domingo, 31 de maio de 2015

É o Saci!


     Às  vezes  falo  às  pessoas  daqui  a  respeito  de nossas tradições populares, de nossas comidas, de nossas lendas e mitos. Chego a mostrar um livrinho que publiquei  há alguns anos, recontando à minha maneira algumas histórias do nosso povo, livrinho esse que reúne histórias que eu costumava lhe contar quando você ia dormir. Tal como acontecia com você, muitos por aqui ficam fascinados com a riqueza do imaginário brasileiro.
     Ao  sentar  aqui para escrever, penso no Saci Pererê, que, por volta dos seus cinco anos, divertia-o com suas molecagens. Minha mãe, que foi criada na roça, garante que uma vez, quando menina, junto a uma plantação de arroz, estando em companhia de minha avó, viu-o e correu para casa, assustada. Mas antes lançou para trás um pedaço de corda cheio de nós, pois é sabido que ele costuma parar para desfazer nós. 
     A  popularidade  do  Saci  parece  realmente  grande, pois, a despeito de a cultura caipira praticamente já estar morta e da sufocante modernidade em que hoje vivemos, este que aqui aparece foi pintado num muro de São Paulo, talvez o lugar mais anti-Saci Pererê do Brasil.
     Talvez  eu  tenha  pensado  hoje  no  famoso negrinho de uma perna só para lembrar-lhe de ter sempre um espírito aberto para nossas tradições e também para o conhecimento que vem de fora das escolas e dos livros, conhecimento esse que diz muito sobre o que somos e como somos. Por exemplo, há muito da molecagem do Saci Pererê em nossos Garrinchas, em nossos Macunaímas, em nossas Carmen Mirandas, figuras geniais da nossa civilização. Portanto, que sua cultura possa ir de Mozart ao reinado, da ópera à capoeira, de Platão aos proverbos populares, de Fellini ao forró.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Um pai fictício

     Terei  uma  temporada  de  pelo  menos  dois  meses  e meio sem ter de comparecer à universidade. Este é um período de pesquisa, mas tenho pensado em, paralelamente à pesquisa, escrever um romance com um protagonista inspirado em meu pai. Ele foi uma figura excelente para uma obra ficcional, em virtude de suas contradições e seus excessos.
     Recentemente  li  Um Bom Filho,  relato autobiográfico do filósofo e escritor francês Pascal Bruckner sobre seu pai, que foi um tirano doméstico, um admirador do nazismo e uma antologia das tolices mais espúrias. Talvez eu não tenha muito estômago para expor, como Bruckner, as misérias de meu próprio pai, inclusive por eu mesmo possuir as minhas, tendo evitado julgá-lo agora que ele está morto. Por isso prefiro o registro da ficção, fazendo com que sua personalidade se construa conforme as necessidades da história e inventando coisas que não correspondem à realidade do que ele foi.
     Não  sei  onde  isso vai dar, se é que vai dar certo. Mas já tenho inclusive um plano da história, sabendo como ela vai começar, desenvolver-se e terminar. Tenho pensado no tom da linguagem e se ele mesmo aparecerá falando e se expondo ou se será, em grande parte, apresentado por outro personagem, provavelmente um filho, que conta e comenta suas ações. Tenho até um título provisório: Em Nome do Pai. Mas tenho certo receio construir uma imagem muito negativa dele, pois, para efeito literário, temos sempre de exagerar um pouco as coisas. Tenho inclusive certo receio do que você pensará sobre a desarmonia do lar em que me criei. Mas a vida não é nenhum parque de diversões, como você já deve saber. Não tenho por que me refrear por causa disso.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Stonehenge


     Ontem  foi  feriado  por  aqui,  e  decidi  tomar um trem na estação perto de casa e ir até Salisbury, que é uma cidadezinha bastante graciosa, partindo de lá para Stonehenge, que fica por perto. A famosa e impressionante construção de mais de 5 mil anos, cujas origens e finalidades permanecem misteriosas, é um lugar que gostaria de lhe mostrar um dia. 
     Lembro-me  de  Stonehenge  como  plano  de  fundo ou descanso de tela de muitos computadores nos anos 1990. Nunca havia pensado que estaria diante daquelas pedras um dia. 
     A  curta  viagem  até  lá  valeu a pena também pela oportunidade de passear pelos campos no entorno do monumento. É primavera e eles estão bastante floridos. Infelizmente o frio ainda não nos deixou, o que podia ter tornado tudo mais agradável. Mas foi uma experiência de beleza que valeu a pena.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Minha mensagem ideal

     Numa crônica que é uma das páginas de mais profunda poesia na literatura brasileira, Rubem Braga diz que seu ideal seria escrever uma história tão engraçada que trouxesse o riso e a alegria a uma moça doente e reclusa de uma casa cinzenta de seu bairro. E que, a partir de então, sua história de espírito chapliniano se espalhasse pelo mundo, divertindo as pessoas e fazendo com que elas se tornassem mais generosas e mais humanas.
     Pensei  no  ideal  de  Braga  ao  imaginar  a  mensagem ideal que gostaria de escrever para meu filho. Sem dúvida seria também um texto bem-humorado, que o faria rir muito e dizer: "Mas o papai é muito engraçado!" Seria simples, terna e intensa como um abraço no momento de um encontro após longo tempo sem nos vermos, dizendo coisas essenciais. Seria concisa, de modo a atingir sua sensibilidade de forma direta e franca. Conteria o sentido de proteção e segurança de nossas mãos dadas ao atravessar uma rua movimentada de São Paulo, o encanto das lendas e mitos que eu lhe contava à beira da cama, quando você ia dormir, o ânimo de nossas conversas durante os passeios pelas ruas dos bairros de Divinópolis, com você sentado sobre meus ombros. E conteria também o brilho de seus olhos diante de tudo o que veem, o interesse pelo mistério do mundo que dispara suas inúmeras perguntas...
     E  que  essa  mensagem  pudesse  ser  lida por outros pais e outros filhos, fazendo com que eles também rissem - se possível juntos -, se abraçassem, se respeitassem e desfrutassem da alegria de se saberem amados e de não estarem sozinhos neste mundo.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Dos bens não contáveis

     Vivemos  num  tempo  em  que  tudo  se  mede por sua utilidade e seu valor pecuniário. O mercado tornou-se uma religião que, como toda religião, possui seus dogmas e gera seus fanáticos. Os publicitários tornaram-se os novos sacerdotes. E o shopping center, essa catedral do consumo, passou a ser o lugar aonde se vai para exercitar uma fé que se confunde com uma compulsão de comprar. No entanto, se as religiões tradicionais celebram uma experiência coletiva e comunitária, a religião do mercado é a celebração do individualismo mais boçal e alienado.
     Vivendo na capital mundial dos shopping centers, sendo vizinho de um deles, espero que você esteja tendo a possibilidade ter como cenário de sua vida lugares mais interessantes, como as ruas, os parques, as praças, as estradas, os campos de futebol, o teatro, a escola, as feiras livres. E que possa conviver também com pessoas diferentes daquelas pertencentes à classe média paulistana, que, em sua grande maioria, é composta por reacionários, preconceituosos, ignorantes, atrasados e mal-educados, ainda quando possuem formação universitária e exercem profissões liberais.
     Acima  de  tudo,  desejo  que  você  saiba  valorizar o que não pertence estritamente à ordem da utilidade e do que pode ser medido em números. Tais coisas a jamais se perder de vista se resumem aos grandes temas que nos tornam humanos, como o amor, a poesia, o erotismo, a contemplação da natureza, a solidariedade, a amizade, o respeito pela vida em comunidade e o bem público, ou seja, tudo aquilo que o livrará da mesquinhez, da avareza espiritual, da mediocridade pecuniária e da compulsão maníaca de acumular. Claro que você deverá cuidar de seu bem-estar material, o que também é importante. Apenas busque-o com dignidade e mantenha esses bens maiores sempre em seu horizonte.

sábado, 16 de maio de 2015

Porcos-espinhos

     De  vez  em  quando  recebo  mensagens  de  pessoas desconhecidas que leem o que escrevo aqui. Em sua maioria são pais e até algumas mães apartadas de seus filhos que se identificam com meus textos. Em geral me contam suas dificuldades, expressam sua tristeza e mencionam a ausência de rancor na forma como tenho buscado viver a paternidade que me é possível.
     Quando  comecei  a  escrever  neste  espaço,  pensei que em pouco tempo os assuntos talvez se esgotassem. Mas fui percebendo aos poucos que havia todo um acervo de lembranças do tempo em que vivíamos juntos e eu cuidava de você, de suas temporadas na casa de minha mãe e dos fins de semana que pudemos passar juntos, dos contatos que temos tido após eu vir morar num outro recanto deste mundo, com um oceano entre nós. Além disso, há tudo o que nos acontece e tudo o que nos surpreende no dia a dia e que vale a pena ser comentado, compartilhado, analisado. E há as nossas brincadeiras. A vida de uma pessoa é sempre muito complexa, e o mundo é ao mesmo tempo essa imundície e essa maravilha que conhecemos.
     Schopenhauer costumava comparar as relações humanas a dos porcos-espinhos. Quando eles querem se aquecer, aproximam-se uns dos outros, mas se ferem. Com isso, têm de se distanciar. Porém, quando distantes, sentem frio. De modo que têm de se reaproximar e se distanciar até que encontrem a proximidade adequada para suportar a dor produzida pelos espinhos alheios e poder se proteger do frio. Assim são realmente as nossas relações: uma constante busca de ajustamento. Em nosso caso, tivemos de nos ferir muito até encontrar nosso lugar, nosso calor e nossa paz. Esse ajustamento, no entanto, é flexível e vai mudando conforme as circunstâncias de nossa vida. Acredito que inclusive estaremos muito mais próximos na medida em que você for crescendo e se tornando mais independente.
     Nas circunstâncias atuais, no mínimo temos as nossas palavras, que nos proporcionam um mínimo de liberdade e lucidez na escuridão e no mistério da vida.

sábado, 9 de maio de 2015

Com o Guarani em Londres


     Acabo  de  chegar  de  um  jogo  de  futebol  para  o qual me convidam a cada duas semanas. O campo fica no norte de Londres, perto do estádio do Arsenal. É sempre um time de camisa branca contra um time de camisa vermelha, e o nível técnico dos jogadores, em geral uns dez anos mais jovens que eu, é bom. Hoje fiz parte da equipe branca. Ganhamos por 5x3. Joguei bem e fiz quatro gols, inclusive dois de cabeça.
     Quando  jogo  no  time  branco,  costumo  ir  com uma camisa do nosso Guarani, cuja única aspiração no Campeonato Mineiro tem se limitado a não cair para a segunda divisão e, se possível, tentar dificultar as coisas para Atlético e Cruzeiro quando os enfrenta, o que muito raramente acontece. Não foi sempre assim. Quando eu era menino, no final da década de 1970 e início da de 1980, meu pai às vezes me levava ao estádio no bairro Porto Velho - onde na adolescência eu viria a jogar muitas vezes -, para ver um excelente Guarani, que tinha  jogadores como Gilberto Voador, Catatau, Fernando Roberto, Coca, Prego, De Paula. Este último, que mais tarde, após o fim da carreira, seria assassinado durante um assalto, era vizinho de nossa família no bairro Afonso Pena e nosso amigo, excelente lateral direito e grande figura. Mesmo o grande Galo de Toninho Cerezo e Reinaldo sempre tinha muitas dificuldades para ganhar daquele Guarani em Divinópolis. Até que o futebol foi se tornando cada vez mais elitizado, sendo os campeonatos estaduais completamente dominados por dois ou três clubes todo-poderosos contra quem os pequenos não têm chances.
     Voltando  ao  jogo  de  hoje,  minha  camisa  do Guarani, que nem patrocínio tem, desfilou em campo entre camisas brancas ou vermelhas do Arsenal, do Manchester United, do Liverpool, do Milan, do Real Madrid, do Bayern de Munique, das seleções da Alemanha, da Inglaterra e da Espanha, quase todas exibindo no peito logotipos de grande empresas. Entre esses gigantes do business futebolístico, lá estava eu quixotescamente fazendo meus quatro gols e dando minhas pedaladas com a camisa do nosso humilíssimo Guarani. Outro dia me perguntaram se se trata de um time da segunda divisão no Brasil, ao que eu respondi: "Mais ou menos". 
     Espero  que  você  também  esteja  mostrando  o  seu futebol pelos campos da cidade de São Paulo - entre camisas do Corinthians, do Palmeiras, do São Paulo e do Santos - com a camisa vermelha e branca do Guarani que lhe dei há cerca de dois anos. Jogue bem com ela e mostre aos paulistas a força das suas origens, apesar de, a rigor, você ser um belo-horizontino.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Patinhos da primavera











     Costumo  correr  de  segunda  a  sexta-feira às margens do Tâmisa, nas proximidades de minha casa. Numa região próxima da ponte que conecta o bairro de Battersea ao prestigioso Chelsea, do outro lado do rio, sempre há alguns patos que moram por ali e que convivem bem com a população de humanos que vive nas redondezas. Por esta época, início de primavera, eles se reproduzem. Me lembro de que em anos passados isso acontecia com pontualidade, exatamente em final de abril, começo de maio, quando o longo inverno daqui está acabando e o tempo inóspito vai dar uma trégua de alguns meses. Quando novo inverno começar, os patinhos que nasceram por agora estarão grandes e independentes, tomando seu rumo em direção a algum recanto do país. 
     Tenho  sempre  passado  por  esta  família, que, após se alimentar, descansa bem no caminho dos corredores, ciclistas e pedestres no fim da tarde. Gosto do respeito com que esses patos são tratados por ali. Todos tomam cuidado com os pequenos e há até avisos pelos postes de iluminação para que os donos de cachorros não os deixem incomodá-los. É esse tipo de relação que sempre o ensinei a ter com os animais, que têm tanto direito como nós de terem o seu lugar neste mundo e serem respeitados.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Do encontro e da solidão

     Já  lhe  escrevi  outras  vezes  sobre  a  necessidade  de encontrar-se com as pessoas, em especial aquelas com um estilo de vida diferente do seu, conversar com elas, ver que nosso universo de valores e crenças é diverso e muito limitado. Quando buscamos enxergar as coisas do ponto de vista dos outros, aprendemos muito sobre a riqueza de cada ser humano, bem como sobre o respeito que cada pessoa merece. Por isso, quando estamos juntos, gosto de levá-lo ao campus da USP no sábado à tarde, para jogar futebol com os meninos da favela próxima, além de colocá-lo em contato com artistas, velhos, intelectuais, índios, estrangeiros e alguns outsiders que conheço. Costumamos andar de ônibus, de metrô ou trem, o que em si já é uma experiência direta com a variedade da fauna humana.
     Contudo,  se  há  o  tempo  do  encontro  com  os  outros, há também o tempo de ficar sozinho. Há alguns dias, eu escrevia aqui sobre Montaigne. Lembro-me de um ensaio sobre a solidão em que ele trata da necessidade de se possuir um recanto pessoal onde podemos nos encontrar com nós mesmos e exercitar a liberdade, a fim de aprendermos inclusive a lidar com nossas perdas e fracassos com um mínimo de leveza. Mas não se trata de um retiro egoísta, um simples mergulho na introversão ou um mecanismo de proteção contra as maldades do mundo. É um espaço para refletir e olhar para dentro de si mesmo, descansando, assim, dos esforços cotidianos e de algumas concessões que inevitavelmente temos de fazer, restabelecendo ou mantendo nossa integridade.
     Que  você  saiba,  ao  longo  da  vida,  administrar  bem essa dialética entre o compartilhamento do mundo com os outros e essa forma de solidão revigorante.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Linguagem e humor

     Lembro-me  de  uma  vez  você  ter  rido  de  uma  frase que ouvi ou li não sei onde: "'Cada um dando um pouco se fazem grandes coisas', como disse a sardinha urinando no mar". Como você, gosto desse humor infantil, feito de exagero e inocência.
     Quando  nos  encontramos,  você  mesmo  gosta  de  me  propor charadas e adivinhas em geral bem-humoradas.
     Em  O Chiste e sua Relação com o Inconsciente,  livro  em que Freud analisa psicologicamente o humor, ele apresenta um diálogo engraçado pelo absurdo e certa crueldade da situação, além da ambiguidade das palavras: 

"Como tem andado?", perguntou um cego a um paralítico. 
"Como você está vendo", respondeu o paralítico.

     No  Brasil,  a  fala do povo é cheia, por exemplo, de comparações hilariantes. Recordo algumas que ouço de vez em quando: "mais sozinho que chinelo de Saci", "mais complicado que calça de polvo", "mais feio que bater em mãe em dia de Sexta-Feira da Paixão", "mais perdido que Adão no Dia das Mães", "mais contente que cachorro com dois rabos", "mais longo que arroto de girafa", "mais perigoso que cirurgião com soluço", "mais nervoso que gato em dia de faxina", "mais fechado que porta de submarino", "mais difícil que fazer gargarejo de bruços"...
     Meu  amigo  Doc,  em  São  Paulo,  vive  dando uma definição do amor que não é nada romântica, carregada que é de certa rudeza expressiva: "Amar é um saco!". 
     E  os  insultos  na  língua  do  povo,  que  possuem  léxico e uma sonoridade riquíssimos, costumam ser também muito criativos. Lembro-me de uma vez, nas ruas de Divinópolis, ter ouvido um bate-boca em que alguém disparou um "Seu filho de uma sapa!". A surpreendente variação do clássico e desgastado xingamento tornou-o ainda mais virulento e ofensivo.
     Temos  uma  cultura  popular  exuberante  que  é  uma das muitas razões para se ter orgulho do Brasil. E também costumamos utilizar a língua de forma criativa, apesar de costumarmos nos dar uma liberdade tão ampla em seu uso que muitas vezes descamba para a falta de rigor e de um mínimo de formalidade necessária. De todo modo, sou muito simpático a esse bom humor que se manifesta inclusive em nossas injúrias. Como eu, você também se diverte com isso e até tira proveito da expressividade desses ditos no que fala e no que escreve. Acho importante que sua cultura vá de Dante às adivinhas, da tragédia grega à capoeira, de Bach ao forró, apesar de saber distinguir seus diferentes pesos e seus diferentes contextos. Isso indica no mínimo um espírito curioso e uma mentalidade aberta.

domingo, 26 de abril de 2015

Bandeira em Battersea

















               "Uns tomam éter, outros cocaína.
                Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria."

     Cheguei  há  pouco  de  uma  corrida de aproximadamente sete quilômetros pelo parque de Battersea, o bairro onde moro. Durante a corrida, fui ouvindo, com o telefone amarrado ao braço, o ator Juca de Oliveira recitando poemas de Manuel Bandeira. Cheguei em casa, e os versos acima, do poema "Não sei dançar", continuaram ressoando em minha cabeça.
     A  vida  está  longe  de  ser  um  parque  de  diversões, e às vezes somos confrontados com violentas perdas, fracassos e frustrações. Mas temos sempre de nos movimentar e buscar outros caminhos. A vida é também muito vasta e cheia de possibilidades. Se, como Bandeira, "hoje tomo alegria", em parte foi por haver tomado tristeza no passado e me ver obrigado a me reinventar, livrando-me do que me machucava, do que me diminuía. Continuo tendo problemas, eventuais fracassos, perdas e frustrações. Mas tomo hoje alegria, pois sei que tenho forças e criatividade para enfrentá-los. Estou bem de saúde, tenho podido fazer o que gosto, possuo alguns poucos mas bons amigos e algumas pessoas que me amam e se importam comigo. Tenho você.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Montaigne essencial

     Mais  uma  vez  estou  às  voltas  com  a  leitura  de meu filósofo favorito, Michel de Montaigne. Seus "Ensaios" têm sido para mim um livro fundamental, que releio de tempos em tempos. É impressionante como tudo o que ele escreveu há 500 anos continua atualíssimo e como sempre nos identificamos com seu pensamento. O curioso é que ele sempre escreveu sobre si mesmo, refletindo sobre como agiu em situações concretas. Alguns títulos de seus textos, pouco convencionais nas obras de um filósofo, dão uma ideia de como ele explorava as mais diversas dimensões da vida: "Da tristeza", "A força da imaginação", "Da educação das crianças", "Dos canibais", "Da solidão", "Dos odores", "Fiquem para amanhã os negócios", "De como julgar a morte", "Dos polegares", "Da arte de conversar", "Dos coxos", "Da fisionomia"... Gosto da forma como seu pensamento passeia livremente por esses temas, muitas vezes fugindo do assunto e até contradizendo o que disse no começo de suas reflexões, que são sempre sustentadas por um riquíssimo manancial de grandes histórias. Em realidade somos assim, em vez de sermos um modelo de coerência e lógica racional.
     Ontem,  quando  lia  o  ensaio  "Da afeição dos pais pelos filhos", uma das histórias que Montaigne conta para sustentar suas ideias me chamou a atenção: 

     O  falecido  Marechal  de  Monluc, tendo perdido um filho na Ilha da Madeira, jovem fidalgo que muito prometia, contava-me sua tristeza insistindo principalmente sobre o fato de nunca ter tido maior intimidade com ele. Para conservar em relação a ele a gravidade e a distância de que as mais das vezes se reveste a autoridade paterna, privara-se voluntariamente do prazer de apreciar e conhecer melhor o seu filho e também de revelar a profunda afeição que lhe votava e a estima que lhe dedicava por suas qualidades: "Esse pobre rapaz, dizia, nunca me viu senão carrancudo e aparentemente desdenhoso; levou consigo a crença de que eu não o soube amar nem lhe apreciar os méritos. A quem deveria eu, senão a ele, demonstrar a ternura de meu coração? Com ele sem dúvida devia abrir-me para que tivesse alguma alegria e gratidão. Esforcei-me, torturei-me para conservar essa máscara vã de indiferença; isso me fez perder o prazer de sua companhia, bem como de sua afeição, pois nunca foi senão maltratado e por vezes tiranicamente".

     Talvez  essa  história  revolva  intensamente alguma coisa em mim por causa da relação distante e estúpida que meu próprio pai sempre teve comigo. E eu com ele. Hoje que ele está morto, sinto a mesma tristeza do Marechal Monluc por jamais ter podido abraçá-lo, tê-lo como uma pessoa de confiança e dizer-lhe que o amava apesar de tudo, que carrego comigo muito do que ele foi, que hoje vejo traços de seu jeito e de sua personalidade no meu filho.
     Se  nunca  houve  espaço  para  o  afeto  na  relação  que tive com meu pai, tenho buscado - sem que isso seja um plano de ação ou uma rígida disciplina - fazer com que as coisas sejam diferentes entre nós dois, apesar da distância em que vivemos um do outro. Gosto de receber seu abraço e seu beijo em alto volume quando nos encontramos. E de lhe dar os meus. Gosto de nossas conversas sobre o que temos feito, sobre futebol, música e livros. Gosto de abraçá-lo após um gol meu ou seu, de nadarmos juntos, de lutarmos na cama, de comermos juntos...
     Está vendo como Montaigne é essencial?

terça-feira, 21 de abril de 2015

Da migração

     Leio  no  noticiário  que,  há  dois  dias,  um  velho  navio pesqueiro sobrecarregado com cerca de 700 imigrantes que tentavam escapar do caos político na Líbia em direção à Europa naufragou no Mediterrâneo, em alto mar, matando uma quantidade enorme de pessoas que são como nós. 
     Recentemente  também  li  também  uma  reportagem  a respeito de uma espécie de campo de concentração mantido pela Imigração britânica, onde pessoas que entraram ou permaneceram ilegalmente no Reino Unido sofrem toda sorte de abuso. Na maioria absoluta dos casos, seu único crime foi ter nascido em certos países desprestigiados e possuírem uma cidadania considerada de segunda classe pelo pensamento direitista em países considerados muito prestigiosos.
     Vivemos  num  tempo  em  que  o  dinheiro  e  as mercadorias atravessam as fronteiras com a mesma facilidade com que um fantasma atravessa as paredes de uma casa mal-assombrada. No entanto, as pessoas têm de enfrentar os mais rígidos controles e mesmo constrangimentos quando passam de um país para outro. Eu mesmo, vivendo fora do Brasil há alguns anos, sendo esta a terceira vez que, por razões de estudo ou trabalho, saio para morar no exterior, tenho sido, de vez em quando, vítima do mais absurdo burocratismo. De todo modo, se este mundo não está mais justo, ao menos está cada vez mais internacionalizado, multicultural e mestiço. Espero que, quando você crescer e passar pelo processo de formação universitária e trabalho, se tiver de fazer alguma coisa fora do Brasil, que encontre um ambiente mais ameno. Muito especialmente, que tenha respeito por todas as pessoas que encontrar em seu caminho e que jamais se sinta superior nem inferior a ninguém pelo simples e casual fato das suas circunstâncias externas.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Um elogio da lentidão

     Sob  encomenda  da  Editora  da USP, estou traduzindo para o português um livro composto por uma série de artigos de William Morris sobre a arte de fazer livros. Está me dando muito trabalho, pois os textos foram escritos há mais de 100 anos, possuindo uma sintaxe e um vocabulário um tanto diferentes das formas comuns no inglês contemporâneo. De todo modo, é um trabalho fascinante.
     Grande  parte  dos  artigos  de  Morris  tratam  dos  livros manuscritos da Idade Média, que eram grandes obras de arte. A propósito, fui hoje a uma exposição sobre a história do livro na British Library, onde vi de perto vários daqueles exemplares únicos feitos inteiramente a mão por grandes artistas anônimos. A mim chama a atenção - além da beleza das gravuras, dos ornamentos, da tipologia e da organização geométrica de tudo na página - o cuidado com que o livro era produzido. Até mesmo o papel que utilizavam, passados muitas vezes mais de 500 anos até os dias de hoje, em geral está em perfeito estado.
     Com  o  advento  da  impressão  e  o  desenvolvimento de toda uma tecnologia de produção de publicações em massa, ganhamos no acesso ao conhecimento sistematizado por parte de muito mais pessoas, mas perdemos em beleza e qualidade. Os livros medievais são produto de uma época muito diferente, com valores muito distintos daqueles da modernidade. Para mim, o grande contraste ocorre entre lentidão perfeccionista daquele tempo e a pressa que foi tomando conta de nossa cultura e nossa civilização, com consequências óbvias na qualidade de tudo, ainda mais num tempo como o nosso, de submissão total e irrefletida à internet.
     Os  livros  medievais  me  fazem  pensar  agora  num elogio da lentidão. Desejo que você tenha a sabedoria de fazer as coisas com cuidado, tendo paciência para vivenciar bem o tempo que seus processos interiores requerem. Melhor que fazer muitas coisas, numa espécie de capitalismo das realizações, será melhor não fazer muito em qualquer campo em que venha a atuar, mas que aquilo que fizer seja significativo e contenha o zelo de seu trabalho, a expressão de sua sensibilidade, seu amadurecimento como pessoa e seu valor humano.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Sangue Novo

     No  fim  do  ano  passado  lhe  dei  um  grosso e forte caderno protegido por uma caixa de papelão. Na ocasião, recomendei-lhe que o utilizasse para escrever seus pensamentos e falar sobre seus sentimentos. Em realidade o meu objetivo foi lhe dar a oportunidade de praticar a escrita e refletir sobre a sua realidade. Um dia, quando for adulto, você terá uma grande lembrança dos seus tempos de menino e se conhecerá melhor. Conversamos ontem à noite, e você me contou que já há algum tempo está utilizando esse caderno para escrever um diário. 
     A  vida  de  qualquer  pessoa  é  uma  grande  odisseia, cheia de pequenos eventos significativos, de alguns grandes acontecimentos que abrem novos caminhos e possibilidades, de pessoas que entram e saem de nossas relações, de sonhos, fracassos, delírios e algumas realizações decorrentes de nossos esforços. Portanto, você terá sempre muito sobre o que escrever. Ainda mais alguém que já sabe que "sofrer passa, ter sofrido não passa jamais"!
     Dante  intitulou  Vida Nova  a  um  livro  de  sua juventude, em que conta como se tornou poeta e narra um acontecimento que mudou sua trajetória para sempre: seu encontro com Beatriz Portinari. O diário de meu menino será também a história de uma vida nova, de um sangue novo neste velho mundo. Aliás, aí está um título de inspiração dantesca para seu diário: Sangue Novo. 

segunda-feira, 13 de abril de 2015

O sacrifício de Isaac

     Não  tenho  fé  e  me  parece  muito  evidente  que Deus não existe, mas de vez em quando gosto de ler a Bíblia, por ser um livro fundamental para nossa civilização e por ser um repositório de grandes histórias e uma esplêndida realização literária. Neste fim de semana, por exemplo, estive às voltas com a leitura de um episódio que sempre me causou perplexidade e revolta. Está no Gênesis e trata de um momento em que Deus, provavelmente numa eterna falta do que fazer, resolve, de maneira infantil, testar a fé de Abraão. Para isso, ordena-lhe que sacrifique seu filho Isaac. A mesma infantilidade reaparece em outros momento, como na história de Jó.
     Não  sei  o  que  é  mais  abominável,  se  a  ordem dada por Deus ou se a aceitação de Abraão em cumpri-la. Eis o comando do Todo-Poderoso: "Tome seu filho, seu único filho, Isaac, a quem você ama, e vá para a região de Moriá. Sacrifique-o ali como holocausto num dos montes que lhe indicarei". Após receber a indicação do lugar onde deveria assassinar o filho, Abraão organiza seus servos e parte acompanhado por uma comitiva, levando Isaac. Este inocentemente carrega sobre os ombros a lenha para o holocausto e, caminhando ao lado do pai, pergunta-lhe onde está o cordeiro a ser sacrificado em holocausto, recebendo como resposta uma mentira: "Deus mesmo há de prover o cordeiro para o holocausto, meu filho". Ao chegarem ao local do crime, Abraão prepara um altar, arruma a lenha e amarra Isaac, colocando-o no altar, sobre a lenha. No último segundo, quando esse pai indigno está prestes a matar o filho para satisfazer uma vaidade divina, um anjo do Senhor aparece e o impede de cometer a barbaridade, indicando-lhe um cordeiro preso pelos chifres num arbusto, sendo o animal finalmente sacrificado. Então o anjo, porta-voz divino, diz: "Juro por mim mesmo", declara o Senhor, "que por ter feito o que fez, não me negando seu filho, o seu único filho, esteja certo de que o abençoarei e farei seus descendentes tão numerosos como as estrelas do céu e como a areia das praias do mar. Sua descendência conquistará as cidades dos que lhe foram inimigos e por meio dela todos os povos da Terra serão abençoados, porque você obedeceu".
     Se  as  histórias,  as  metáforas  e  a  linguagem  bíblica são fascinantes - inclusive por terem esse poder de me irritar -, isso não quer dizer que eu concorde com a filosofia que ali é exposta. Em primeiro lugar, considerando historicamente o calvário de tantos povos da Terra, tudo indica que nenhum deles foi abençoado. Já num plano mais individual e ético, se o Deus judaico ou qualquer outro me ordenasse algo semelhante, eu de imediato perderia as estribeiras e até o bom-tom, mandando-o ir para aquele lugar, não me importando se um raio, o Diabo ou qualquer outra maldição me fulminasse instantaneamente. Meu filho está muito acima de um deus assim caprichoso, imaturo e arrogante, que joga com um falso mistério. Eu não o obedeceria jamais.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Um crepúsculo de folhinha



















     Estou  agora  no  aeroporto  de  Zurique,  retornando para Londres. Os suíços passam de um lado para o outro, arrastando-se ao peso de tanta organização, tanta previsibilidade e tanto formalismo... Tive um recesso de Páscoa no trabalho e viajei para o norte da Itália, onde fiquei por quase uma semana e encontrei minha amiga de infância Adriana, que hoje é também cidadã italiana, e seu companheiro Maurizio. Andei por Milão, Piacenza, Bologna, Pavia e algumas cidadezinhas localizadas entre estas cidades maiores. Quando o avião estava chegando, olhei pela janela e vi lá embaixo os Alpes, que ainda estão muito brancos, cobertos de neve. Tive a mesma vista de cima quando retornava para a Inglaterra, no primeiro trecho desta viagem com conexão na Suíça. Quanto à Itália, quando a visito sempre fico fascinado com a arte – especialmente a herança do Renascimento, que foi a época de ouro do país, ou das várias cidades-estado que compunham a península itálica na época – e as igrejas, pois muitas delas também são extraordinárias obras de arte. A comida italiana é também outro grande atrativo.
     Em  meu  primeiro  dia,  logo  que  cheguei,  andei com Adriana por algumas vilas circundadas por áreas rurais, enquanto conversávamos sobre muitos episódios vividos no tempo em que morávamos em Divinópolis. De repente, fomos parar às margens de um rio de águas claras, cercado por um bosque onde habitam muitas lebres e cabras selvagens. Ao fim da tarde, a lua já despontava no céu, oferecendo-nos este crepúsculo de folhinha.
     Enviei-lhe  um  cartão-postal  de Milão em que lhe falo de minha saudade de você e da expectativa de que chegue o dia em que poderemos viajar juntos. O mundo é tão vasto e há tanta coisa para ver! Sempre que me deparo com algo novo, original ou simplesmente diferente, penso no que você diria se estivesse ali. Pensei, por exemplo, no que diria diante da serenidade deste rio e dos animais que vivem nas proximidades. Ou dos tons avermelhados ao fundo e da lua cheia e branca que se destacava na parte mais alta desta paisagem.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Da generosidade


     Há  uma  xilogravura  de  Hans  Holbein,  o  Jovem, intitulada "A Morte e o Avarento", de 1523, que mostra o último momento da vida de um sovina, quando a Morte vem buscá-lo. Sozinho no interior de uma casa que é uma fortaleza, num cômodo que possui uma janela com dupla proteção de grossas grades de ferro e rodeado por baús cheios de dinheiro, o avarento abre os braços em desespero diante de uma Morte esquelética, que - horror dos horrores - recolhe um monte de suas moedas sobre sua mesa. 
     Imagens  desse  tipo,  que  em  seu  conjunto  recebiam a denominação de "A Dança da Morte", foram muito recorrentes nas artes do final da Idade Média e tinham por fim lembrar a todos da universalidade da morte, que um dia chegará para todos, não importando a sua condição em vida.
     A  gravura  de  Holbein  continua  atualíssima, lembrando-nos de que este mistério que é a vida está passando e vai acabar, que pode acabar a qualquer momento e que não podemos nos tornar escravos das necessidades materiais ou, ainda pior, do dinheiro como um fim em si mesmo.
     Mas  essa  obra  do  grande  artista  alemão  sempre  me faz pensar no contrário da avareza: a generosidade. Esta é uma das qualidades que mais valorizo nas pessoas e que busco eu mesmo praticar. Partilhar com os outros o meu mundo e as minhas coisas, ajudar a quem precisa de modo a manter a dignidade do necessitado, indo além da mera caridade, ouvir o que o outro tem a dizer, tratar a todos com cortesia e respeito, cultivar o bom humor no dia a dia, reconhecer os méritos alheios são atitudes que estão em consonância com uma vida que vale a pena ser vivida. Não lhe escrevo isso como um virtuoso que fala de cima para baixo. Estou longe de ser um modelo de virtudes. Apenas me alegraria saber que, ao longo de sua jornada por este mundo, você manterá a generosidade e a nobreza de coração como fundamentos de suas atitudes.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Bárbaros entre nós

     Nestes  últimos  dias  andei  muito  envolvido  com exames na universidade onde trabalho, não tendo acompanhado muito de perto o noticiário. Com isso, somente ontem fiquei sabendo que na semana passada houve um atentado terrorista no Museu do Bardo, em Túnis, em que 22 pessoas, a grande maioria estrangeiros em visita à Tunísia, foram assassinadas a tiros por dois fanáticos. 
     Há  apenas  algumas  semanas,  passei  um  dia inteiro nesse museu, que é excelente. Cheguei a ver um vídeo divulgado pelo governo do país, mostrando a ação dos policiais que mataram os terroristas e libertaram os reféns. Os visitantes à instituição que escaparam com vida correm confusos e desesperados.
     É  incrível  como  atualmente  temos  de  conviver com essas coisas. Armas de fogo estão se tornando cada vez mais letais, mais portáteis e mais baratas, permitindo a qualquer fanático ou a grupos de bárbaros como os que hoje atuam na Síria e na Líbia sob a denominação de Estado Islâmico (que nada tem a ver com o islã de tantas grandes civilizações e tantas grandes criações artísticas) dar vazão a sua loucura e a sua monstruosidade. A inspiração religiosa dessas infâmias é um fator a mais - ao lado do principal fator, a simples perda da fé - a me manter distante de qualquer forma de religião como sentimento, atividade e organização, já que perdi todo o interesse por ela.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Um poeta para a vida

















     De  vez  em  quando  sonho  com  poemas belíssimos, mas, ao acordar, não me lembro mais deles. Trata-se de um fenômeno estranho que acontece comigo já há muitos anos. Daria tudo para despertar e me recordar ao menos de um único daqueles textos. De vez em quando também, em estado de vigília, arrisco-me compor versos. Gosto de uns poucos poemas que escrevo, nas não da maioria deles. Da adolescência até os vinte e poucos anos, escrevi poemas com entusiasmo, porém com o tempo e os desencantos da vida fui me tornando cada vez mais prosaico. 
     Aí  está  meu  poeta  favorito,  mineiro  como  nós. Sempre que vou ao Rio de Janeiro, gosto de passar por sua estátua na praia de Copacabana, num banco onde ele costumava se sentar. Eu e meus amigos do interior de Minas, durante a adolescência, praticávamos a poesia imitando o estilo e os temas de Carlos Drummond de Andrade. Lembro-me de quando ele morreu, em agosto de 1987. Com os hormônios ferventes de meus 18 anos, ao encontrar meus amigos de literatura, todos nós com lágrimas nos olhos, abracei-os e lhes disse: "Drummond morreu!". No que fui também abraçado e consolado. Era como se tivéssemos perdido um pai ou uma pessoa muito amada qualquer.
     Tenho  em  minha  biblioteca,  que  está  na  casa  de minha mãe no Brasil, a sua obra completa. E mantenho aqui a antologia de seus poemas organizada por ele mesmo, que revisito com frequência. Além disso, tenho seus poemas declamados em áudio no meu telefone e ouço-os de vez em quando enquanto corro pelas margens do rio Tâmisa, no fim de tarde. Ao longo dos anos a poesia de Drummond tem feito parte essencial de minha vida. Se me perguntarem quais são os meus poemas favoritos em sua obra, direi: "Viagem na família", "Elegia 1938", "José", "Mãos dadas", "Confidência do itabirano", "Retrato de família", "Morte do leiteiro", "A máquina do mundo", "Menino chorando na noite", "Consolo na praia"... E tantos outros, que sei de cor.
     Lembro-me  de,  no  ano  passado,  haver lhe dado um livrinho com uma seleção de poemas infantis de Vinicius de Moraes. Em breve pretendo introduzi-lo na obra poética de Drummond, esperando que ela possa também nutrir sua sensibilidade com a beleza neste mundo em que a vulgaridade e a grosseria tem ganhado cada vez mais espaço.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Uma língua do afeto

     Numa  aula  desta  semana,  meus alunos se deliciaram quando trabalhamos com um texto de Gilberto Freyre, uma passagem de Casa-Grande & Senzala em que o sociólogo pernambucano trata do abrasileiramento da língua portuguesa realizado em grande medida pelos escravos negros. Por exemplo, há as palavras da linguagem infantil: "cacá", "pipi", "bumbum", "neném", "papá", "papato", "au-au", "bambanho", "cocô", "dindinha", "bimbinha". Há também os nomes próprios que foram amaciados e perderam a solenidade. Como escreve Freyre, "as Antônias ficaram Dondons, Toninhas, Totonhas; as Teresas, Tetês; os Manuéis, Nezinhos, Mandus, Manés; os Franciscos, Chico, Chiquinho, Chicó; os Pedros, Pepês; os Albertos, Bebetos, Betinhos. Isto sem falar das Iaiás, dos Ioiôs, das Sinhás, das Manus, Calus, Bembéns, Dedés, Marocas, Nocas, Nonocas, Gegês"... 
     Esse  é  o  Brasil  profundo,  afetivo  e  luminoso que tem entre suas glórias futebolísticas jogadores chamados Didi, Vavá, Pelé, Garrincha, Tostão, que levaram seus nomes infantis pela vida afora e com eles fizeram carreira na vida pública. Até o ditador Getúlio Vargas era Gegê para o povo que o tinha na conta de "pai dos pobres". E nosso catolicismo popular chega ao ponto de chamar no diminutivo santos estrangeiros de nomes pomposos. A francesa Teresa de Lisieux no Brasil é Santa Teresinha, e o capadócio de nome grego Longino é São Longuinho, que ajuda a encontrar objetos perdidos.
     De  sua  primeira  infância,  quando  vivíamos  juntos  e eu cuidava de você, lembro-me de muitas daquelas palavras mencionadas pelo sociólogo. E poderia lhes acrescentar termos como "xixi", "bainho", "mamá", "mimi", "tutu", "bililiu", que, pronunciados por mim e outros adultos em torno de você, ecoavam a fala da mãe preta do tempo da escravidão, que era a mãe de fato inclusive dos meninos brancos filhos do senhor das casas-grandes e, posteriormente, dos sobrados nas áreas urbanizadas e que é hoje a mãe ancestral de todos nós. 
     Essa língua plena de afeição retorna hoje sempre que você me chama de "papai". E é como se eu a reencontrasse até mesmo aqui, na boca de fleumáticos ingleses, quando, no futebol, ao me pedirem um passe, se dão a liberdade de me chamarem de "Adri" por eu ser brasileiro.

terça-feira, 17 de março de 2015

Um arcaísmo de smartphone nas mãos

  manifestações impeachment dilma















     Se  há  épocas  débeis  mentais,  como  aventou  um profundo pensador da civilização brasileira, a nossa é seguramente uma delas. Há já algum tempo que os maiores imbecis com acesso aos grandes meios de comunicação vêm utilizando-os para fazer declarações expressando ideias que os imbecis sempre tiveram, mas que tinham vergonha de exibir em público. Fazem agora parte do nosso dia a dia os mais grosseiros políticos, pastores, jornalistas, apresentadores de televisão e até acadêmicos fazendo alarde de opiniões racistas, sexistas, homofóbicas, classistas, fascistas. Nos últimos anos, essas vulgaridades vêm se tornando mais frequentes e mais difundidas, em virtude do engajamento dos grandes meios de comunicação nas políticas mais retrógradas, sustentadas por ideologias cada vez mais próximas da extrema direita. Em jogo estão o privilégio de uma oligarquia, a separação entre cidadãos de primeira classe e os outros, a subordinação dos pobres à classe senhorial, a desqualificação do país em relação às "potências" do norte. Nesse contexto, não surpreende a explosão de violência e insegurança na sociedade brasileira.
     No  último  fim  de  semana,  por  exemplo, a classe média branquinha e estulta foi às ruas das grandes cidades do país com a camisa amarela da Nike, exigindo o impeachment de nossa presidente após seu candidato perder as eleições no fim do ano passado. Esses executivos da Vila Olímpia, esses inocentes do Leblon, esses funcionários do setor bancário de Brasília, esses moradores das Magabeiras de BH se organizaram por meio de seus smartphones e suas redes sociais, com sua linguagem plena de abreviações e termos chulos, para bater panelas nas avenidas Paulista, Atlântica e nas Savassis da vida, gritando palavrões e até pedindo um novo golpe militar e uma nova ditadura. Pergunto-me se esses boçais têm alguma noção das infâmias cometidas no tempo dos generais todo-poderosos, das feridas daquele tempo que ainda estão abertas e sangrando, da herança de autoritarismo, falta de diálogo e desrespeito à lei que nos foi legada pelos ditadores fardados. Tudo indica que não, pois querem agora desenterrar o golpismo. Em seus protestos, não se veem essas madames de yorkshire terrier nos braços, esses profissionais liberais que passam férias em Miami, esses comerciantes que sonegam impostos, esses médicos que não trabalham nos postos de saúde pedirem, por exemplo, reformas do sistema político que impeçam a promiscuidade partidária, leis que tornem a corrupção um crime hediondo e inafiançável, taxação das grandes fortunas, reforma agrária, combate à extrema desigualdade social e elevação do nível da educação pública. Querem apenas que seus privilégios sigam intocados.
     Se  nos  aparecesse  de  repente  um José do Patrocínio ou um Martin  Luther  King Jr. que subisse num caixote na avenida Paulista, Atlântica ou numa Savassi qualquer e começasse um discurso com as palavras "Eu tenho um sonho...", não seria ouvido por ninguém. Ou seria silenciado por algum leitor de Veja a gritar que o lugar dos negros é nas favelas, nas oficinas mecânicas, nos quartinhos de empregada ou nas prisões.
     Esse  é  o  Brasil  arcaico  do  qual  precisamos  nos livrar. Que você se mantenha para sempre não apenas longe dele mas contra ele.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Um dente-de-leão


     Aqui  está  um  de  seus  brinquedos  favoritos. Um dente-de-leão para soprar e ver as plumas esvoaçando pelo ar. No campus da USP, onde costumo levá-lo para jogarmos futebol quando vou a São Paulo, há sempre muitos deles. Ao encontrar essas plantas, paramos por um instante, colhemos algumas hastes, e volto a ser criança a seu lado, na gratuidade de uma brincadeira tão simples e tão alheia ao império da tecnologia moderna.  
     A  propósito,  na  medida  em  que  os  meses  passam enquanto estou tão longe de você, começo a sentir saudade de nossas brincadeiras, de nossas lutas, corridas, disputas na piscina, esconde-esconde pela casa, guerra de travesseiros, subir e descer barrancos, passear na chuva, jogar pedra numa garrafa à distância para verificar quem a quebra primeiro... Muita ação e muita energia, com alguma sujeira de roupas pelo caminho e alguma inquietação do espírito protetor de sua avó e minha mãe.

sexta-feira, 13 de março de 2015

A deformação do menino

     Não  sei  onde  li  certa  vez  que  em  algum  lugar há uma seita que considera que o homem é a degeneração do menino. Para seus fiéis, o menino seria um ser perfeito que, no decorrer dos anos e no contato com a sujeira do mundo, deforma-se lentamente no homem. Essa ideia, que está em consonância com o pensamento de um filósofo como Jean-Jacques Rousseau, me parece muito interessante e real. Quando considero sua pureza, sua falta de malícia, a verdade que emana de tudo o que você diz, o brilho do olhar de quem ainda está vendo tudo pela primeira vez e comparo essas coisas com minha melancolia, minha dureza, minha desconfiança dos outros, os arabescos de meu discurso, dou razão àqueles místicos e ao pensador suíço. E lhes concedo a mais plena e irrestrita razão quando vejo o que os homens feitos andam cometendo em nossa vida pública, bem como na relação com suas famílias, com seus amigos, com seus colegas de trabalho e até com seus inimigos. Talvez apenas os santos e os poetas sejam os únicos homens que escapam dessa degeneração justamente porque levam pela vida inteira a clarividência do menino, o olhar desembaçado de preconceitos e teorias do menino, a voz sempre pronta a fazer as perguntas e afirmações essenciais do menino.

domingo, 8 de março de 2015

Abbey Road

     Andando  hoje  pela  região  de  Saint John's Wood, no noroeste da cidade, passei casualmente pela Abbey Road. Na esquina onde os Beatles tiraram a famosa foto cruzando a faixa de pedestre em 1969, capa do disco com o mesmo nome da rua, estavam lá os eternos grupos de brasileiros e japoneses tirando suas fotos enquanto recriavam a mesma cena, atravessando a rua de quatro em quatro. Eu, que sou um tímido, morreria de vergonha de fazer aquilo.
     De  vez  em  quando  passo  por  lugares relacionados à trajetória dos Beatles em Londres. Outro dia mesmo andei pela Saville Row e olhei para cima ao passar pelo edifício em cujo topo eles fizeram sua última apresentação.
     Sei  que  você  também  é  fã  deles.  Até  já  tocou "Yellow submarine" e "Here comes the sun" para mim no ano passado, numa vez em que conversamos pela internet. Foi a primeira vez que testemunhei suas habilidades ao violão, tendo ficado vivamente impressionado. Quando pudermos viajar juntos, gostaria de trazê-lo aqui e lhe mostrar alguns lugares ligados aos quatro cavalheiros de Liverpool - que foram grandes poetas e grandes músicos - e também a algum lugar onde suas canções são tocadas ao vivo. O fato de um menino brasileiro da sua idade ser admirador deles só comprova a perenidade e a universalidade do que eles fizeram.

sexta-feira, 6 de março de 2015

A autoridade do fracasso

     Recentemente  fui  acusado  de  estar  virando a cabeça de meus alunos à esquerda. Fiquei bastante irritado com isso, pois jamais fiz proselitismo de esquerda em minhas aulas. Apenas, como todo mundo, analiso as coisas pelo crivo de meus valores, de minha visão de mundo. O máximo de que posso ser acusado é de falar com paixão, o que talvez tenha lá o seu poder de influência, apesar de eu enfatizar sempre a necessidade de uma visão crítica, muito especialmente em relação às palavras. 
     Esse  episódio  soma-se  a  uma  série de outros que vem causando um sério desgaste entre mim e a instituição onde trabalho, com a qual ando bastante insatisfeito. A ideologia neoliberal tomou conta da universidade, que agora vende educação para o mercado. Os administradores são hoje as estrelas da academia e estão cada vem mais bem remunerados e mais arrogantes. E há os meus próprios defeitos: inadaptabilidade a burocracias e outras formalidades exasperantes, impaciência com reuniões enfadonhas, reações impulsivas a decisões que não passam por discussões prévias ou que não me incluem nelas, intolerância aos excessos do politicamente correto, dificuldade de me ajustar na hierarquia do departamento.
     Em  meados  do  ano  que  vem, termina meu contrato, e já estou decidido a não renová-lo. Ou terei outro emprego por aqui ou retornarei ao Brasil. 
     Às  vezes  tenho  uma  extensiva  sensação  de fracasso. Não tenho construído nada de muito sólido e duradouro, minha vida profissional vem se constituindo de pequenos ciclos e curtos projetos de alguns anos, não tenho sido nenhum modelo de bom relacionamento com as pessoas que passam pela minha vida ou que permanecem nela. E estar separado de você é mais um item nessa lista nada primorosa.
     Uma  vez  o  escritor  Francis  Scott  Fitzgerald,  que morreria esquecido e desprezado, escreveu em seu caderno de notas: "Eu falo com a autoridade do fracasso". Talvez tudo o que escrevo aqui sejam também palavras que se exprimem com a autoridade do fracasso. Isso porque minhas falhas e insucessos no mínimo têm me feito me movimentar, refletir e não aceitar um apodrecimento conveniente num trabalho, num relacionamento ou num lugar que já deu o que tinha de dar, cumprindo o seu ciclo. Teorizando assim, tudo parece muito fácil e muito prático, mas a realidade é que tenho enorme dificuldade para fechar esses ciclos. Porém isso acaba sempre acontecendo por força da própria dinâmica da vida.
     Quero  ainda  ver  como  você,  quando adulto, vai lidar com isso.

domingo, 1 de março de 2015

Dos seus bens

     Ontem  fui  assistir  a  uma  montagem  da  tragédia Antígona, com a grande atriz francesa Juliette Binoche, que, como se não bastasse o talento, ainda é muito bonita. Ao final da peça de Sófocles, saí do teatro como se estivesse andando nas nuvens, tocado por toda aquela terrível grandeza. Era como se eu já não fosse a mesma pessoa. 
     Às  vezes  penso  no  impacto  dos  bens culturais em nossas vidas. Eles sem dúvida nos ajudam a enfrentar nossos abismos e a insegurança da existência neste mundo através de nosso enriquecimento interior. Por isso gastamos no teatro um dinheiro que poderia ser utilizado na compra de mais uma roupa nova e de qualquer outro bem útil e de consumo imediato. Por isso é preciso viajar e conhecer de perto as coisas eternas que a humanidade tem criado. Por isso lhe dou sempre bons livros de presente sempre que o encontro.
     Uma  vez  ouvi  a  fala  de  um  ignorante  proclamando que para ele podiam derrubar Ouro Preto e construir lá uma cidade moderna, pois ali só tem velharia. Então eu lhe propus que também queimasse todos os retratos antigos de pessoas mortas de sua família, pois, conforme seu raciocínio, aquilo também não passava de velharia.
     Tudo  indica  que  você  será  uma  pessoa  preocupada com essas coisas, até mesmo por desde cedo estar sendo estimulado para perceber sua importância. Jamais venha a escolher sua profissão somente porque ela lhe proporcionará dinheiro e conforto pequeno-burguês. Não se preocupe em fazer carreira, escalar picos sociais e buscar reconhecimento fácil ao mesmo tempo em que se descuida de seu enriquecimento interior, de colecionar boas memórias com as pessoas que você ama, de ser capaz de enxergar este mundo para além do convencional, do massificado e até daquilo que seus mestres lhe ensinarem.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Voltando para casa

     Daqui  a  pouco,  irei  para  o  aeroporto  e  partirei de volta para casa. Anteontem, ao compartilhar com você algumas observações sobre o Egito, fiz uma avaliação extremamente negativa do país. Hoje vejo que cometi alguns excessos e não tive olhos para aspectos que pude perceber melhor nestes últimos dias, apesar de não ter fechado os olhos para coisas abomináveis que realmente existem aqui. Por exemplo, em meio ao labirinto das vielas sujas e estreitas do Cairo islâmico, vi pessoas pobres e desvalidas lutando pela vida com dignidade, carregando grandes balaios de pães, engraxando sapatos, perambulando de um lugar para outro vendendo frutas ou lencinhos de papel, transportando fardos de tecidos nas costas. E não se tem nenhuma sensação de insegurança ao se caminhar por lá, ao menos durante o dia. Após desembarcar no aeroporto e tomar um táxi, fui simplesmente deixado num lugar qualquer da área central, mas um rapaz a quem perguntei pela direção de meu hotel, a despeito de não falarmos a mesma língua, desviou-se de seu caminho e até cruzou uma avenida ultramovimentada de braços dados comigo, pois ele tinha a técnica para atravessar essas vias sem ser atropelado, indicando-me o caminho através de gestos. E quando lhe ofereci uma gorjeta por ter me ajudado, ele  a recusou. Por fim, no dia de ontem, Nadia, uma funcionária egípcia da embaixada do Brasil que me acompanhou por toda a tarde, foi muito gentil comigo, mostrando-me outros aspectos da cidade. Trabalhando também como radialista para o governo egípcio, ela acabou me entrevistando, com perguntas sobre minhas impressões acerca do país. Busquei ser mais equilibrado e até diplomático nas respostas. O testemunho da labuta das pessoas e as atitudes gentis por parte de algumas delas redimem o Egito a meus olhos, e são essas coisas que vão ficar em minha memória. Por outro lado, quem disse que a "normalidade" ou a "qualidade" tem de ser organizadinhas, assépticas e "de bom gosto"?
     O  que  não  mudo  é  a  minha  posição  quanto  ao complexo de vira-latas das classes privilegiadas do Brasil. Diante de meus argumentos, nossos vira-latas ou mesmo algum esquerdista redentor poderia dizer, não sem estar carregado de razão: "Olhe o nosso Nordeste, as periferias de nossas cidades, o Estado que temos, a qualidade de nossos serviços públicos, a insegurança, a corrupção, os rios de São Paulo..." Ao que eu diria: "Olhe os nossos Aleijadinhos, os nossos Garrinchas, os nossos Pixinguinhas, os nossos Machados de Assis, a nossa socialização de boteco, as nossas relações com os vizinhos, o nosso humor, a nossa sólida unidade na diversidade, a capoeira, a beleza do nosso povo, a nossa delicadeza e a nossa cortesia, a nossa ginga e o nosso jeito de falar..." Por certo estas coisas e o que os mestiços tortos mas geniais mencionados acima representam nos qualificam para conversar com qualquer americano, inglês ou francês de cabeça erguida e olhos nos olhos, em algumas ocasiões até mesmo olhando-os de cima para baixo.
     Mudando de assunto, ontem  estive  no  bairro  cóptico, que preserva a herança do cristianismo no Egito. Nele há até uma pequena igreja num lugar onde, diz a tradição, Maria teria parado para descansar durante a fuga de Herodes. O menino Jesus teria vivido seus primeiros três anos no Egito, retornando a Nazaré após a morte do tirano romano. Imagino-o, em sua primeira infância, aos cuidados protetores de sua mãe puríssima, ouvindo histórias contadas por José na hora de dormir, passeando pelo bairro sentado nos ombros dele, brincando com boizinhos feitos com as sobras de madeira da oficina de seu pai carpinteiro, puxando o rabo dos gatos, jogando pedras na superfície do Nilo para ver as ondulações, deixando seus pais desesperados ao desaparecer num momento em que eles se distraíam, sendo encontrado algum tempo depois, debaixo da cama. E quando um pouco mais velho, deve ter proposto lutas e corridas de 50m a José. Até mesmo um menino-deus deve ter vivenciado essas coisas.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Decepção e maravilha no Egito















     
     Cheguei  há  quatro  dias  ao  Egito.  Quando  viajo, sempre busco interagir com as pessoas do lugar e participar um pouco de seu cotidiano, além de conhecer o que há de mais significativo em seu patrimônio histórico, artístico e cultural. Desta vez, porém, estou um tanto decepcionado. O Egito, especialmente sua capital, é provavelmente o lugar mais desconfortável e mais irritante do mundo. Há uma grande quantidade de pessoas mal-educadas, muita sujeira e muita poluição, total desorganização, um trânsito em que ninguém respeita as regras mais elementares, taxistas desonestos, vendedores de quinquilharias vagabundas assediando as pessoas por todo lado, homens que fumam em qualquer lugar fechado, pessoas que buscam tirar vantagem dos outros o tempo todo, animais abandonados pelas ruas ou vítimas da violência de bestas humanas, gente vivendo do e no lixo. Percebe-se em todos os lugares a atmosfera de uma violenta ditadura. Cartazes com a foto do ditador Khalil Al-Sisi estão por todos os lugares, e há um rigoroso esquema de segurança por todo lado, com vários lugares de acesso controlado, guardas portando armas pesadas, cachorros que farejam carros que entram em qualquer lugar fechado ou se aproximam de prédios públicos, devendo ainda os motoristas abrirem os porta-malas nos pontos de controle. É o medo de carros-bomba. Tenho visitado lugares pobres e com problemas políticos, não tendo nenhum problema isso. O que não tolero é a indignidade.
     Quando  nossas  burríssimas  elites  e  a parte ignóbil de nossa classe média que as imita ostentam seu complexo de vira-latas e desprezam o Brasil, penso que deviam conhecer um lugar como o Egito, para terem um parâmetro de comparação. Obviamente temos muitos problemas graves, mas em geral vive-se muito melhor no Brasil que na grande maioria dos países deste mundo. E muitos lugares que nossos vira-latas admiram - localizados na América do Norte e na Europa - possuem vários problemas semelhantes aos nossos, além de algumas coisas terríveis que não temos. Mas essa é uma discussão que não tenho nem espaço para desenvolver aqui, tendo de me limitar a essas declarações superficiais.
     Apesar  de  tudo,  tenho  de  dizer  que estar diante das pirâmides foi uma experiência que me impressionou. Tantas vezes as vi ao longo da vida, nos livros de história. Estar diante de sua monumentalidade e suas formas perfeitamente geométricas, dos blocos de pedra enormes que as compõem, entrar nelas e testemunhar a forma como a morte de figuras poderosas da civilização egípcia antiga era ritualizada e respeitada foi recapitular as aulas de Dª. Marli - uma rigorosa professora de história que tive da 5ª. à 8ª. séries - e compreender um pouco mais sobre uma das mais importantes fontes de nossa própria civilização. O Museu Egípcio de Antiguidades também possui um acervo extraordinário, apesar de sua desorganização, precária conservação de obras de valor incalculável, iluminação muito ruim e até limpeza deficiente. E as mesquitas do chamado Cairo Islâmico e da cidadela antiga também impressionam pela beleza de sua realização arquitetônica. 
     Se  estivesse  aqui,  você  iria  talvez  me  desafiar para uma corrida de 50m pela área desértica por trás das pirâmides, já que gosta tanto de disputas comigo. Freud deve explicar isso.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Túnis e o meu bei de Túnis









 
     Aí  está  a  medina  de  Túnis.  Tenho andado pela cidade e algumas vilas a seu redor. A Tunísia é um país pobre, com uma infraestrutura precária, mas possui um povo forte e altivo. Algumas coisas têm me chamado atenção aqui. Aparentemente todos os homens fumam, o que é muito desagradável, pois acendem seus cigarros inclusive em lugares fechados, como bares e restaurantes. E não há como não notar um vasto e rigorosíssimo esquema de segurança na avenida principal, onde estou hospedado e nas imediações dos prédios públicos espalhados pela cidade. Há barricadas e grandes barreiras de arame farpado por todo lado, com militares e policiais portando armas pesadas. Em 2011 houve aqui sérios confrontos, com pessoas tendo sido mortas pelas forças repressivas. Percebe-se claramente que há grandes tensões na sociedade tunisiana.
     Nestes  dias  de  fevereiro,  está  fazendo um friozinho que eu não esperava nestas margens do Mediterrâneo. Por isso não trouxe roupas muito adequadas para os 10 a 13 graus que tenho enfrentando por aqui e acabei tendo de comprar uma blusa.
     Antes  de  conhecer  a  cidade,  ela  existia  para mim especialmente através das crônicas que Eça de Queirós, que eu costumava ler aos vinte e poucos anos para tentar aprender truques de estilo com o grande escritor português. Ele tinha uma estratégia brilhante quando lhe faltava assunto para os textos que precisava escrever diariamente: atacava o bei de Túnis, título do governador otomano da Tunísia no século XVI. Há um texto em que Eça conta quando isso começou: "Sabe você o que eu fiz numa destas agonias, sentindo o moço da tipografia a tossir na escada, e não podendo arrancar uma só ideia útil do crânio, do peito, ou do ventre? Agarrei ferozmente da pena e dei, meio louco, uma tunda desesperada no bei de Túnis... No bei de Túnis? Sim, meu caro, nesse venerável chefe de Estado, que eu nunca vira, que numa me fizera mal algum, e creio mesmo que a esse tempo tinha morrido. Não me importei. Em Túnis há sempre um bei; arrasei-o."
     Tenho  um  amigo  em  São  Paulo,  Doc,  que  é o meu bei de Túnis. Numa ocasião em que eu também tinha de escrever crônicas regularmente, ao me faltar assunto costumava contar episódios acontecidos com Doc, vários deles hilariantes. E quando já tinha contado todas as suas histórias, inventava outras em que ele era o protagonista. Ou recontava suas melhores aventuras pelas ruas de São Paulo. Os que me liam adoravam-no. Ainda hoje costumo recorrer às peripécias de Doc para meus amigos em Londres, quando eventualmente alguma conversa descamba para a falta de assunto ou para chatíssimos pseudointelectualismos. Invariavelmente elas são um sucesso e reacendem a conversação. No fim do ano passado, quando encontrei Doc em São Paulo, disse-lhe que as pessoas em Londres acham que ele não existe, que é um personagem que eu inventei. Com isso, ele prometeu viajar à Inglaterra neste ano, em suas férias, para provar que existe de fato.
     Curiosamente,  esta  é  a  primeira vez que menciono o meu bei de Túnis por aqui.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Sua primeira década


     Dez  anos!  É  hoje  o  seu aniversário.  Como  o  tempo passa! Em minha memória é como se fosse ontem que, numa manhã ensolarada de domingo em Belo Horizonte, você nasceu no hospital Mater Dei. Eu estava lá, ansioso e preocupado. Quando você chegou e peguei-o no colo pela primeira vez, eu me sentia ainda mais indefeso que meu bebê, porém muito orgulhoso. Você tinha olhos grandes, exatamente a minha boca, meu queixo e meu maxilar. Tenho aqui um filme de seu primeiro dia no mundo, deitado no berçário e se revirando, debatendo-se com braços e pernas para o ar. Tenho também uma foto em que estou com uma cara de quem não dormiu um minuto sequer na noite anterior, com você bem pequenininho deitado sobre meu peito.
     Dez  anos  voaram.  Ao  mesmo  tempo,  quanta  coisa aconteceu nesse período! Eu mesmo mudei muito, tendo me tornado mais pessimista em relação à nossa espécie. Porém decidi buscar viver bem esta segunda metade da minha vida, tentando fazer o que gosto de fazer e o que é significativo para mim.
     Nesta  manhã  de  sexta-feira,  me encontro no norte da África, em Túnis. Durante o dia, vou lhe enviar um cartão pelo Correio. Estive ontem no Museu do Bardo, que possui uma extraordinária coleção de mosaicos romanos. Este, por exemplo, do século IV da era cristã, contém uma inscrição que resume o que lhe desejo neste seu aniversário: "Que tudo lhe traga felicidade". E também que você tenha muitas décadas cheias de amor neste mundo e que possa se realizar como uma pessoa de bem. Eu estarei sempre a seu lado e do seu lado, onde quer que estejamos.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Da felicidade















     Outro  dia  vi  o  filósofo  francês Pascal Bruckner, numa conferência sobre a felicidade, dizer que esse estado não é algo que podemos provocar por força do nosso desejo, mas algo que simplesmente acontece, às vezes quando nem a esperamos. Eu ainda tenho de desenvolver a postura mais leve e mais serena diante da vida que é uma consequência da constatação de Bruckner. Mantenho uma crença muito forte no fazer acontecer, em todos âmbitos da existência. Mas de fato, nossa capacidade de mudar as coisas - especialmente de mudar a nós mesmos e as outras pessoas - é muito limitada. Sem deixar de agir quando a situação requer uma atitude firme, acredito que tenho mesmo de aprender a sabedoria da aceitação e do carpe diem. Mas estou sendo vago e superficial. 
     Nos  últimos  anos,  parte  dos  lampejos  de  real felicidade que tenho tido na escuridão desta vida tem acontecido a seu lado. São nossas conversas, nosso futebol juntos, seu abraço quando nos reencontramos após muitos meses distantes, vê-lo crescendo como uma pessoa de bem e um rapaz inteligente e sensível...
     Me  lembro  de  que,  quando  você  era bem pequeno, gostava de ir a uma lagoa próxima à casa de minha mãe, para dar migalhas de pão aos peixes, que se aglomeravam nas margens para recebê-las, e também atirar pedras no meio da água, para vê-la saltar e se expandir num círculo de ondulações. Muitas vezes o acompanhei nessas aventuras da primeira infância. Aquela gratuidade e aquele estar juntos levemente eram a felicidade que simplesmente acontecia.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Damasceno

     Meus  alunos  na  universidade  onde  trabalho  me consideram um professor estrito. Acredito que não sou tão rigoroso assim, mas de fato não tenho muita paciência com os irresponsáveis e os preguiçosos. Se me consideram rigoroso, ficariam aterrorizados com um professor que tive no ensino primário, numa escola municipal de Divinópolis, entre os meus 11 e 15 anos. Damasceno era o seu nome, que, simplesmente ao ser pronunciado, provocava calafrios nos mais sensíveis. Professor de educação física, barbudo, tratava os alunos aos gritos e costumava nos dar punições de 10, 15 e até 20 flexões de braços, dependendo da gravidade das nossas indisciplinas. Ainda hoje o vejo dizer, em tom autoritário: "Paga dez!". Algumas vezes, como os outros alunos, tive de me acocorar e "pagar" as dez flexões de braços. 
     Próximo  do  dia  1º  de  junho,  aniversário da cidade, Damasceno ensaiava os alunos para uma marcha que passava diante do governador do estado, do prefeito e de outros medalhões num palanque de potentados. Alguns tocavam os instrumentos, todos de percussão, e o resto marchava. Se um tambor ou um tarol fosse tocado fora de hora, todo o bairro ouvia os gritos ensaiador: "Seu zebu! Seu leitão!". Lembro-me de um dia em que uma menina que marchava fora do alinhamento foi repreendida por Damasceno em elevados decibéis: "Você não tem noção de espaço, não, hein?!" A reação dela foi muito humana: disparou a chorar.
     Uma  vez  nossa  escola -  o Cetepe -  foi campeã do torneio de futebol dos jogos estudantis da cidade. Nosso time, do qual eu fazia parte, jogou bem e errou muito pouco, certamente porque Damasceno era o técnico e sabíamos o que aconteceria depois de um passe errado ou de um pênalti perdido. Me lembro de que, numa ocasião, Sandro, nosso goleiro, tomou um gol normal. Mas Damasceno, ao lado do campo, não viu as coisas assim e gritou-lhe: "Frangueiro! Leitão! Burro!". Nossos colegas, nossos flertes juvenis e mesmo nossos pais estavam em nossa torcida, e Sandro ficou sem saber onde enfiar a cabeça. Tive de ir até ele, ajudá-lo a levantar-se do chão e lhe dizer para não se abater, pois estava jogando bem.
     Quando  algum  pai  ou  mãe  de  aluno reclamava com a diretoria da escola de que aquele professor tratava os alunos com brutalidade, ouviam como justificativa o fato de Damasceno ter formação militar. Por isso tratava todo mundo aos berros. Talvez isso até fosse considerado realmente válido naquele tempo em que o país ainda sofria com os últimos anos da ditadura militar.
     Olhando  para  trás,  me  divirto  com  o  destempero de nosso professor de educação física. Nada mais politicamente incorreto, ainda mais hoje em dia, num tempo em que os alunos são tratados como reis e são muito protegidos pelas escolas. Apesar de seus excessos, Damasceno era boa pessoa e nos ensinou a ser disciplinados na marra, disciplina que transferimos para os cursos dos outros professores e também para vida. Ele mesmo esquecia seus desatinos logo depois de praticá-los e não guardava nenhum rancor dos "zebus", "leitões", "frangueiros" e "burros" a quem ensinava. Quando passei para o ensino médio, mudando de escola e de casa, numa mais o vi.
     Certamente  você  não  tem  nenhum  professor  como ele. Em nossa época, ainda mais numa escola particular, não há condições para isso, o que é certamente melhor, pois todos devem ser tratados com respeito. No entanto, na era do entretenimento, da falta de concentração e do mínimo esforço, às vezes, na condição de professor, me transformo num Damasceno sem insultos e sem gritos. E para você mesmo de vez em quando sou um pai Damasceno sem insultos e sem gritos.