, Florence, que é meio Capitu, de Machado de Assis, meio Albertine, de Proust.
     Havia  um  goleiro,  nos  tempos  de  futebol  na USP, que, quando chegava, alto e magrelo, com seu cabelo comprido, suas joelheiras e sua mania de esparramar-se no chão com espalhafato para tentar defender a bola, uma imagem me vinha logo à mente: D. Quixote. E me lembro de um colega de escola, na adolescência, a quem deram o apelido de Carinha de São Francisco. E realmente, diante daquele olhar santíssimo, daquela aura e daquela serenidade, minha mãe, que é uma católica dos tempos góticos, seria capaz de cair de joelhos e beijar-lhe as mãos. E quantos Quincas Berro d'Águas havia no bairro da minha infância, habitantes de um reino etílico chamado Bar do Jacó! 
     Em  São  Paulo,  antes  de  você  nascer,  por  algum tempo eu convivia esporadicamente com uma moça que era a própria imagem do bourgeois gentilhomme ou das preciosas ridículas, de Molière. E havia também muitas Mmes. Bovarys e Annas Kareninas malcasadas, algumas com destino igualmente trágico.
     Vejo,  entre  os  políticos  que  estão  dominando a cena política brasileira de hoje, alguns Simão Bacamartes, muitos Brás Cubas, muitos Castelos do conto "O homem que sabia javanês", alguns Macbeths e Reis Lears...
     Bem,  isso  talvez  nos  mostre  que  a  arte  é algo tão intrínseco à vida que podemos ler as pessoas próximas e nós mesmos com os olhos dos grandes artistas, ainda que eles tenham vivido em épocas longínquas e criado personagens com referências muito distintas.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Reinvenções

     Outro  dia  eu  falava  em  saudade,  em  exílio  e  no sofrimento de estar longe de você e longe do Brasil. Tenho tido um percurso irregular e imprevisível neste tempos líquidos em que vivemos. Estou sempre envolvido em várias atividades diferentes, não constituí uma carreira profissional e, já tendo passado dos 40 anos há um bom tempo, não tenho nenhum problema básico resolvido. Vivi um casamento fracassado, tenho minha família e meus amigos distantes e de tempos em tempos tenho mudado de cidade, de país, de emprego e de estilo de vida. Se tudo isso me proporciona certa liberdade e oportunidades raras, pago sempre um alto preço na forma da solidão e da insegurança de não saber nunca do que está por vir.
     Tenho  meus  compromissos  financeiros  com  você,  com minha mãe e comigo mesmo, tendo, portanto, de dar sempre o próximo passo com cuidado e responsabilidade. Tenho tido um padrão de vida modesto e busco não abandonar algumas atividades que amo: a literatura, o futebol, as viagens, por exemplo, que dão um significado mais profundo a minha vida ou simplesmente a tornam mais interessante.
     É  verdade  que  tenho  sido  agraciado  com  os  lampejos da felicidade nesse percurso marcado por uma grande quantidade de sofrimento e angústia. Mas talvez nós só realmente aprendamos alguma coisa verdadeiramente quando somos confrontados com o fracasso, a dor e a perda. Então somos obrigados a nos reinventar. É o que tenho feito com uma recorrência maior do que eu desejaria. É o que tive de fazer quando fui obrigado a me separar de você e quando decidi vir viver tão longe. É o que agora parece estar tomando corpo: a necessidade de me reinventar no Brasil e perto de você mais uma vez.

sábado, 18 de julho de 2015

Vontade de voltar

     Nestes  dias  de  férias,  entre  viagens  e  alguns  dias em casa, me pego sentindo muita saudade do Brasil. Faz já mais de meio ano que estou longe de nossas coisas, de nossa gente, de você. Gostaria de ter um trabalho em que viajasse, no mínimo, uma vez por mês ao Brasil. Por mais que se ganhe profissionalmente ou em termos de vivências distintas com a experiência internacional, perde-se muito em termos pessoais e afetivos. E o imigrante sofre por estar sempre com a cabeça em outro lugar.
     Esta  é  a  terceira  vez  que  saio  para  viver  no exterior, mas, em meu coração, é como se nunca tivesse deixado o Brasil, que sempre tenho carregado vivíssimo comigo aonde quer que eu vá. Por mais que tenha experimentado outros cheiros, outros sabores, outras línguas, outras paisagens e o contato enriquecedor com outras pessoas, tenho sido sempre, no bom e no mau sentido, o mesmo menino do interior de Minas, fã de Drummond, da folia de Reis, do Galo, do feijão tropeiro, da conversa fiada com os amigos.
     Nos  últimos  tempos,  tem  se  intensificado  a  vontade de voltar. Aliás, dentro de mais alguns meses meu contrato de trabalho vai expirar. A possibilidade de não o renovar tem se tornado uma realidade. Além de tudo, você está crescendo longe de mim, e já perdi grande parte de sua infância. Sinto que será importante estar mais próximo durante o seu desenvolvimento na adolescência. Vamos ver se as pressões econômicas e os compromissos com a vida prática não me forçarão a estender por mais alguns anos este exílio do outro lado do Atlântico, do qual também não serei injusto de reclamar, pois tenho vivido coisas muito boas e me relacionado com pessoas excelentes ao longo destes anos.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Uma rua chamada Literatura


     Estou  agora  no  aeroporto  de  Vilnius,  pronto  para embarcar de volta para a Inglaterra. Andei passando algum frio durante esta semana em terras muito ao norte do mundo. Quando parti, após oito meses de tempo ruim, finalmente fazia sol e calor em Londres, com temperaturas elevadas. Com isso achei que as coisas seriam assim por aqui também, já que estamos no meio do verão. Por não haver trazido uma blusa, enfrentei um frio de uns 10 a 12 graus por aqui, em especial pela manhã e à noite. Só mesmo o brasileiro tem a desfaçatez de vir a essas paragens sem blusa. Com isso, este brasileiro teve de comprar uma por aqui. Coisas de um verão frio.
     Perto  de  onde  me  hospedei,  na  área  mais  antiga da capital da Lituânia, descobri que há uma rua Literatura. Nas paredes das casas ali situadas, há poemas, trechos de narrativas, placas e objetos em homenagem a escritores do país. Eu mesmo gostaria de morar numa rua chamada Literatura. E bastaria esta rua para me fazer simpatizar com a Lituânia.
     Nestes  dias  nos  países  bálticos,  fiquei  impressionado de forma bastante positiva com a qualidade de vida dos cidadãos desses lugares pequenos, de recursos muito limitados e que passaram até há poucas décadas por guerras e dominação estrangeira. Ao testemunhar isso, penso no Brasil, com todos os seus múltiplos e transbordantes recursos e onde tantas pessoas vivem tão mal, condenadas pela miséria, a ignorância, a insegurança, a falta de perspectivas. Enquanto não atacarmos essas calamidades de frente, combatendo a extrema desigualdade entre as pessoas, reformando nossa política e qualificando nossos sistemas públicos de educação e saúde, continuaremos vítimas de nossa própria inépcia. Mas não gosto de falar mal do Brasil, em relação ao qual sou otimista. Já mudamos para melhor desde que eu era menino para cá. E o processo histórico segue em frente. Você já tem uma vida mais confortável que a minha na sua idade e viverá sua maturidade num país melhor que este de hoje.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Uma surpresa e uma expectativa em Riga


     Após  cruzar  o  mar  Báltico  e  passar  um  dia  na  Finlândia, retornei para o outro lado e estou hoje na Letônia. Estou muito surpreso com Riga, a capital do país, que é uma das cidades mais bonitas onde já estive. Tanto o centro histórico quanto as regiões modernas são muito bem cuidados. Há bastantes áreas verdes, o grande rio Daugava que cruza área urbana e o mar nas proximidades. A qualidade de vida me parece excelente. 
     Se não me engano, hoje é uma data nacional no país, e muitas crianças (bem como alguns adolescentes e adultos) estavam diante de um bonito Monumento à Liberdade, cantando e dançando canções típicas. Sei que esse costume de celebrações coletivas vem do tempo em que a Letônia era um país comunista, há poucas décadas. Mas o espetáculo me pareceu autêntico, entusiasmando de fato os participantes, algo muito diferente daquelas abomináveis festinhas juninas de nossas escolas, nas quais, quando menino, eu ficava constrangido naquelas roupas e chapéu de falso caipira, inclusive com dentes pintados de preto, para dar a ilusão de falhas.
     Sempre  penso  em  você  quando estou assim longe de casa, perambulando pelas ruas de países distantes, conversando com as pessoas locais e experimentando novos gostos, novos cheiros e novas cores. Neste momento de minha vida, tenho tido a sorte de poder fazer isso, algo com que sonhei muito durante a minha adolescência. Mas não imaginava que se daria na proporção em que está acontecendo agora. Desejo que você também tenha esta oportunidade um dia, quando for mais independente. Se possível, que ainda possa fazer isso comigo algumas vezes. Tenho muitas histórias para lhe contar acerca desses lugares.
     Mas  o  fato  é  que  estou  contando  os  dias  para o início do mês que vem, quando estarei em São Paulo e o reencontrarei após oito meses distante. Eu trocaria todos os lugares que conheço e os que ainda vou conhecer por nunca ter saído de perto de você. Porém a vida tem seus mistérios e suas crueldades, dos quais nenhum de nós escapa. O que importa é que, apesar de tudo, estamos bem e nunca deixamos de ser pai e filho, de nos amar e nos ter sempre como uma grande referência recíproca.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Um caminho na Estônia

     
     Estou  hoje  em  Tallinn,  capital  da  Estônia,  um país pequeno circundado por vizinhos grandes e fortes como a Rússia, a Finlândia e a Suécia. Logo que tive um tempo, fui hoje visitar o Museu de Arte Moderna e um palácio que pertenceu ao czar Pedro, o Grande, no século XIX, quando o país fazia parte do império russo. Ao fim dessas visitas culturais, saí meio sem rumo por este parque no entorno do palácio. De vez em quando começava um leve chuvisco, mas fui até o fim deste caminho, onde um monumento com um anjo dá de frente para o mar Báltico. Do outro lado do golfo, não muito distante, está a Finlândia, por onde também passarei nos próximos dias. 
     Ao fim deste caminho, pus-me a passear pela praia, que estava deserta. Até que em certo momento, uma fragata sobrevoou minha cabeça, piando agressivamente. Olhei em volta e vi que ela estava com filhote ali por perto. Então me afastei do seu bebê, para quem logo o macho trazia alguma coisa para comer.
     Esse  episódio  me  fez  lembrar  um  acontecimento que se deu conosco há alguns anos, no campus da USP. Estávamos jogando futebol, trocando passes longos, quando a bola passou por você e foi parar ao longe, perto de um quero-quero. Meu menino correu, lépido e fagueiro, para buscá-la e levou um tremendo susto quando mamãe quero-quero deu um voo rasante sobre sua cabeça, mostrando as garras e piando alto. Ao ouvir o grito de "Papaaaai!!!", seguido de choro, corri para protegê-lo, pegando-o no colo e tirando-o dali, onde, a poucos metros, dois ou três filhotes, com suas pernas compridas, caminhavam perto da bola. Depois coube a mim a dura missão de resgatá-la. Tive de voltar lá. E o fiz numa corrida veloz, levando voos rasantes e gritos estridentes de papai e mamãe quero-quero. Um deles chegou a tocar minha cabeça com suas garras. Mas a bola foi salva e fomos jogar bem longe dali. Desde então, por algum tempo, quando você não queria comer direito, era só ameaçar chamar o quero-quero, e lá se ia um bom prato de comida.

sábado, 4 de julho de 2015

A atual onda de racismo

     Leio  nos  jornais  brasileiros  que  uma  jornalista  de televisão, negra, recebeu ataques racistas na página da emissora na internet. No ano passado, um goleiro negro foi ofendido com gritos de "macaco" durante um jogo pela Copa do Brasil. Há alguns dias, fanáticos pentecostais atiraram pedras numa família de pessoas negras por elas praticarem o candomblé. Ainda recentemente uma madame da elite paulistana falava mal dos costumes, da música e da comida dos negros. Como dizia a canção de Haroldo Barbosa, "pra que discutir com madame"?
     Nos  últimos  anos,  temos  visto  um  recrudescimento do fascismo no mundo. Talvez só se possa explicá-lo como fruto de uma miserável ignorância, pois é sabido por quanta barbaridade e quanta infâmia ele foi responsável no decorrer do século XX. E é assustador ver políticos se elegerem com plataformas fascistas, jornalistas de extrema-direita celebrizarem-se por opiniões racistas, sexistas e homofóbicas, programas de televisão preconizarem soluções para os problemas do país que vão de encontro a toda uma tradição estabelecida a respeito dos direitos humanos.
     Quanto ao racismo em particular, talvez bastasse lembrar alguns de nossos negros que são o sal da terra: um Zumbi dos Palmares, um José do Patrocínio, um Luis Gama, um Cruz e Sousa, um Lima Barreto, um Mestre Bimba, um Pixinguinha, uma Eliseth Cardoso, um Leônidas, um Pelé e tantos outros. Mas contra a burrice não há argumentos. Esperemos a lei e o sistema jurídico simplesmente funcionem e enquadrem os imbecis.
     Vivendo  num  bairro  branquinho  de  classe média  de São Paulo, frequentando escola particular com colegas que reproduzem os valores pequeno-burgueses de seus pais, espero que você não esteja ouvindo estultices fascistas e que sua escola tenha uma postura clara contra elas. Eu ficaria muito irritado se soubesse que barbaridades dessa laia são ditas e praticadas perto de você.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Lindíssimo!

     Em  troca  de  mensagens  nesta  semana,  você  me contou que está muito bem na escola, com todas as notas acima de 7,5, que tem alguns bons amigos e que segue praticando com prazer a leitura, o futebol e o violão. Alegro-me por saber que tem tido uma vida com muitas atividades para além da conectividade à internet e dos jogos eletrônicos, ainda que também dedique algum tempo do seu dia ao mundo virtual, o que é normal e necessário. É uma alegria saber que você está bem e que, ao tudo indica, trilhará um bom caminho na vida. Como lhe disse muitas vezes, tenho orgulho de ser seu pai.
     No  começo  de  agosto,  chegarei  a  São  Paulo  para encontrá-lo e passar um fim de semana com você. Quando vou a Minas, minha mãe - que não o vê há anos - sempre me pergunta como você está e o que tem feito. E sempre dá um suspiro ao ver suas fotos, dizendo: "Mas como ele está bonito!". E eu confirmo: "Lindíssimo!".
     Como  todos  nós,  você  tem lá os seus defeitos também: uma grande impaciência (que certamente vem de mim), passagens rápidas e sem transição de uma atividade para outra (que também por certo vem de mim) e um ar de excessiva seriedade (que também vem de mim). Pelo que se vê, meu legado psicológico talvez não seja dos melhores. Mas entre meus muitos e grandes defeitos não estão o da desonestidade e o desumanidade, que tampouco farão parte, jamais, de seu caráter.

sábado, 27 de junho de 2015

Ciclistas ao natural



     Há cerca de duas semanas, comprei uma bicicleta. Minha intenção é utilizá-la apenas em alguns fins de semana, para ir para os parques da cidade durante o verão que está começando, já que as ruas de Londres são muito perigosas para ciclistas. Somente hoje, porém, saí com ela pela primeira vez. Precisei ir a meu escritório, que fica no centro da cidade, para imprimir um documento, e resolvi pedalar pela margem sul do rio Tâmisa, que apresenta bonitas paisagens. No entanto, quando eu estava cruzando a ponte de Waterloo, de repente fui envolvido por um protesto de ciclistas nus que começaram a passar por ali, ultrapassando-me. Encostei a bicicleta num canto e, por uns dez minutos, fiquei vendo aquela exótica manifestação. Velhos, jovens, homens e mulheres em forma ou um tanto acima do peso passavam nus. Jamais imaginei que veria tal cena bem na área central da cidade. Os manifestantes, que eram milhares, mostraram-se muito populares, pois uma multidão os aguardava após a ponte, com palavras de apoio. Eu também sou simpático a eles, seja por sua postura política num mundo em que tanta gente é indiferente aos desmandos dos poderosos, seja pela naturalidade com que passearam de bicicleta com seus corpos desnudos, que nada tinham de obscenos. Obscena é a visão de um George Bush, um Paulo Maluf ou um Aécio Neves, obscenos são o trânsito e os rios de São Paulo, extremamente obscena é a desigualdade das pessoas num país como o Brasil.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Um falso passarinho


     Enfim  o  ano  acadêmico  está  chegando  ao  fim por aqui. No mês que vem, estarei de férias e pretendo fazer algumas viagens, uma ao Lake District, no norte da Inglaterra, e outra à Estônia, à Letônia e à Lituânia, que são lugares muito interessantes. E em agosto passarei cerca de três semanas no Brasil, quando o reencontrarei após muitos meses de um oceano entre nós.
     Nos  últimos  dias,  tenho  podido ler muitos e bons livros e escrever um pouco. Dei início à redação de um romance inspirado nos últimos dias de vida de meu pai, no leito de um hospital. Não sei onde isso vai dar, mas aceito o desafio.
     Estou  com  muita  saudade  de  você,  já  pensando em nossas brincadeiras, nossas refeições juntos e nossas conversas quando nos encontrarmos. Quero mais detalhes sobre como estão as coisas na escola, o que tem aprendido por lá, quem são seus amigos e o que tem feito.
     Gosto sempre de lhe trazer algumas surpresas. Esta não será mais surpresa, mas tudo bem. Estive recentemente na Polônia e lá comprei-lhe este passarinho de barro que canta ao ser assoprado, desde que se lhe coloque um pouco d'água por dentro. O curioso é que vi passarinhos verdadeiros se aproximando ao ouvirem o canto destes. Veremos se isso acontecerá com os sabiás de São Paulo.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Da amizade

     Acabo  de  receber uma mensagem de meu amigo Doc, perguntando quando estarei em São Paulo em agosto e me convidando para almoçarmos juntos. Claro que aceitei o convite, pois é sempre muito divertido encontrá-lo e saber de suas histórias bizarras e hilariantes.
     Estava me lembrando há pouco de algumas de suas frases: 

     - "Cada país tem a sua doideira." (sobre as diferenças culturais)
     - "Esse cara é o vampiro da nossa paciência." (sobre um certo Djavan)
     - "Amar é um saco." (sobre o mais romântico dos sentimentos)
     - "Eu sou um inguinorante!" (sobre sua própria ignorância)

     Inteligente,  amalucado  e  nada  convencional,  péssimo futebolista e bom lutador, Doc tornou-se meu amigo há cerca de 20 anos, no Centro de Práticas Esportivas da USP. Embora muito diferentes em nossos gostos e visões de mundo, aproximado-nos e, na companhia de outros amigos, fizemos muitas coisas juntos ao longo dos anos.
     Sei  que ele vive me colocando nas nuvens quando fala de mim, dizendo que sou muito disciplinado, responsável e perseverante. E eu, sempre que falo dele, destaco sua honestidade e seu senso de humor, além de não resistir a contar muitas de suas histórias, em que ele se envolve em grandes quiproquós. 
     Às  vezes  você me conta de atividades e passeios com seus amigos. Alegro-me que tenha algumas pessoas com quem pode compartilhar sua vida, seus sentimentos e seus pensamentos. Sempre construímos a realidade, seja ela boa ou má, com os outros, e eles nos dão uma dimensão mais clara de nossas virtudes, nossos defeitos, nossos limites e nossas possibilidades. Portanto, seja sempre uma pessoa aberta a um encontro qualificado com os outros.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Um lugar onde o silêncio se impõe


     Estou  passando  esta  semana  na  Polônia.  Cheguei  na segunda-feira a Cracóvia, que é uma cidade muito bonita e com ótima infraestrutura, cheia de parques bem cuidados e com uma conjugação muito bem feita entre o antigo e o moderno. Apesar de a língua polonesa, com suas várias consoantes em sequência, me parecer extremamente difícil, tenho me identificado muito com o país, que me parece um dos mais interessantes da Europa.
     Hoje,  no  entanto, fui fazer uma visita nada agradável. Levantei-me cedinho e viajei para Auschwitz e Birkenau, a uns 70 km de Cracóvia, onde, entre 1940 e 1945, os nazistas construíram sua linha de produção da morte. Obviamente foi uma visita que contrastou muito com as outras que tenho feito pelo país. Minha postura naqueles lugares foi de completo silêncio durante as três horas que ali permaneci conhecendo os campos de trabalho escravo, as câmaras de gás onde mais de um milhão de pessoas foram assassinadas, os paredões de fuzilamento, as cercas eletrificadas duplas, os galpões onde os prisioneiros viviam nas piores condições que se pode imaginar, os lugares onde moravam e trabalhavam os carrascos alemães.  Ao final, retornei para Cracóvia mais desencantado com a nossa espécie, que tão facilmente é capaz de descambar para a monstruosidade. Por outro lado, é preciso não se esquecer de que ela também é capaz de regenerar-se e recriar-se. Definitivamente o que aconteceu em Auschwitz e Birkenau não pode ser esquecido. Aqueles museus do holocausto foram dois dos lugares mais impressionantes onde já estive, que me fizeram sentir algo ruim, mas reforçaram meus valores humanísticos. Saí dali ainda mais convencido dessa coisa básica que é a necessidade de respeito à diferença e à dignidade de cada ser humano, bem como do perigo das ideologias redentoras ainda na época atual, em que as tiranias e toda sorte de infâmias não se tornaram coisas do passado. Tenha sempre cuidado com o excesso de convicção, pense sempre por você mesmo e seja seu próprio líder.
     Muitas  crianças,  ao  chegarem  a  Birkenau,  eram diretamente enviadas para as câmaras de extermínio, pois não serviam para o trabalho estafante imposto por aqueles servos do totalitarismo. Entre as comoventes vitrines expondo os pertences dos martirizados, esta, com roupas e sapatinhos de crianças assassinadas ali, tocou muito especialmente a mim, que tenho um filho de dez anos, alguém como aqueles meninos e meninas de destino tão infeliz que nem sequer tinham ideia do que estava acontecendo quando eram conduzidos às câmaras de gás, para onde iam talvez brincando.
     Ao  fim  da  guerra,  olhando  as  montanhas  de cadáveres nos campos de morte, alguém disse: "Diante disso, Deus não pode existir". Concordo e pergunto em que recanto do universo estaria Deus diante da asfixia daqueles meninos nas câmaras de gás. Ou Deus não passará do silêncio cercado de indiferença por todos os lados?
     Em  meio  à  memória  das  barbaridades  cometidas naqueles dois campos de concentração, também me chamou a atenção a vida explodindo por todos os lados. Flores campestres e não cultivadas brotam entre as gramíneas que entremeiam os barracões onde os prisioneiros dormiam, pássaros estão por todo lado. Até uma raposa passeava por entre as ruínas das câmaras de gás. Essa exuberância de vida é a homenagem que a própria natureza presta aos que ali pereceram tão ignominiosamente.
   

sábado, 13 de junho de 2015

Um conto de Canterbury

   
     Estive  ontem  no  lugar  onde  se  passam  os  Contos de Canterbury, que espero que você leia um dia, pois são excelentes. A cidade é muito bonita e bem organizada. Há um rio de águas límpidas e uma vida muito tranquila. Mas a grande atração é a catedral gótica, construída durante a Idade Média. Cada recanto da enorme igreja foi construído minuciosamente, com um olho artístico (ou melhor, muitos olhos artísticos). Recentemente tenho me apaixonado pela cultura que gira em torno do gótico.
     Como  era  um  dia  do  meio  da  semana,  tudo  estava funcionando normalmente em Canterbury. De vez em quando eu via grupos de meninos da sua idade indo ou voltando da escola. E também muitos meninos de escolas francesas que estavam em visita à cidade, pois a região fica numa pontinha da Inglaterra bem próxima da França. Nesses momentos é claro que me lembrei de você ao vê-los conversando animadamente, fazendo piquenique nos parques, correndo em disputas uns com os outros. Aposto que você ganharia de todos, pois confio na sua velocidade.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Um fim de semana em Oxford


     Passei  o  fim  de  semana  na  cidade  de  Oxford, onde se localiza uma velha e tradicional universidade. As construções antigas estão muito bem preservadas. É a Inglaterra old-fashioned no bom sentido dessa expressão geralmente utilizada em mau sentido. Vinicius de Moraes estudou ali, onde também escreveu belos poemas e viveu o primeiro de seus muitos casamentos. Além da vida universitária, da boa efervescência cultural e da parte histórica, Oxford possui excelentes parques, com muitas áreas verdes e abertas, com o pequeno rio Isis passando junto à área central. Sobre ele, que é bastante raso, há sempre alguns remadores com seus barcos leves e finos. Se você estivesse por ali, na certa alugaríamos um e iríamos enfrentar uma aventura sobre as águas. Ao ver os remadores em ação, senti falta dos nossos desafios.

sábado, 6 de junho de 2015

Seu discípulo

     Outro  dia  eu  mencionava  aqui  o  porco-espinho  de Schopenhauer. Hoje em dia, já tendo entrado pelos 40 anos afora, penso que viver é sempre essa interação  contínua com os outros em busca de adequação, ou melhor, de prazer e alegria. O adolescente melancólico e radical que fui continua vivo, mas agora aceita suas imperfeições e suas limitações como um porco-espinho que se ajusta ao homem de meia-idade cheio de responsabilidades em que agora se transformou.
     Vivemos  hoje  numa  cultura da reclamação, da denúncia, da culpabilização. Parece que nos tem faltado algo fundamental: a capacidade de admirar, de nos entusiasmar, de nos encantar. Nisso as crianças sempre têm muito a nos ensinar. E nisso tenho sido seu fiel discípulo.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Ontem


     Estive  ontem  na  British  Library,  passando  por  uma exposição dos tesouros do acervo da grande biblioteca inglesa. Entre muitos livros valorosos e partituras de composições de grandes compositores clássicos, havia uma seção dedicada aos Beatles, de cuja música você gosta, chegando mesmo a tocar algumas de suas canções ao violão. Lá estava o manuscrito de "Yesterday", composta por Paul McCartney em 1965, após haver sonhado com a melodia.
     Por  falar  em  música,  gostaria  de  saber  o  que meu violonista predileto anda tocando ultimamente e se tem usado o cavaquinho que lhe dei no Natal passado. Às vezes me passa pela cabeça a ideia de fazer uma canção junto com você, que entraria com a música, enquanto eu escreveria a letra. Imagine só essa parceria!

terça-feira, 2 de junho de 2015

Um brasileiro

     Já  estamos  em  junho,  em  avançada  primavera, e o tempo ainda está ruim por aqui. O frio ainda não nos deixou, e agora estamos assolados por um vento chato o dia todo. Essas circunstâncias atmosféricas têm sido algo mais a reforçar minha saudade do Brasil, que tem se intensificado nos últimos tempos. Esta minha terceira experiência no exterior em virtude de estudos, trabalho, outras perspectivas ou exílio reparador tem sido muito importante em minha vida. Mas estou vivendo em Londres há vários anos e meu coração permanece no Brasil, tal como aconteceu durante minha residência nos Estados Unidos e no Uruguai. Por mais que outras terras tenham me oferecido coisas boas, pelas quais sou muito grato, sinto-me sempre um tanto mutilado no exterior. As pessoas me fazem falta, você me faz falta, nossa luz e nossos cheiros me fazem falta. Contudo, não vou me queixar ou ruminar qualquer espécie de saudosismo. Estou vivendo bem este momento, e aonde quer que eu vá o Brasil estará comigo e se expressará através de mim. Nisso sou mais brasileiro que nunca.

domingo, 31 de maio de 2015

É o Saci!


     Às  vezes  falo  às  pessoas  daqui  a  respeito  de nossas tradições populares, de nossas comidas, de nossas lendas e mitos. Chego a mostrar um livrinho que publiquei  há alguns anos, recontando à minha maneira algumas histórias do nosso povo, livrinho esse que reúne histórias que eu costumava lhe contar quando você ia dormir. Tal como acontecia com você, muitos por aqui ficam fascinados com a riqueza do imaginário brasileiro.
     Ao  sentar  aqui para escrever, penso no Saci Pererê, que, por volta dos seus cinco anos, divertia-o com suas molecagens. Minha mãe, que foi criada na roça, garante que uma vez, quando menina, junto a uma plantação de arroz, estando em companhia de minha avó, viu-o e correu para casa, assustada. Mas antes lançou para trás um pedaço de corda cheio de nós, pois é sabido que ele costuma parar para desfazer nós. 
     A  popularidade  do  Saci  parece  realmente  grande, pois, a despeito de a cultura caipira praticamente já estar morta e da sufocante modernidade em que hoje vivemos, este que aqui aparece foi pintado num muro de São Paulo, talvez o lugar mais anti-Saci Pererê do Brasil.
     Talvez  eu  tenha  pensado  hoje  no  famoso negrinho de uma perna só para lembrar-lhe de ter sempre um espírito aberto para nossas tradições e também para o conhecimento que vem de fora das escolas e dos livros, conhecimento esse que diz muito sobre o que somos e como somos. Por exemplo, há muito da molecagem do Saci Pererê em nossos Garrinchas, em nossos Macunaímas, em nossas Carmen Mirandas, figuras geniais da nossa civilização. Portanto, que sua cultura possa ir de Mozart ao reinado, da ópera à capoeira, de Platão aos proverbos populares, de Fellini ao forró.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Um pai fictício

     Terei  uma  temporada  de  pelo  menos  dois  meses  e meio sem ter de comparecer à universidade. Este é um período de pesquisa, mas tenho pensado em, paralelamente à pesquisa, escrever um romance com um protagonista inspirado em meu pai. Ele foi uma figura excelente para uma obra ficcional, em virtude de suas contradições e seus excessos.
     Recentemente  li  Um Bom Filho,  relato autobiográfico do filósofo e escritor francês Pascal Bruckner sobre seu pai, que foi um tirano doméstico, um admirador do nazismo e uma antologia das tolices mais espúrias. Talvez eu não tenha muito estômago para expor, como Bruckner, as misérias de meu próprio pai, inclusive por eu mesmo possuir as minhas, tendo evitado julgá-lo agora que ele está morto. Por isso prefiro o registro da ficção, fazendo com que sua personalidade se construa conforme as necessidades da história e inventando coisas que não correspondem à realidade do que ele foi.
     Não  sei  onde  isso vai dar, se é que vai dar certo. Mas já tenho inclusive um plano da história, sabendo como ela vai começar, desenvolver-se e terminar. Tenho pensado no tom da linguagem e se ele mesmo aparecerá falando e se expondo ou se será, em grande parte, apresentado por outro personagem, provavelmente um filho, que conta e comenta suas ações. Tenho até um título provisório: Em Nome do Pai. Mas tenho certo receio construir uma imagem muito negativa dele, pois, para efeito literário, temos sempre de exagerar um pouco as coisas. Tenho inclusive certo receio do que você pensará sobre a desarmonia do lar em que me criei. Mas a vida não é nenhum parque de diversões, como você já deve saber. Não tenho por que me refrear por causa disso.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Stonehenge


     Ontem  foi  feriado  por  aqui,  e  decidi  tomar um trem na estação perto de casa e ir até Salisbury, que é uma cidadezinha bastante graciosa, partindo de lá para Stonehenge, que fica por perto. A famosa e impressionante construção de mais de 5 mil anos, cujas origens e finalidades permanecem misteriosas, é um lugar que gostaria de lhe mostrar um dia. 
     Lembro-me  de  Stonehenge  como  plano  de  fundo ou descanso de tela de muitos computadores nos anos 1990. Nunca havia pensado que estaria diante daquelas pedras um dia. 
     A  curta  viagem  até  lá  valeu a pena também pela oportunidade de passear pelos campos no entorno do monumento. É primavera e eles estão bastante floridos. Infelizmente o frio ainda não nos deixou, o que podia ter tornado tudo mais agradável. Mas foi uma experiência de beleza que valeu a pena.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Minha mensagem ideal

     Numa crônica que é uma das páginas de mais profunda poesia na literatura brasileira, Rubem Braga diz que seu ideal seria escrever uma história tão engraçada que trouxesse o riso e a alegria a uma moça doente e reclusa de uma casa cinzenta de seu bairro. E que, a partir de então, sua história de espírito chapliniano se espalhasse pelo mundo, divertindo as pessoas e fazendo com que elas se tornassem mais generosas e mais humanas.
     Pensei  no  ideal  de  Braga  ao  imaginar  a  mensagem ideal que gostaria de escrever para meu filho. Sem dúvida seria também um texto bem-humorado, que o faria rir muito e dizer: "Mas o papai é muito engraçado!" Seria simples, terna e intensa como um abraço no momento de um encontro após longo tempo sem nos vermos, dizendo coisas essenciais. Seria concisa, de modo a atingir sua sensibilidade de forma direta e franca. Conteria o sentido de proteção e segurança de nossas mãos dadas ao atravessar uma rua movimentada de São Paulo, o encanto das lendas e mitos que eu lhe contava à beira da cama, quando você ia dormir, o ânimo de nossas conversas durante os passeios pelas ruas dos bairros de Divinópolis, com você sentado sobre meus ombros. E conteria também o brilho de seus olhos diante de tudo o que veem, o interesse pelo mistério do mundo que dispara suas inúmeras perguntas...
     E  que  essa  mensagem  pudesse  ser  lida por outros pais e outros filhos, fazendo com que eles também rissem - se possível juntos -, se abraçassem, se respeitassem e desfrutassem da alegria de se saberem amados e de não estarem sozinhos neste mundo.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Dos bens não contáveis

     Vivemos  num  tempo  em  que  tudo  se  mede por sua utilidade e seu valor pecuniário. O mercado tornou-se uma religião que, como toda religião, possui seus dogmas e gera seus fanáticos. Os publicitários tornaram-se os novos sacerdotes. E o shopping center, essa catedral do consumo, passou a ser o lugar aonde se vai para exercitar uma fé que se confunde com uma compulsão de comprar. No entanto, se as religiões tradicionais celebram uma experiência coletiva e comunitária, a religião do mercado é a celebração do individualismo mais boçal e alienado.
     Vivendo na capital mundial dos shopping centers, sendo vizinho de um deles, espero que você esteja tendo a possibilidade ter como cenário de sua vida lugares mais interessantes, como as ruas, os parques, as praças, as estradas, os campos de futebol, o teatro, a escola, as feiras livres. E que possa conviver também com pessoas diferentes daquelas pertencentes à classe média paulistana, que, em sua grande maioria, é composta por reacionários, preconceituosos, ignorantes, atrasados e mal-educados, ainda quando possuem formação universitária e exercem profissões liberais.
     Acima  de  tudo,  desejo  que  você  saiba  valorizar o que não pertence estritamente à ordem da utilidade e do que pode ser medido em números. Tais coisas a jamais se perder de vista se resumem aos grandes temas que nos tornam humanos, como o amor, a poesia, o erotismo, a contemplação da natureza, a solidariedade, a amizade, o respeito pela vida em comunidade e o bem público, ou seja, tudo aquilo que o livrará da mesquinhez, da avareza espiritual, da mediocridade pecuniária e da compulsão maníaca de acumular. Claro que você deverá cuidar de seu bem-estar material, o que também é importante. Apenas busque-o com dignidade e mantenha esses bens maiores sempre em seu horizonte.

sábado, 16 de maio de 2015

Porcos-espinhos

     De  vez  em  quando  recebo  mensagens  de  pessoas desconhecidas que leem o que escrevo aqui. Em sua maioria são pais e até algumas mães apartadas de seus filhos que se identificam com meus textos. Em geral me contam suas dificuldades, expressam sua tristeza e mencionam a ausência de rancor na forma como tenho buscado viver a paternidade que me é possível.
     Quando  comecei  a  escrever  neste  espaço,  pensei que em pouco tempo os assuntos talvez se esgotassem. Mas fui percebendo aos poucos que havia todo um acervo de lembranças do tempo em que vivíamos juntos e eu cuidava de você, de suas temporadas na casa de minha mãe e dos fins de semana que pudemos passar juntos, dos contatos que temos tido após eu vir morar num outro recanto deste mundo, com um oceano entre nós. Além disso, há tudo o que nos acontece e tudo o que nos surpreende no dia a dia e que vale a pena ser comentado, compartilhado, analisado. E há as nossas brincadeiras. A vida de uma pessoa é sempre muito complexa, e o mundo é ao mesmo tempo essa imundície e essa maravilha que conhecemos.
     Schopenhauer costumava comparar as relações humanas a dos porcos-espinhos. Quando eles querem se aquecer, aproximam-se uns dos outros, mas se ferem. Com isso, têm de se distanciar. Porém, quando distantes, sentem frio. De modo que têm de se reaproximar e se distanciar até que encontrem a proximidade adequada para suportar a dor produzida pelos espinhos alheios e poder se proteger do frio. Assim são realmente as nossas relações: uma constante busca de ajustamento. Em nosso caso, tivemos de nos ferir muito até encontrar nosso lugar, nosso calor e nossa paz. Esse ajustamento, no entanto, é flexível e vai mudando conforme as circunstâncias de nossa vida. Acredito que inclusive estaremos muito mais próximos na medida em que você for crescendo e se tornando mais independente.
     Nas circunstâncias atuais, no mínimo temos as nossas palavras, que nos proporcionam um mínimo de liberdade e lucidez na escuridão e no mistério da vida.

sábado, 9 de maio de 2015

Com o Guarani em Londres


     Acabo  de  chegar  de  um  jogo  de  futebol  para  o qual me convidam a cada duas semanas. O campo fica no norte de Londres, perto do estádio do Arsenal. É sempre um time de camisa branca contra um time de camisa vermelha, e o nível técnico dos jogadores, em geral uns dez anos mais jovens que eu, é bom. Hoje fiz parte da equipe branca. Ganhamos por 5x3. Joguei bem e fiz quatro gols, inclusive dois de cabeça.
     Quando  jogo  no  time  branco,  costumo  ir  com uma camisa do nosso Guarani, cuja única aspiração no Campeonato Mineiro tem se limitado a não cair para a segunda divisão e, se possível, tentar dificultar as coisas para Atlético e Cruzeiro quando os enfrenta, o que muito raramente acontece. Não foi sempre assim. Quando eu era menino, no final da década de 1970 e início da de 1980, meu pai às vezes me levava ao estádio no bairro Porto Velho - onde na adolescência eu viria a jogar muitas vezes -, para ver um excelente Guarani, que tinha  jogadores como Gilberto Voador, Catatau, Fernando Roberto, Coca, Prego, De Paula. Este último, que mais tarde, após o fim da carreira, seria assassinado durante um assalto, era vizinho de nossa família no bairro Afonso Pena e nosso amigo, excelente lateral direito e grande figura. Mesmo o grande Galo de Toninho Cerezo e Reinaldo sempre tinha muitas dificuldades para ganhar daquele Guarani em Divinópolis. Até que o futebol foi se tornando cada vez mais elitizado, sendo os campeonatos estaduais completamente dominados por dois ou três clubes todo-poderosos contra quem os pequenos não têm chances.
     Voltando  ao  jogo  de  hoje,  minha  camisa  do Guarani, que nem patrocínio tem, desfilou em campo entre camisas brancas ou vermelhas do Arsenal, do Manchester United, do Liverpool, do Milan, do Real Madrid, do Bayern de Munique, das seleções da Alemanha, da Inglaterra e da Espanha, quase todas exibindo no peito logotipos de grande empresas. Entre esses gigantes do business futebolístico, lá estava eu quixotescamente fazendo meus quatro gols e dando minhas pedaladas com a camisa do nosso humilíssimo Guarani. Outro dia me perguntaram se se trata de um time da segunda divisão no Brasil, ao que eu respondi: "Mais ou menos". 
     Espero  que  você  também  esteja  mostrando  o  seu futebol pelos campos da cidade de São Paulo - entre camisas do Corinthians, do Palmeiras, do São Paulo e do Santos - com a camisa vermelha e branca do Guarani que lhe dei há cerca de dois anos. Jogue bem com ela e mostre aos paulistas a força das suas origens, apesar de, a rigor, você ser um belo-horizontino.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Patinhos da primavera











     Costumo  correr  de  segunda  a  sexta-feira às margens do Tâmisa, nas proximidades de minha casa. Numa região próxima da ponte que conecta o bairro de Battersea ao prestigioso Chelsea, do outro lado do rio, sempre há alguns patos que moram por ali e que convivem bem com a população de humanos que vive nas redondezas. Por esta época, início de primavera, eles se reproduzem. Me lembro de que em anos passados isso acontecia com pontualidade, exatamente em final de abril, começo de maio, quando o longo inverno daqui está acabando e o tempo inóspito vai dar uma trégua de alguns meses. Quando novo inverno começar, os patinhos que nasceram por agora estarão grandes e independentes, tomando seu rumo em direção a algum recanto do país. 
     Tenho  sempre  passado  por  esta  família, que, após se alimentar, descansa bem no caminho dos corredores, ciclistas e pedestres no fim da tarde. Gosto do respeito com que esses patos são tratados por ali. Todos tomam cuidado com os pequenos e há até avisos pelos postes de iluminação para que os donos de cachorros não os deixem incomodá-los. É esse tipo de relação que sempre o ensinei a ter com os animais, que têm tanto direito como nós de terem o seu lugar neste mundo e serem respeitados.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Do encontro e da solidão

     Já  lhe  escrevi  outras  vezes  sobre  a  necessidade  de encontrar-se com as pessoas, em especial aquelas com um estilo de vida diferente do seu, conversar com elas, ver que nosso universo de valores e crenças é diverso e muito limitado. Quando buscamos enxergar as coisas do ponto de vista dos outros, aprendemos muito sobre a riqueza de cada ser humano, bem como sobre o respeito que cada pessoa merece. Por isso, quando estamos juntos, gosto de levá-lo ao campus da USP no sábado à tarde, para jogar futebol com os meninos da favela próxima, além de colocá-lo em contato com artistas, velhos, intelectuais, índios, estrangeiros e alguns outsiders que conheço. Costumamos andar de ônibus, de metrô ou trem, o que em si já é uma experiência direta com a variedade da fauna humana.
     Contudo,  se  há  o  tempo  do  encontro  com  os  outros, há também o tempo de ficar sozinho. Há alguns dias, eu escrevia aqui sobre Montaigne. Lembro-me de um ensaio sobre a solidão em que ele trata da necessidade de se possuir um recanto pessoal onde podemos nos encontrar com nós mesmos e exercitar a liberdade, a fim de aprendermos inclusive a lidar com nossas perdas e fracassos com um mínimo de leveza. Mas não se trata de um retiro egoísta, um simples mergulho na introversão ou um mecanismo de proteção contra as maldades do mundo. É um espaço para refletir e olhar para dentro de si mesmo, descansando, assim, dos esforços cotidianos e de algumas concessões que inevitavelmente temos de fazer, restabelecendo ou mantendo nossa integridade.
     Que  você  saiba,  ao  longo  da  vida,  administrar  bem essa dialética entre o compartilhamento do mundo com os outros e essa forma de solidão revigorante.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Linguagem e humor

     Lembro-me  de  uma  vez  você  ter  rido  de  uma  frase que ouvi ou li não sei onde: "'Cada um dando um pouco se fazem grandes coisas', como disse a sardinha urinando no mar". Como você, gosto desse humor infantil, feito de exagero e inocência.
     Quando  nos  encontramos,  você  mesmo  gosta  de  me  propor charadas e adivinhas em geral bem-humoradas.
     Em  O Chiste e sua Relação com o Inconsciente,  livro  em que Freud analisa psicologicamente o humor, ele apresenta um diálogo engraçado pelo absurdo e certa crueldade da situação, além da ambiguidade das palavras: 

"Como tem andado?", perguntou um cego a um paralítico. 
"Como você está vendo", respondeu o paralítico.

     No  Brasil,  a  fala do povo é cheia, por exemplo, de comparações hilariantes. Recordo algumas que ouço de vez em quando: "mais sozinho que chinelo de Saci", "mais complicado que calça de polvo", "mais feio que bater em mãe em dia de Sexta-Feira da Paixão", "mais perdido que Adão no Dia das Mães", "mais contente que cachorro com dois rabos", "mais longo que arroto de girafa", "mais perigoso que cirurgião com soluço", "mais nervoso que gato em dia de faxina", "mais fechado que porta de submarino", "mais difícil que fazer gargarejo de bruços"...
     Meu  amigo  Doc,  em  São  Paulo,  vive  dando uma definição do amor que não é nada romântica, carregada que é de certa rudeza expressiva: "Amar é um saco!". 
     E  os  insultos  na  língua  do  povo,  que  possuem  léxico e uma sonoridade riquíssimos, costumam ser também muito criativos. Lembro-me de uma vez, nas ruas de Divinópolis, ter ouvido um bate-boca em que alguém disparou um "Seu filho de uma sapa!". A surpreendente variação do clássico e desgastado xingamento tornou-o ainda mais virulento e ofensivo.
     Temos  uma  cultura  popular  exuberante  que  é  uma das muitas razões para se ter orgulho do Brasil. E também costumamos utilizar a língua de forma criativa, apesar de costumarmos nos dar uma liberdade tão ampla em seu uso que muitas vezes descamba para a falta de rigor e de um mínimo de formalidade necessária. De todo modo, sou muito simpático a esse bom humor que se manifesta inclusive em nossas injúrias. Como eu, você também se diverte com isso e até tira proveito da expressividade desses ditos no que fala e no que escreve. Acho importante que sua cultura vá de Dante às adivinhas, da tragédia grega à capoeira, de Bach ao forró, apesar de saber distinguir seus diferentes pesos e seus diferentes contextos. Isso indica no mínimo um espírito curioso e uma mentalidade aberta.

domingo, 26 de abril de 2015

Bandeira em Battersea

















               "Uns tomam éter, outros cocaína.
                Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria."

     Cheguei  há  pouco  de  uma  corrida de aproximadamente sete quilômetros pelo parque de Battersea, o bairro onde moro. Durante a corrida, fui ouvindo, com o telefone amarrado ao braço, o ator Juca de Oliveira recitando poemas de Manuel Bandeira. Cheguei em casa, e os versos acima, do poema "Não sei dançar", continuaram ressoando em minha cabeça.
     A  vida  está  longe  de  ser  um  parque  de  diversões, e às vezes somos confrontados com violentas perdas, fracassos e frustrações. Mas temos sempre de nos movimentar e buscar outros caminhos. A vida é também muito vasta e cheia de possibilidades. Se, como Bandeira, "hoje tomo alegria", em parte foi por haver tomado tristeza no passado e me ver obrigado a me reinventar, livrando-me do que me machucava, do que me diminuía. Continuo tendo problemas, eventuais fracassos, perdas e frustrações. Mas tomo hoje alegria, pois sei que tenho forças e criatividade para enfrentá-los. Estou bem de saúde, tenho podido fazer o que gosto, possuo alguns poucos mas bons amigos e algumas pessoas que me amam e se importam comigo. Tenho você.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Montaigne essencial

     Mais  uma  vez  estou  às  voltas  com  a  leitura  de meu filósofo favorito, Michel de Montaigne. Seus "Ensaios" têm sido para mim um livro fundamental, que releio de tempos em tempos. É impressionante como tudo o que ele escreveu há 500 anos continua atualíssimo e como sempre nos identificamos com seu pensamento. O curioso é que ele sempre escreveu sobre si mesmo, refletindo sobre como agiu em situações concretas. Alguns títulos de seus textos, pouco convencionais nas obras de um filósofo, dão uma ideia de como ele explorava as mais diversas dimensões da vida: "Da tristeza", "A força da imaginação", "Da educação das crianças", "Dos canibais", "Da solidão", "Dos odores", "Fiquem para amanhã os negócios", "De como julgar a morte", "Dos polegares", "Da arte de conversar", "Dos coxos", "Da fisionomia"... Gosto da forma como seu pensamento passeia livremente por esses temas, muitas vezes fugindo do assunto e até contradizendo o que disse no começo de suas reflexões, que são sempre sustentadas por um riquíssimo manancial de grandes histórias. Em realidade somos assim, em vez de sermos um modelo de coerência e lógica racional.
     Ontem,  quando  lia  o  ensaio  "Da afeição dos pais pelos filhos", uma das histórias que Montaigne conta para sustentar suas ideias me chamou a atenção: 

     O  falecido  Marechal  de  Monluc, tendo perdido um filho na Ilha da Madeira, jovem fidalgo que muito prometia, contava-me sua tristeza insistindo principalmente sobre o fato de nunca ter tido maior intimidade com ele. Para conservar em relação a ele a gravidade e a distância de que as mais das vezes se reveste a autoridade paterna, privara-se voluntariamente do prazer de apreciar e conhecer melhor o seu filho e também de revelar a profunda afeição que lhe votava e a estima que lhe dedicava por suas qualidades: "Esse pobre rapaz, dizia, nunca me viu senão carrancudo e aparentemente desdenhoso; levou consigo a crença de que eu não o soube amar nem lhe apreciar os méritos. A quem deveria eu, senão a ele, demonstrar a ternura de meu coração? Com ele sem dúvida devia abrir-me para que tivesse alguma alegria e gratidão. Esforcei-me, torturei-me para conservar essa máscara vã de indiferença; isso me fez perder o prazer de sua companhia, bem como de sua afeição, pois nunca foi senão maltratado e por vezes tiranicamente".

     Talvez  essa  história  revolva  intensamente alguma coisa em mim por causa da relação distante e estúpida que meu próprio pai sempre teve comigo. E eu com ele. Hoje que ele está morto, sinto a mesma tristeza do Marechal Monluc por jamais ter podido abraçá-lo, tê-lo como uma pessoa de confiança e dizer-lhe que o amava apesar de tudo, que carrego comigo muito do que ele foi, que hoje vejo traços de seu jeito e de sua personalidade no meu filho.
     Se  nunca  houve  espaço  para  o  afeto  na  relação  que tive com meu pai, tenho buscado - sem que isso seja um plano de ação ou uma rígida disciplina - fazer com que as coisas sejam diferentes entre nós dois, apesar da distância em que vivemos um do outro. Gosto de receber seu abraço e seu beijo em alto volume quando nos encontramos. E de lhe dar os meus. Gosto de nossas conversas sobre o que temos feito, sobre futebol, música e livros. Gosto de abraçá-lo após um gol meu ou seu, de nadarmos juntos, de lutarmos na cama, de comermos juntos...
     Está vendo como Montaigne é essencial?

terça-feira, 21 de abril de 2015

Da migração

     Leio  no  noticiário  que,  há  dois  dias,  um  velho  navio pesqueiro sobrecarregado com cerca de 700 imigrantes que tentavam escapar do caos político na Líbia em direção à Europa naufragou no Mediterrâneo, em alto mar, matando uma quantidade enorme de pessoas que são como nós. 
     Recentemente  também  li  também  uma  reportagem  a respeito de uma espécie de campo de concentração mantido pela Imigração britânica, onde pessoas que entraram ou permaneceram ilegalmente no Reino Unido sofrem toda sorte de abuso. Na maioria absoluta dos casos, seu único crime foi ter nascido em certos países desprestigiados e possuírem uma cidadania considerada de segunda classe pelo pensamento direitista em países considerados muito prestigiosos.
     Vivemos  num  tempo  em  que  o  dinheiro  e  as mercadorias atravessam as fronteiras com a mesma facilidade com que um fantasma atravessa as paredes de uma casa mal-assombrada. No entanto, as pessoas têm de enfrentar os mais rígidos controles e mesmo constrangimentos quando passam de um país para outro. Eu mesmo, vivendo fora do Brasil há alguns anos, sendo esta a terceira vez que, por razões de estudo ou trabalho, saio para morar no exterior, tenho sido, de vez em quando, vítima do mais absurdo burocratismo. De todo modo, se este mundo não está mais justo, ao menos está cada vez mais internacionalizado, multicultural e mestiço. Espero que, quando você crescer e passar pelo processo de formação universitária e trabalho, se tiver de fazer alguma coisa fora do Brasil, que encontre um ambiente mais ameno. Muito especialmente, que tenha respeito por todas as pessoas que encontrar em seu caminho e que jamais se sinta superior nem inferior a ninguém pelo simples e casual fato das suas circunstâncias externas.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Um elogio da lentidão

     Sob  encomenda  da  Editora  da USP, estou traduzindo para o português um livro composto por uma série de artigos de William Morris sobre a arte de fazer livros. Está me dando muito trabalho, pois os textos foram escritos há mais de 100 anos, possuindo uma sintaxe e um vocabulário um tanto diferentes das formas comuns no inglês contemporâneo. De todo modo, é um trabalho fascinante.
     Grande  parte  dos  artigos  de  Morris  tratam  dos  livros manuscritos da Idade Média, que eram grandes obras de arte. A propósito, fui hoje a uma exposição sobre a história do livro na British Library, onde vi de perto vários daqueles exemplares únicos feitos inteiramente a mão por grandes artistas anônimos. A mim chama a atenção - além da beleza das gravuras, dos ornamentos, da tipologia e da organização geométrica de tudo na página - o cuidado com que o livro era produzido. Até mesmo o papel que utilizavam, passados muitas vezes mais de 500 anos até os dias de hoje, em geral está em perfeito estado.
     Com  o  advento  da  impressão  e  o  desenvolvimento de toda uma tecnologia de produção de publicações em massa, ganhamos no acesso ao conhecimento sistematizado por parte de muito mais pessoas, mas perdemos em beleza e qualidade. Os livros medievais são produto de uma época muito diferente, com valores muito distintos daqueles da modernidade. Para mim, o grande contraste ocorre entre lentidão perfeccionista daquele tempo e a pressa que foi tomando conta de nossa cultura e nossa civilização, com consequências óbvias na qualidade de tudo, ainda mais num tempo como o nosso, de submissão total e irrefletida à internet.
     Os  livros  medievais  me  fazem  pensar  agora  num elogio da lentidão. Desejo que você tenha a sabedoria de fazer as coisas com cuidado, tendo paciência para vivenciar bem o tempo que seus processos interiores requerem. Melhor que fazer muitas coisas, numa espécie de capitalismo das realizações, será melhor não fazer muito em qualquer campo em que venha a atuar, mas que aquilo que fizer seja significativo e contenha o zelo de seu trabalho, a expressão de sua sensibilidade, seu amadurecimento como pessoa e seu valor humano.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Sangue Novo

     No  fim  do  ano  passado  lhe  dei  um  grosso e forte caderno protegido por uma caixa de papelão. Na ocasião, recomendei-lhe que o utilizasse para escrever seus pensamentos e falar sobre seus sentimentos. Em realidade o meu objetivo foi lhe dar a oportunidade de praticar a escrita e refletir sobre a sua realidade. Um dia, quando for adulto, você terá uma grande lembrança dos seus tempos de menino e se conhecerá melhor. Conversamos ontem à noite, e você me contou que já há algum tempo está utilizando esse caderno para escrever um diário. 
     A  vida  de  qualquer  pessoa  é  uma  grande  odisseia, cheia de pequenos eventos significativos, de alguns grandes acontecimentos que abrem novos caminhos e possibilidades, de pessoas que entram e saem de nossas relações, de sonhos, fracassos, delírios e algumas realizações decorrentes de nossos esforços. Portanto, você terá sempre muito sobre o que escrever. Ainda mais alguém que já sabe que "sofrer passa, ter sofrido não passa jamais"!
     Dante  intitulou  Vida Nova  a  um  livro  de  sua juventude, em que conta como se tornou poeta e narra um acontecimento que mudou sua trajetória para sempre: seu encontro com Beatriz Portinari. O diário de meu menino será também a história de uma vida nova, de um sangue novo neste velho mundo. Aliás, aí está um título de inspiração dantesca para seu diário: Sangue Novo. 

segunda-feira, 13 de abril de 2015

O sacrifício de Isaac

     Não  tenho  fé  e  me  parece  muito  evidente  que Deus não existe, mas de vez em quando gosto de ler a Bíblia, por ser um livro fundamental para nossa civilização e por ser um repositório de grandes histórias e uma esplêndida realização literária. Neste fim de semana, por exemplo, estive às voltas com a leitura de um episódio que sempre me causou perplexidade e revolta. Está no Gênesis e trata de um momento em que Deus, provavelmente numa eterna falta do que fazer, resolve, de maneira infantil, testar a fé de Abraão. Para isso, ordena-lhe que sacrifique seu filho Isaac. A mesma infantilidade reaparece em outros momento, como na história de Jó.
     Não  sei  o  que  é  mais  abominável,  se  a  ordem dada por Deus ou se a aceitação de Abraão em cumpri-la. Eis o comando do Todo-Poderoso: "Tome seu filho, seu único filho, Isaac, a quem você ama, e vá para a região de Moriá. Sacrifique-o ali como holocausto num dos montes que lhe indicarei". Após receber a indicação do lugar onde deveria assassinar o filho, Abraão organiza seus servos e parte acompanhado por uma comitiva, levando Isaac. Este inocentemente carrega sobre os ombros a lenha para o holocausto e, caminhando ao lado do pai, pergunta-lhe onde está o cordeiro a ser sacrificado em holocausto, recebendo como resposta uma mentira: "Deus mesmo há de prover o cordeiro para o holocausto, meu filho". Ao chegarem ao local do crime, Abraão prepara um altar, arruma a lenha e amarra Isaac, colocando-o no altar, sobre a lenha. No último segundo, quando esse pai indigno está prestes a matar o filho para satisfazer uma vaidade divina, um anjo do Senhor aparece e o impede de cometer a barbaridade, indicando-lhe um cordeiro preso pelos chifres num arbusto, sendo o animal finalmente sacrificado. Então o anjo, porta-voz divino, diz: "Juro por mim mesmo", declara o Senhor, "que por ter feito o que fez, não me negando seu filho, o seu único filho, esteja certo de que o abençoarei e farei seus descendentes tão numerosos como as estrelas do céu e como a areia das praias do mar. Sua descendência conquistará as cidades dos que lhe foram inimigos e por meio dela todos os povos da Terra serão abençoados, porque você obedeceu".
     Se  as  histórias,  as  metáforas  e  a  linguagem  bíblica são fascinantes - inclusive por terem esse poder de me irritar -, isso não quer dizer que eu concorde com a filosofia que ali é exposta. Em primeiro lugar, considerando historicamente o calvário de tantos povos da Terra, tudo indica que nenhum deles foi abençoado. Já num plano mais individual e ético, se o Deus judaico ou qualquer outro me ordenasse algo semelhante, eu de imediato perderia as estribeiras e até o bom-tom, mandando-o ir para aquele lugar, não me importando se um raio, o Diabo ou qualquer outra maldição me fulminasse instantaneamente. Meu filho está muito acima de um deus assim caprichoso, imaturo e arrogante, que joga com um falso mistério. Eu não o obedeceria jamais.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Um crepúsculo de folhinha



















     Estou  agora  no  aeroporto  de  Zurique,  retornando para Londres. Os suíços passam de um lado para o outro, arrastando-se ao peso de tanta organização, tanta previsibilidade e tanto formalismo... Tive um recesso de Páscoa no trabalho e viajei para o norte da Itália, onde fiquei por quase uma semana e encontrei minha amiga de infância Adriana, que hoje é também cidadã italiana, e seu companheiro Maurizio. Andei por Milão, Piacenza, Bologna, Pavia e algumas cidadezinhas localizadas entre estas cidades maiores. Quando o avião estava chegando, olhei pela janela e vi lá embaixo os Alpes, que ainda estão muito brancos, cobertos de neve. Tive a mesma vista de cima quando retornava para a Inglaterra, no primeiro trecho desta viagem com conexão na Suíça. Quanto à Itália, quando a visito sempre fico fascinado com a arte – especialmente a herança do Renascimento, que foi a época de ouro do país, ou das várias cidades-estado que compunham a península itálica na época – e as igrejas, pois muitas delas também são extraordinárias obras de arte. A comida italiana é também outro grande atrativo.
     Em  meu  primeiro  dia,  logo  que  cheguei,  andei com Adriana por algumas vilas circundadas por áreas rurais, enquanto conversávamos sobre muitos episódios vividos no tempo em que morávamos em Divinópolis. De repente, fomos parar às margens de um rio de águas claras, cercado por um bosque onde habitam muitas lebres e cabras selvagens. Ao fim da tarde, a lua já despontava no céu, oferecendo-nos este crepúsculo de folhinha.
     Enviei-lhe  um  cartão-postal  de Milão em que lhe falo de minha saudade de você e da expectativa de que chegue o dia em que poderemos viajar juntos. O mundo é tão vasto e há tanta coisa para ver! Sempre que me deparo com algo novo, original ou simplesmente diferente, penso no que você diria se estivesse ali. Pensei, por exemplo, no que diria diante da serenidade deste rio e dos animais que vivem nas proximidades. Ou dos tons avermelhados ao fundo e da lua cheia e branca que se destacava na parte mais alta desta paisagem.