sábado, 21 de junho de 2014

Alguns estabelecimentos e seus nomes


     Divinópolis é uma cidade do interior onde ainda se encontram muitas coisas típicas do Brasil profundo e bem-humorado. Algo interessante são os nomes de alguns estabelecimentos comerciais ou suas caracterizações. Perto da casa de minha mãe, por exemplo, fica o Forte Gás, com esse acento no "o" e essa pintura modernista no muro. Numa rua onde costumo correr quando estou por aqui, nas proximidades do rio Itapecerica, está o Zuiudo's Bar, com esse genitivo inglês e dois olhos enormes na decoração da casa. Quando eu vivia aqui, na adolescência, havia o Bar Sem Nome, o Bar Budo, o Bar dos Pobres e o Pingo no i. Havia ainda uma lojinha de tatuadores chamada Paranoia Tatoo, com paranoicos grafites na fachada. Uma vez, andando pela periferia da cidade, me lembro de ter visto um salão de beleza chamado Entra Feia e Sai Bonita. Nesta semana mesma passei por certo Churrasquinho Velório do Boi. E algum tempo atrás havia por estas paragens um negócio dedicado à vendia fogos de artifício chamado Bin Laden Bombas, nada politicamente correto.
     No tempo em que você vinha muito a Divinópolis e passava temporadas na casa de sua avó, costumava me pedir que eu o colocasse sentado em meus ombros para que fôssemos "ver a cidade". Muitas vezes o fizemos, passando perto de lugares assim, que tinham muito a ver com o bom humor de nossas conversas e o espírito alegre daqueles dias.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Suavidade na vida

     Acabo de ler um livrinho luminoso do filósofo francês contemporâneo Pascal Bruckner, que tem por título Le Marriage d’Amour a-t-il Échoué?. Como o título indica, trata-se de uma reflexão sobre os porquês de tantos casamentos fracassados hoje em dia, bem como das formas alternativas de viver a vida e se relacionar que estão sendo criadas nas últimas décadas. Ao final de sua exposição, numa passagem que pode ser lida para muito além dos impasses do casamento, Bruckner arremata: “O que é necessário inventar hoje em dia é um hedonismo não mercantil, que não dispense a surpresa, o equilíbrio, a ponderação e seja, antes de tudo, uma arte de viver com os outros, e não o gozo por si só. (...) As melhores armas nesse processo são a indulgência e a delicadeza: perdoemos nossas respectivas fraquezas, sem ferir aqueles a quem amamos. Agradeçamos a eles por existirem e nos aceitarem como somos. Chamo a isso suavidade na vida.”
     Tais palavras me caíram bem neste momento em que, após tantos anos de fúria e tantos conflitos desgastantes, estou em busca justamente de indulgência, delicadeza e suavidade. De sua parte, muitas vezes tenho escrito aqui sobre o quanto gostaria de vê-lo crescer com uma mentalidade que despreze os valores mercantis hoje em voga, inclusive o hedonismo associado à compra disso e daquilo, e a adequação aos estereótipos midiáticos desta época obscura. De nossa parte, em nossa relação de pai e filho, espero que possamos desenvolver a capacidade de aceitação de que fala o escritor francês, coisa que, de minha parte, em minha impulsividade e ênfase, ainda preciso trabalhar e amadurecer.

terça-feira, 10 de junho de 2014

A cidade natal no fundo do poço

     Cheguei ontem a Divinópolis, após passar cerca de dez dias em São Paulo. De vez em quando passo por lugares onde há alguns anos vivemos coisas boas juntos durante as visitas que fazíamos à casa de minha mãe e nas temporadas que passamos aqui. Você era bem pequeno e gostava de perambular pelas ruas da cidade sentado no meu ombro, enquanto conversava sobre tudo, pedindo explicação para cada coisa que via.
     Ao andar pela cidade e receber notícias do que anda acontecendo por aqui, fico triste com a decadência que tenho visto. Durante a minha infância e minha adolescência, passadas aqui, Divinópolis era um lugar pacato, seguro e com boa qualidade de vida. Mas bastou que há cerca de 10 ou 12 anos ela se tornasse um entreposto do tráfico de drogas para que toda uma escória de bandidos se instalasse por aqui, gerando um batalhão de viciados vivendo no último estágio da degradação e cometendo toda sorte de crimes para adquirir a droga. Também o conflito entre gangues rivais, a corrupção da parte podre da polícia, o despreparo da parte honesta da mesma instituição, a sensação de insegurança passaram a fazer parte do cotidiano da cidade.
     Mas, se o caos costuma gerar alguma luz, tenhamos ao menos esperança de que um extensivo desejo de mudança permita que forças renovadoras e mais conscientes encontrem espaço de poder neste bastião de conservadorismo e atraso político, marcado por décadas de péssimas administrações.

domingo, 1 de junho de 2014

No estádio com o Galo pela primeira vez


     Este dia em que nos reencontramos após seis meses sem nos vermos foi muito especial. Almoçamos juntos, conversando longamente sobre o que temos feito, jogamos futebol juntos com nossas camisas da Seleção Brasileira e, por fim, fomos ao estádio do Morumbi para ver o Galo jogar contra o São Paulo pelo Campeonato Brasileiro. A partida foi muito boa, e o Atlético jogou muito bem, mas duas falhas grotescas de nosso goleiro, uma delas um frango lamentável, foram determinantes para nossa derrota por 2x1. Se o Galo tivesse vencido, o que poderia perfeitamente ter acontecido, assumiria a liderança do campeonato. De todo modo, saímos felizes por ver nosso time jogar bem, com excelente toque de bola, muitas triangulações rápidas e objetividade no ataque. Jogar assim, com prazer e lealdade, é o fundamental no futebol e na vida. O mais importante, porém, é que esta foi a primeira vez que assistimos a um jogo no estádio juntos, após algumas tentativas frustradas há alguns anos. A nota curiosa foi seu comentário diante dos cabeludos palavrões gritados pelos torcedores do São Paulo a nossa volta: "Nossa, esses caras não têm educação, não! Nunca devem ter ido à escola!" Gostei dessa comprovação de sua fé no poder da cultura e do conhecimento para nos tornar pessoas melhores.
     Devemos nos encontrar novamente no próximo fim de semana. Teremos muita coisa a fazer e muitas conversas ao longo do nosso dia.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Através do Atlântico

     Amanhã partirei para o Brasil, onde minha cabeça e meu coração já estão, ou melhor, de onde nunca saíram. Vou com duas grandes malas muito pesadas e uma grande mochila. Estou cheio de livros que comprei aqui nos últimos seis meses, alguns muito volumosos. Também levo-lhe uma surpresa. Porém, dia desses, quando conversamos, você me disse que eu não deveria ter lhe contado isso...
     Já estou com o espírito da Copa do Mundo e, mais ainda, com o espírito de jogar futebol com você, que me contou estar com um chute fortíssimo. Já sei que terei de ser goleiro e tentar defender centenas de seus tiros livres de curta e média distância. Pena que, como sempre, não poderemos ficar muito tempo juntos. Mas este é um momento de boa expectativa e felicidade. Quero lhe contar sobre minhas viagens recentes e ouvir sobre o que você tem feito. Durante a noite de amanhã, quando estiver cruzando o Atlântico, alguns flashforwards das coisas que experimentarei no Brasil durante os próximos dois meses cruzarão minha mente, já que não consigo dormir em avião.
     Quero ver o seu álbum da Copa e também apreciar ao vivo suas habilidades ao violão. E vamos ler poemas juntos, almoçar juntos e, quem sabe, assistir juntos à estreia do Brasil no torneio contra a Croácia, no dia 12 de junho. Nem precisa dizer que estou morrendo de saudade de você!

sexta-feira, 23 de maio de 2014

D. Deolina e suas benzeções

     Nesta semana sonhei com minha infância, mais precisamente com um episódio de minha infância: as benzeções de D. Deolina. Essa prática situa-se no contexto do sincretismo do catolicismo com as religiões africanas no Brasil. Me recordo de que, quando os meninos de nossa vizinhança tinham problemas de pele, o que era relativamente comum em virtude de andarmos descalços por ruas de terra, nadarmos em córregos não muito limpos e estarmos sempre em contato muito próximo com animais domésticos, nossas mães nos mandavam ir pedir a D. Deolina que nos benzesse. Me lembro de várias ocasiões em que toquei a campainha de sua residência, que ficava quatro ou cinco casas distante da nossa, na rua Passa Tempo. Quando ela aparecia, já velhinha e enrugada, eu dizia, pleno de inocência: "Ô D. Deolina, a minha mãe pediu para a senhora me benzer". Então ela me fazia entrar e benzia o local afetado por perebas e furunculoses com um raminho de arruda e rezas acompanhadas por bocejos. Pelo que me lembro, funcionava, pois em pouco tempo essas erupções desapareciam.
     Se nunca vivi no campo, sou um filho da cultura caipira, pois tanto meu pai quanto minha mãe, que se conheceram em Divinópolis no fim dos anos 1960, nasceram e se criaram em regiões rurais do centro-oeste de Minas. Minha mãe preserva até hoje um rico acervo de histórias da roça envolvendo lendas, mitos, assombrações e acontecimentos estranhos, além de encontros com cobras venenosas e até onças. Se fui para a universidade, escrevi livros, vivi em São Paulo por dezesseis anos e hoje moro em outra metrópole mundialmente reconhecida, nunca perdi minhas raízes. Apesar de nunca ter sido um caipira, tenho o maior respeito por essa cultura, que é muito rica.
     Me lembro agora de uma ocasião, quando você tinha pouco mais de um ano, em que o levei para benzer, pois seu estômago doía com frequência. Isso o fazia acordar frequentemente no meio da noite, não deixando ninguém na casa dormir. A benzedeira, uma velhinha de quase 80 anos, benzeu-o no meu colo e disse que estava sentindo em mim algumas energias negativas. Acabou por me benzer também, emitindo longos bocejos. Parece que a quantidade e a extensão dos bocejos indicam o grau de esforço que a benzedeira tem de fazer para livrar alguém de negras nuvens que pairam sobre seu ser.
     Sou um homem sem fé. Deus, se é que existe, é no mínimo um tremendo omisso. De todo modo, sou aberto a essas manifestações de generosidade e solidariedade por parte de gente boa e simples do povo.

domingo, 18 de maio de 2014

Uma luz na noite

     "Se escrevo é talvez para não ficar só comigo, como acendemos um candeeiro à noite, quando temos medo." Assim escreveu Flaubert numa carta a sua companheira Louise Colet em dezembro de 1852. Sinto que lhe escrevo pela mesma razão. Um dia, quando você for mais maduro e tiver mais consciência das coisas, seguramente também não se sentirá sozinho ao saber que seu pai estará sempre a seu lado. E que, nesta etapa da vida em que ele está tão longe, nunca deixou de pensar em você, de desejar sua companhia e seu amplo sorriso por perto.
     Se lhe escrevo, sem dúvida é para acender uma luz na escuridão das circunstâncias que nos separaram e que têm nos mantido assim. Mas tudo está mudando o tempo todo, e a vida é muito vasta. Ainda chegará o dia de estarmos juntos. 

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Dançando a vida


     Já estou no ritmo deste dançarino de uma pintura que vi na Malásia, o qual já contagiou até mesmo a dupla de galinhas. Falta exatamente um mês para o início da Copa do Mundo no Brasil. Já estou começando a me organizar, pois em pouco mais de duas semanas partirei para São Paulo, onde pretendo encontrá-lo para saber de sua vida e também para jogarmos futebol juntos novamente.
     É sempre uma felicidade a perspectiva de revê-lo. Os próximos dois meses terão muitos dias marcantes. Gostaria de ter a oportunidade de assistir a um jogo do Brasil com você. Já tenho até o lindo pendão da esperança para nos acompanhar.
     Nesta semana que está começando, bem como no decorrer da vida, quero a alegria deste dançarino em nossas vidas. Assim já tem sido quando nos encontramos.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Do meu bebê ao meu rapaz

     Ontem eu repassava uma série de fotos de você bebê, além de um filme em que aparece em seu primeiro dia neste mundo. Em várias imagens, estou pegando-o no colo com um olhar orgulhoso de recém-pai. Me lembro de algumas visitas ao hospital, a quem eu costumava dizer, apontando para você dormindo no berçário: "Ali está um polêmico diretor de cinema, um atacante do Galo e artilheiro da Copa de 2026, um imaginativo escritor...".
     Comparando tais fotografias com as últimas que tenho de você, vejo como as coisas mudaram. Meu bebê se transformou num rapazinho esguio e de vasto sorriso. Na liberdade de seus nove anos, não tem idade para realizar aquelas atividades de que eu me vangloriava para as visitas, mas possui sensibilidade para as artes e é excelente jogador.
     Hoje, quando algum amigo me pergunta por você, sigo falando com orgulho de seus talentos e sua inteligência. Para onde quer que deseje direcionar sua vida, espero poder dialogar consigo sobre suas possibilidades e apreciar suas realizações, ainda que o cinema, o Galo, a Seleção Brasileira ou a literatura venham a sofrer com a perda de suas habilidades, ainda que você fique fora do circuito da fama e do prestígio popular.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Para além da ficção

     Acompanho diariamente o que se passa no Brasil. Muitas vezes fico desanimado com as notícias relacionadas ao lado mais desolador de nossa realidade: a elite vagabunda e violenta que temos, nossa classe média em grande parte tão burra e tão reacionária, nossa polícia tão povoada de bandidos sanguinários, nossa grande imprensa tão mercenária e tão engajada no proselitismo ao que há de mais retrógrado no país, nossa vida intelectual tão medíocre, nosso complexo de vira-latas que nos faz alardear ao mundo todos os nossos defeitos.
     No plano do fait divers, não faltam os mais inconcebíveis absurdos. Para ficar apenas na semana passada, vale lembrar o roubo de um leão num criadouro no interior de São Paulo e a morte de um torcedor de futebol no Recife, atingido por um vaso sanitário atirado por torcedores rivais. Nossa realidade, pelo visto, vai muito além da ficção. Nem um Kafka, nem um Beckett, nem o recém-falecido García Márquez, por exemplo, imaginaram nada do gênero em suas obras.
     Nem vale a pena entrar no campo da política neste ano de eleições para presidente. A baixaria mais bestial já está à solta, com jornalistas integralmente comprometidos com as campanhas de seus patrões, a quem prestam vassalagem enquanto atacam a atual mandatária.
     Desejo que você possa encontrar, ao longo da vida, espaços de diálogo com pessoas criativas e bem educadas, a fim de escapar desse circo de besteiras que tem feito parte de nosso dia a dia. Que possa ler bons livros, viajar, produzir algo que exprima sua unicidade e sua sensibilidade. E que consigamos ao menos iniciar reformas estruturais no Brasil.

domingo, 4 de maio de 2014

Rio de Heráclito

     Tudo é movimento, como observou um dos primeiros filósofos gregos. Sendo assim, tudo está se modificando o tempo todo. Se, por um lado, isso nos coloca numa situação de insegurança pela imprevisibilidade, por outro nos torna mais criativos e mais flexíveis, especialmente se temos a morte em perspectiva.
     Essas ideias sempre me vêm à cabeça quando penso na situação em que estamos, com toda essa distância entre nós e suas consequências sobre a sua e a minha vida. Um filho pequeno deveria estar junto de seu pai, inclusive para ter a consciência de ser positivamente protegido dos perigos do mundo e desenvolver a capacidade de ousar, já que os pais geralmente são aqueles que propõem desafios para seus filhos e fazem-nos encarar alguns pequenos perigos. Mas se tudo é movimento, o estado de coisas vigente hoje haverá de se modificar e um dia estaremos mais próximos.
     Nesta noite de sábado, estou em casa com um ombro dolorido após um problema num jogo de futebol. Em meio à avaliação de alguns ensaios de meus alunos na universidade e à audição de algumas canções do passado, penso em você. Espero que meu filho seja uma pessoa interessada pela leitura dos grandes livros, pela cultura e a arte em geral. Vou sempre presenteá-lo com livros e conversar com você sobre eles, esteja eu aí ou aqui.
     Gostaria que soubesse que já não vejo a hora de estar em São Paulo durante a Copa do Mundo. Imagino que você já esteja trabalhando em seu álbum de figurinhas dos jogadores de cada seleção, mas também que esteja lendo seus livrinhos. Na sucessão dos dias, está também em processo uma pequenina mudança que nos permitirá estar juntos por alguns momentos dentro de mais algumas semanas.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Sem notícias

     Há várias semanas não tenho nenhum contato com você. É verdade que estive em viagem por um período relativamente longo, mas mesmo antes eu vinha tentando alguma comunicação, não conseguindo encontrá-lo. Enviei-lhe diversas mensagens que ficaram sem resposta. Remeti-lhe cartões-postais de lugares por onde viajei, mas nunca soube se eles chegaram a suas mãos.
     Provavelmente lhe está sendo negado o direito a utilizar o telefone e o computador que lhe dei para que possamos ter um mínimo de contato. Não bastassem todos os achaques que já tive de enfrentar, ainda tenho de passar por esse tipo de coisa. Ah, se eu estivesse aí!

domingo, 27 de abril de 2014

Com a Tailândia no coração


     Partirei hoje de Bangkok para Londres após cerca de vinte dias entre a Tailândia, o Vietnã e a Malásia. Muito especialmente vou me lembrar da Tailândia, que é tão bonita e possui um povo muito delicado e bastante discreto. Nos meus primeiros dias aqui, fui visitar o Grande Palácio dos antigos reis do país, que é muito impressionante em suas formas e suas cores. Simplesmente perambular por lá é uma aula de resoluções arquitetônicas brilhantes com as quais não estamos acostumados. Cada detalhe do imenso palácio foi muito bem planejado e bem executado ao longo dos séculos.
     Há poucos dias, estive também na cidade de Ayutthaya, ex-capital do país, destruída pelo exército birmanês em 1767. As ruínas dos muitos e monumentais templos budistas do local contam a história de uma época de ouro no reino de Sião. Foi um passeio para ficar na memória, mas tive de ser muito resistente para suportar um calor de 40 graus e muito sol, pois esta é a estação mais quente do ano na Ásia.
     Realmente espero que você tenha a oportunidade de viajar e ver coisas assim ao longo de sua vida, pois nos tornamos mais flexíveis e menos preconceituosos ao verificar como outras sociedades encontraram soluções diferentes das nossas para organizar a vida e como tais soluções funcionam bem. Definitivamente nossos valores não são os únicos nem os melhores para todos. São apenas os nossos valores. Mas concordo que parte deles, aqueles que dizem respeito à dignidade e ao respeito aos direitos humanos, podem ser universalizados.
     Retornarei à Europa com a Tailândia no coração.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Uma experiência no Vietnã



     Acabo de passar cinco dias na cidade de Hanói. Fiquei impressionado com o caos do trânsito, a bagunça nas calçadas e a quantidade colossal de motocicletas. Mas também fiquei muito impressionado com a gentileza das pessoas, a culinária vietnamita, a complexidade do Vietnã e sua história milenar e cheia de grandes eventos, inclusive com o país derrotando em guerras inimigos muito mais poderosos militarmente nos anos 1950 e 70, sob a liderança do grande Ho Chi Minh. Também me chamou a atenção o belo Templo da Literatura. Jamais imaginei que existisse um.
     Esta foi minha primeira experiência num país socialista. No entanto, trata-se de um socialismo em que grandes empresas produtoras de eletrônicos, roupas e sapatos exploram a mão de obra barata ali disponível, um regime que permite a existência de bairros onde habitam pessoas privilegiadíssimas e estabelecimentos de luxo de acesso exclusivo à elite do país. Enquanto isso, a grande maioria das pessoas é muito pobre. Mas lá está todo o aparato repressor da ditadura pronto para massacrar quem se opuser ao status quo. Me parece que definitivamente não era isso o que Ho Chi Minh sonhou para seu país. E não há dúvida de que esse socialismo burocrático de base soviética, apesar de sua grande importância histórica como alternativa às  iniquidades do capitalismo, é um grande fracasso e um anacronismo nos poucos lugares onde ainda persiste. As portas abertas para a corrupção e a ganância pelo poder estão presentes da mesma forma que no capitalismo, com o agravante de não poderem sequer ser denunciadas e investigadas. Isso não quer dizer que não tenhamos de buscar uma alternativa ao regime capitalista, que coloca o dinheiro e as coisas acima das pessoas.
     No penúltimo dia em Hanói, assisti a um espetáculo de marionetes do qual você iria gostar. Os bonecos são muito bem construídos e encenam pequenos esquetes sobre uma poça d'água, com uma música de sonoridade muito distinta daquela a que nossos ouvidos estão acostumados.
     Que a vida também lhe permita viajar por este mundo, admirar a riqueza da cultura dos homens e tornar-se consciente de que há muitas alternativas válidas à forma como organizamos as coisas em nossa própria sociedade.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Cruzando o mundo

     Amanhã partirei para a Tailândia, indo depois para o Vietnã. Estou muito animado, pois esta será a primeira vez que irei de fato ao Oriente, após ter apenas pisado do lado de lá quando fui a Istambul. Tenho a expectativa de uma grande experiência, com sons, sabores, paisagens, pessoas e costumes muito diferentes. E será também o lugar mais longe de casa e de você onde já estive. Pensarei muito no meu menino no outro lado do planeta, onde estarei aprendendo muitas coisas novas. Retornarei cheio de novas histórias para lhe contar, de novas fotografias para lhe mostrar, o que para mim é muito motivador.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Crianças abandonadas


     Acabo de assistir ao filme Capitães da Areia, baseado no romance homônimo de Jorge Amado. Saí pensando nas circunstâncias em torno dos muitos meninos abandonados que tenho visto em minhas viagens pelo mundo, para não falar na situação daqueles que realizam trabalhos pesados e perigosos ou chegam mesmo a atuar em atividades degradantes como a prostituição ou o tráfico de drogas. Num país de cidadania precária como o Brasil, infelizmente a realidade descrita pelo romancista baiano nos anos 1930 é mais atual que nunca. Na área central de uma cidade como São Paulo, por exemplo, tal realidade pode ser testemunhada em seus aspectos mais sombrios.
     Ao ver especialmente crianças e velhos abandonados pelas ruas, me sinto também responsável por eles, diminuído em minha humanidade e envergonhado de nossa espécie. Isso é ainda mais grave numa época superprodutiva como a nossa. 
     Jamais imaginei meu filho tendo de enfrentar sozinho a maldade e as misérias deste mundo sem ter sequer um mínimo de maturidade para isso. Você está crescendo dentro dos padrões da classe média paulistana, tendo tudo de que necessita, o que é muito justo. Fico feliz pelo fato de o dinheiro que lhe mando todo mês estar sendo usado para garantir o seu bem-estar. Porém nunca se esqueça de que só teremos uma sociedade minimamente equilibrada e segura se corrigirmos essas infâmias. Onde quer que você venha a atuar, jamais se conforme com essa realidade criada ao longo de nossa história excludente por essa elite vagabunda que ainda está no comando do país. É contra os valores dessa canalha que devemos lutar.

domingo, 30 de março de 2014

Um lugar para conversas e disputas


     Se a primavera não é a melhor estação por aqui, pois costuma chover bastante, é definitivamente a mais bonita. Os parques ficam muito coloridos e cheios de vida. Junto com a exuberância das flores, os pássaros, as abelhas e as borboletas retornam após um inverno que costuma ser muito longo e muito frio. E os ingleses são muito bons na arte da jardinagem.
     O parque vizinho de minha casa, em Battersea, bem na beira do rio, já está cheio de vida - humana, vegetal e animal. É um bom lugar para suas correrias e para sua curiosidade. Diante de tantas flores diferentes, você me faria muitas novas perguntas, desejando saber por que este mundo é como é. E disputaríamos várias corridas de 50m, pois você também é muito competitivo em relação a mim. E você ganharia quase todas elas, como sempre acontece. Sem falar nas lutas na grama e nas longas conversas sobre assuntos os mais aleatórios... 
     Como lugares assim nos fazem falta no Brasil! Como os poucos que possuímos estão mal cuidados e mesmo vandalizados! E como precisamos reformar profundamente nossa relação com o patrimônio público e promover um novo senso de cidadania.

terça-feira, 25 de março de 2014

Ao fim de uma aula

     Na última aula de um curso de literatura e cultura brasileira hoje, tratei de Cidade de Deus, o livro e o filme, além do livro Cidade Partida, de Zuenir Ventura. Naturalmente o tema foi a revoltante divisão de classes no Brasil, a violência, a corrupção e a precariedade da cidadania dos pobres. Essas coisas foram relacionadas às recentes manifestações de rua, com protestos em favor de uma melhor qualidade de vida nas cidades e melhores investimentos sociais por parte do governo.
     Num momento de crise econômica nos países hegemônicos da Europa e da América do Norte que abraçaram o neoliberalismo dos anos 1990, muitos olham para o Brasil como uma nova Canaã. Vários de meus alunos falam em ir viver aí após terminarem seus cursos. No entanto, apesar de algumas melhorias nos últimos dez a doze anos, sabemos que ainda temos um longo caminho a percorrer. De todo modo, tendo passado minha adolescência nos anos 1980, a "década perdida", sinto que o país realmente mudou para melhor em muitos aspectos. Me recordo, por exemplo, de meu pai frequentemente desempregado naquele período, além de sua emigração para o estrangeiro por dois anos, já nos anos 1990. 
     Desejo realmente que as previsões dos videntes da nova ordem mundial se confirmem e que possamos construir uma nação bem melhor, mais reconhecida e mais influente. E que você possa viver num tempo menos difícil que o da minha infância e adolescência, ajudando inclusive nesse processo com seu talento e sua criatividade. Mas todos sabemos que não vai ser fácil promover mudanças estruturais sem destronar os vampiros dessa elite vagabunda que temos, a qual domina os três poderes, a grande imprensa e a publicidade. De todo modo, ao menos boa parte do povo está lutando contra eles nas ruas já há algum tempo. Quando você crescer, será um orgulho vê-lo fazendo o mesmo.

domingo, 23 de março de 2014

Estes fragmentos

     Na pressa da vida moderna - que condeno -, tenho escrito eu mesmo estes fragmentos como uma voz a se manifestar no fundo de nossa separação. Gostaria de realizar algo mais denso ainda que bem-humorado, algo mais extenso que cobrisse aspectos mais amplos de nossa história ou de nossa atual "des-história". 
     Já nem sei se você me lê. Se o faz, não sei como minhas palavras repercutem sobre sua sensibilidade. Muito do que trato aqui sequer pode ser compreendido por um garoto de 9 anos, e talvez estas palavras sejam cartas para o futuro, quando você tiver mais consciência das coisas.
    Obviamente estes fragmentos poderiam ser melhores, caso eu pudesse desenvolvê-los mais e fosse melhor escritor. Porém no mínimo eles são expressão de um amor que sobreviveu intocado às infâmias às quais tive de fazer frente há alguns anos, bem como a ódios que quase me moveram a um ato de violência. Hoje, distanciado no tempo e no espaço, pude recuperar a serenidade e me livrar de alguns venenos que a vida nos inocula. 
     Sinto falta do Brasil e desejo retornar a São Paulo, mas sei que sou outra pessoa e que terei de me reajustar na volta, pois não mais caberei nos limites do que estava vivendo por aí quando parti. Muito especialmente teremos de lidar com nossa relação de pai e filho, que terá de ser recriada. E ao reconstituirmos nossa totalidade, estes fragmentos não precisarão mais ser escritos.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Mais só

     Retornei hoje para casa no meio da tarde, por não estar me sentindo muito bem, apesar de ter alguns trabalhos para realizar em meu escritório na universidade. Nos últimos tempos, estive em choque com alguns alunos e com a chefia do departamento onde trabalho. Ando intolerante à mediocridade desses jovens e também da própria instituição. A seu ver, desde que formalidade banais sejam atendidas, tudo está bem, ainda que a qualidade do ensino e do debate intelectual seja pífia. Como tenho pouco freio nas palavras, fiz uso de alguns termos mais pesados para qualificar tais alunos e também a chefia do departamento durante o conflito. Assim, acabei me tornando orgulhosamente persona non grata para uma parte de colegas e alunos. 
     Felizmente o período em que dou aulas está bem perto de terminar, indo somente até o fim da semana que vem. Esse desencanto será compensado por um tempo em que poderei me dedicar mais a minhas leituras e também à escrita. Além disso, tenho algumas boas viagens programadas para os próximos tempos. Pela primeira vez estarei no Oriente por algumas semanas. Tudo isso me anima bastante. Entrarei nesse novo período de cabeça erguida e cheio de planos.
     Quero vê-lo também distante da banalização da vida, ainda que isso represente um choque permanente com os bem ajustados, os desanimados e os desanimadores. Sartre escreveu que "o inferno são os outros". É verdade, mas o paraíso também são os outros. Por isso, aproxime-se dos desajustados, dos anticonvencionais, dos que possuem uma visão poética do mundo, dos veementes. Estes são muito mais interessantes e colocam a vida antes dos formalismos. Converse muito com eles e aprenda a ver as coisas por ângulos inusitados. Nunca pense com um grupo ou um líder qualquer nem espose juízos massificados. Como diz um personagem de Ibsen numa de suas melhores peças, "o homem mais forte do mundo é o que está mais só".

segunda-feira, 17 de março de 2014

Um intervalo

     Nesta noite fria de segunda-feira, penso em meu menino, que está seguramente desfrutando do calor úmido dos trópicos nesta época do ano. Há já algumas semanas que não conversamos, talvez em virtude de seus compromissos com a escola, de suas aulas de violão e outros afazeres. Eu mesmo estou num período de muito engajamento em atividades relacionadas ao trabalho. No entanto, nunca deixo de pensar em você, de imaginar como está e o que está fazendo, se está bem, se aguarda minha ida ao Brasil no fim de maio, para que possamos ver parte da Copa do Mundo juntos e também para que possamos jogar futebol juntos nós mesmos.
     Assim que o encontrar, daremos uma batida de peito antes do abraço e do beijo carregados da saudade arrastada ao longo destes meses todos. Que a vida nos conceda mais alguns momentos como esse e muito tempo em que não mais teremos momentos como esse, após estarmos juntos ou no mínimo bem próximos. E que esse tempo possa chegar em breve.

terça-feira, 11 de março de 2014

Com você em Paris


     Acabo de retornar de Paris, onde estive mais uma vez. É uma cidade mais bonita que Londres, cheia de excelentes museus, monumentos aos grandes homens e às grandes criações da cultura francesa, variados pontos de encontro e socialização, um urbanismo percursor do que se tornou comum nas grandes cidades contemporâneas. Tenho muitas afinidades com a cultura francesa e, se tivesse uma oportunidade, viveria em Paris. 
     Me lembro de um dia em que estive lá, no começo do ano passado. Era seu aniversário e fazia muito frio. Comprei um cartão para lhe enviar, mas, por não ter seu endereço após você ter se mudado de residência, não tinha sequer para onde enviá-lo. Não pude fazer nada além de guardá-lo até setembro, quando fui ao Brasil e o entreguei pessoalmente.
     Um dia, quando estivermos juntos ou quando você simplesmente for mais independente, quero trazê-lo a Paris. Há tantas coisas que desejo lhe mostrar lá, tantos assuntos sobre os quais poderemos conversar, tantos lugares por onde flanaremos despreocupados como fazíamos há alguns anos nas ruas bem mais modestas de Divinópolis! E gostaria de vê-lo soltando a língua em francês, o que acrescentaria em sua personalidade mais uma camada de charme. Quando possível, buscarei um curso para você em São Paulo.

terça-feira, 4 de março de 2014

Volta

     Retorno de viagem a um país distante já tendo outras jornadas internacionais programadas para os próximos tempos, inclusive uma para o Brasil pouco antes do início da Copa do Mundo. Até o fim deste mês estarei envolvido com muitas atividades relacionadas a meu trabalho, mas sei que vou pensar em você tal como o fiz quando estava na Turquia. Cheguei mesmo a lhe enviar um cartão postal de Istambul por ocasião de uma visita a torre de Galata, no centro antigo da parte ocidental da cidade.
     Tenho tido a oportunidade de ver muita coisa interessante e muitos lugares bonitos, bem como de conhecer algumas pessoas especiais. Nos últimos anos, a vida tem sido um pouco mais generosa comigo, após uma sequência de anos infaustos. Mas há nela o vazio da distância, do tempo que possamos sem nos ver, dos dias sem nenhum contato, de às vezes eu não ter ideia do que se passa com você.
     Cada vez que o vejo, na idade em que está, com as mudanças começando a se acelerar como sinal da pré-adolescência, percebo-o diferente e me surpreendo com sua altura, seu tipo físico, o formato de seu rosto, seus novos interesses. Fico triste pela vida toda que estamos perdendo, mas já não podemos fazer muito diante dos rumos que as coisas tomaram. Vivamos o presente e olhemos para frente. E sejamos felizes com a alegria de fazer aquilo de que gostamos, a felicidade de estarmos bem de saúde e a esperança de estarmos juntos em algum momento após meu retorno ao Brasil.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Entre o Ocidente e o Oriente

     Tendo uma semana de folga no trabalho, vim para Istambul, um lugar cheio de história e de uma refinada cultura na fronteira do Ocidente com o Oriente. A própria cidade fica parte na Europa e parte na Ásia. Estou impressionado não somente pela beleza e o significado do lugar, mas também pela culinária turca, que é fantástica, e pelo povo turco, que tem sido muito gentil comigo. Tenho acordado todos os dias com um canto islâmico chamando os fiéis de Maomé para suas orações. Anteontem visitei essa mesquita de imponente arquitetura. Mas fiquei ainda mais impressionado com Hagia Sofia, o magnífico templo erguido pelos cristãos e que posteriormente foi transformado em mesquita, funcionando hoje como um museu. 
     Após muitos desastres e reveses da vida perante a indiferença de Deus, perdi completamente a fé, se é que a tive em algum momento. No entanto, reconheço o poder de agregação e solidariedade das grandes religiões, a despeito do fanatismo, da ignorância e da violência que elas também têm promovido. O saldo me parece amplamente negativo. Por isso, preferencialmente gostaria de vê-lo distante de todas as religiões. Mas, se vier a cultivar alguma, que tome muito cuidado com seu senso crítico, sua inteligência e sua individualidade.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Nove anos e o devir

     Hoje é seu aniversário e mais uma vez não poderei abraçá-lo nem festejar com você esta entrada em seus nove anos de vida. Mas estamos bem. Outros dias quaisquer em que temos nos encontrado têm sido muito especiais e têm compensado um pouco do tempo e da vida que temos perdido em nossa relação de pai e filho.
     Na semana passada lhe enviei um cartão, calculando que ele lhe chegará exatamente hoje. Confiemos na precisão dos correios britânico e brasileiro.
     Nestes anos de distanciamento, nossa vida têm sido uma história de desintegração e renovação depois de tantos percalços e tantos acidentes. Há alguns anos esteve em voga um livro muito instigante do pensador americano Marshall Berman, cujo título é uma frase de Marx: Tudo o que é Sólido Desmancha no Ar. A tese ali defendida é a de que na modernidade esfacelaram-se a estabilidade, as certezas e os valores perpétuos de outras épocas. Assim, ser moderno é justamente renovar-se permanentemente no devir da vida, que se caracteriza pela agitação, a insegurança, a contradição e a angústia. Na instabilidade desse fluxo, no entanto, as coisas fazem sentido quando aceitamos a movimentação de tudo e também nos movemos em busca de uma construção de novas formas de beleza, justiça, felicidade. Essa brevíssima elucubração via Berman tem por fim chamar a sua atenção para a necessidade de hoje sermos flexíveis e versáteis para a recriação de nosso mundo. Tenho aprendido isso à base de seguidos fracassos e muito sofrimento. Nossa vida mesma é a história de um desmanche sobrecarregado de agitação e angústia. Mas ela vem sendo renovada e estamos renascendo do modo como nos é possível. Dentro de mais alguns anos, espero estar próximo de você e fazer parte de seu dia a dia com a alegria que temos cultivado juntos ao longo destes últimos nove anos.
     Que o seu aniversário seja um momento de encontro e diálogo com seus amigos. E que tenhamos, nós mesmos, a oportunidade de um diálogo, ainda que breve, no decorrer do dia.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Nossas lutas

     Num dia chuvoso em que dei aula apenas pela manhã, retornando para casa depois do almoço, repassei, num intervalo entre leituras, um vídeo seu que me foi enviado no fim de semana. Nele você dá chutes no ar, para me mostrar suas habilidades no tae kwon do, arte marcial que agora está praticando com entusiasmo. Quando me enviou esse vídeo, lhe perguntei se também não lhe interessava a nossa capoeira, e o interesse foi prontamente confirmado.
     Me recordo de nossas lutas na cama, ocasiões em que, desde muito pequenininho, você se empenhava para me vencer, o que quase sempre ocorria. Seu grande prazer aos três ou quatro anos era me jogar para fora da cama e depois se lançar sobre mim, no chão, onde a luta era finalizada.
    No fim do ano passado, nossas lutas tiveram uma inovação: uma fantasia de crocodilo e outra de leão que comprei em Londres e levei para o Brasil. Num sábado que passamos juntos em São Paulo, as duas feras africanas se digladiaram num duelo surreal. Mais uma vez, você, trajado de leão, levou a melhor...
     Tenho muitas memórias desses momentos e dessas brincadeiras. Elas me vêm à mente nesta noite fria em que estou sozinho no meu quarto, ao lado de minha cama, cuja grande superfície seria um ótimo ringue para mais um desafio em que, como sempre, o filho busca superar o pai.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Uma viagem a sua primeira infância


     Hoje pela manhã, fui a uma grande loja de departamentos vizinha de onde moro, tendo em vista comprar uma roupa de que estou precisando para uma viagem à Turquia que farei dentro de algumas semanas. Casualmente, no entanto, passei por uma área de livros infantis. Meio de repente, ao pegar um dos livrinhos ali expostos, viajei ao tempo que passamos juntos, quando você ainda era bem pequeno. Era a história dos Três Porquinhos, sua favorita dentre todas as que eu costumava lhe contar à beira da cama, quando o colocava para dormir. Me lembro de que tinha de contá-la dia após dia, milhares de vezes, em algumas ocasiões à noite e também pela manhã, quando você acordava. No momento em que o lobo dava um assoprão para derrumar as casas de palha e de madeira, eu enchia o peito de ar e dava o mesmo assopro em sua direção, com você disparando a rir. Também havia encenação do lobo caindo no caldeirão de água fervente preparado pelos porquinhos e de uma canção entoada por eles no final, quando cantávamos juntos. 
     Tenho saudade daquelas noites e daquelas manhãs.
     Acabei comprando o livrinho para lhe dar quando eu for ao Brasil, agora para que ele o ajude em seus estudos de inglês na escola. Será que meu rapazinho, às vésperas de completar nove anos, ainda se interessará por essas histórias de menino pequenininho?

domingo, 26 de janeiro de 2014

Outro menino de Dostoiévski


     Nesta tarde chuvosa de domingo, tenho passado o dia em casa. Assim, acabo de assistir a uma filmagem de Os Irmãos Karamázov após haver relido a obra-prima de Dostoiévski durante o tempo que passei no Brasil. O filme fez com que eu prestasse mais atenção e me comovesse mais com a história do menino Iliúcha, filho do ex-militar e agora alcoólatra Snieguirióv. Este, chefe de uma família miserável numa Rússia recém-saída da servidão, fora humilhado publicamente por Dimítri Karamázov, mas se recusou a desafiá-lo para um duelo. Após esse episódio, Iliúcha passa a sentir um ódio tão grande por Dimítri que, agravado pelas condições desfavorecidas em que vivia, virá a adoecer e morrer. Antes, porém, ele deseja crescer logo para poder substituir o pai e vingar a ofensa, matando Dimítri num duelo. Além disso, defende a honra de seu pai contra seus colegas de escola, que o insultam, e morde a mão de Aliócha, irmão do agressor de Snieguirióv. Em vez de cultivar vergonha e ressentimento pelo pai, Iliúcha demonstra possuir espírito nobre ao defendê-lo contra todos, em nome da verdade e da justiça. Através desta personagem, Dostoiévski ressalta sua simpatia por aqueles que, mesmo no infortúnio, não perdem o senso de dignidade nem abandonam a prática efetiva da solidariedade. 
     Como essas coisas permanecem fundamentais hoje em dia! Espero que você seja para sempre uma pessoa generosa, que jamais aceite a injustiça e nem barateie seus valores, seus sonhos, suas atitudes. Em linhas muito gerais, essa é a educação que desejo lhe dar.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

São Paulo: a catedral e a cidade

     Hoje tive de resolver alguns problemas nas margens do Tâmisa, próximo da Tate Gallery. Na volta, passei diante da Catedral de São Paulo ou "Saint Paul's Cathedral", com esta cúpula e esta torre. E meu pensamento voou para uma cidade com o mesmo nome. No frio do inverno de uma manhã que começou com muita neblina e foi se tornando clara e ensolarada, pensei em nossa última conversa pelo telefone. Você me disse que gostaria de vir a Londres e estar aqui comigo. Eu lhe disse que o levaria para um passeio de barco pelo rio e outras pequenas grandes aventuras, que seriam muito especiais por serem realizadas em sua companhia, mostrando-lhe tantas coisas bonitas deste lugar, que você veria pela primeira vez. E faria comentários e perguntas surpreendentes, eu sei.
     Daqui a pouco saio correndo para uma aula. Estou entusiasmado por essa proximidade que o telefone que lhe dei no fim do ano tem nos proporcionado. Nunca o abandonei, nunca o abandonarei.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Divagações de uma noite de inverno

     Este é um período de muito frio, muitas aulas na universidade e dias que escurecem muito cedo. É um pouco aborrecido, pois isso é um desestímulo para as atividades ao ar livre, e a vida gira muito em torno da casa e do trabalho. Penso nas semanas que passei no Brasil e sinto falta dos dias ensolarados e da atração exercidas pelas ruas, as praças, os campos de futebol, os parques. Sinto falta muito especialmente de sua companhia nesses lugares.
     Mas não reclamo de nada. Estou bem, tendo bons projetos para 2014 e a expectativa de no final de maio viajar para o Brasil, onde ficarei durante a Copa do Mundo.
     Em meu último dia em São Paulo, antes de retornar à Europa, passei perto de uma loja de instrumentos musicais em Pinheiros, e um cavaquinho na vitrine me chamou a atenção. De imediato imaginei-o a tocá-lo, agora que tem estado próximo do violão. Sendo fã do choro, pensei em "Tico-tico no fubá", "Odeon", "Delicado", grandes composições e tão profundamente brasileiras. Está decidido: quando eu for ao Brasil e quando nos encontrarmos de novo, vou lhe dar um cavaquinho.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Partindo outra vez

     Já estou de malas prontas e partirei nesta noite para São Paulo e depois para Londres. Vamos nos manter em contato via aplicativos de mensagens instantâneas em nossos telefones móveis. Como lhe disse em nosso último contato, desejo que conversemos com vídeo qualquer da desses, para que eu lhe mostre minha casa e também lugares bonitos da cidade onde hoje moro, onde tenho vivido muitas coisas boas e onde meu trabalho é valorizado e respeitado. E você me prometeu me enviar um vídeo com você tocando violão.
     Partir é sempre meio triste. Neste momento mesmo em que escrevo, Pérola, nossa golden retriever, como se soubesse que me ausentarei por muito tempo, está deitada a meus pés após me acompanhar pela casa o dia inteiro. Como manifestação de carinho, ela de vez em quando lambe minha perna. Alguns amigos já me ligaram para se despedir, parentes me visitaram e minha mãe até preparou um almoço diferente e melhor.
     De todo modo, depois de tantas viagens, de viver longe por tanto tempo, já não sofro muito com esses momentos nem tenho com eles uma relação sentimentalista. Simplesmente é preciso partir de novo, e estou pronto para isso.
     Pretendo acompanhar seu desempenho na escola, seus afazeres e seus projetos. Neste ano, com seu novo telefone, vamos ter um contato mais estreito. E vamos ver parte da Copa do Mundo juntos, em meados do ano, momento que aguardo com grande expectativa.
     Desejo que você fique bem, que esteja feliz e viva generosamente.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Do tempo

     Nestes dias em Divinópolis, tenho sofrido um pouco com o excessivo calor do alto verão tropical. Nunca gostei do excesso de calor e sou um dos poucos brasileiros que não gostam de praia, por exemplo. Talvez por mineirice, prefiro a montanha. 
     No último fim de semana, passei pelo relógio de sol às margens do Itapecerica, que realmente marca as horas com precisão. Quando bem pequeno, você gostava de brincar por ali, sentando-se em seu arco.
     O tempo está passando rapidamente, e na semana que vem já terei de partir de volta para a Europa. Dentro de mais alguns dias, retornarei a São Paulo, mas tudo indica que não nos encontraremos mais uma vez antes de minha longa jornada sobre o Atlântico.
     Tenho um sentimento de que 2014 será um ano especial. De minha parte, tenho vários projetos literários, profissionais e de viagens que, se forem bem desenvolvidos, resultarão em realizações interessantes. E passarei dois meses no Brasil, entre meados de maio e meados de julho, por ocasião da Copa do Mundo. Outro importante projeto é assistir a um dos jogos em São Paulo com você, no estádio. Enfim, há toda uma agenda já com uma variada programação.
     O relógio de sol divinopolitano me lembra que o tempo tem sido aqui um tema constante. Especialmente um utópico mas palpável "dia que virá" me faz seguir adiante como o pai que você nunca perdeu, apesar de tudo o que temos passado nos últimos seis ou sete anos.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Da crueldade contra as crianças

    Para mim, há alguns escritores essenciais. Um deles é o russo Dostoiévski, que toca sempre algo de muito profundo na condição humana, mesmo que para isso – ou por isso mesmo – tenha de lançar mão de explorar nosso lado mais cruel e mais sombrio. Me lembro de que, em outra ocasião, escrevi aqui sobre a relação dele com as crianças, reproduzindo uma passagem de seu diário em que o escritor trata da visão de mundo dos pequenos e sua forma ativa de se relacionar com a realidade. O próprio escritor era alguém que costumava, ao andar pelas ruas de São Petersburgo, parar para conversar com os meninos que encontrava pelo caminho.
     Relendo Os Irmãos Karamázov neste período de férias no Brasil e de reencontro com minha biblioteca, me reencontrei hoje com esta reflexão do personagem Ivan Karamázov, que, após contar algumas histórias chocantes, trata da crueldade daqueles que infligem tormentos às crianças:

...é precisamente o lado indefeso dessas criaturas que seduz os torturadores, e a credulidade angelical da criança, que não tem onde se meter nem a quem recorrer, é o que inflama o sangue abjeto do torturador. Em todo homem, é claro, esconde-se uma fera, a fera da cólera, a fera da excitabilidade lasciva com os gritos da vítima supliciada, a fera que desconhece freios, desacorrentada, a fera das doenças, da pobreza e dos fígados adoecidos na devassidão.

    Busquei sempre ter uma postura firme e estabelecer uma noção muito clara de seus limites. Cheguei inclusive a castigá-lo uma vez, em Belo Horizonte, quando desrespeitou uma interdição de não jogar uma série de pedrinhas que cobriam a terra de uma planta no piso do apartamento onde morávamos. Foram cinco minutos trancado em seu quarto. Você devia ter quatro anos na época. Chorou, mas nunca voltou a fazer aquilo. No entanto, jamais me passou pela cabeça a prática de qualquer ato cruel, humilhante ou desumano por causa de qualquer incidente entre nós. Acho até que tenho sido um pai generoso e protetor, apesar de também instigá-lo a correr pequenos riscos.
     Sempre fico muito indignado ao saber de crianças que sofrem violências por parte de adultos cruéis. Esta é uma de minhas preocupações em virtude da distância em que nos mantemos já por longo tempo. Que as garras da besta-fera que habita todo homem jamais o atinjam, pois isso me atingirá de forma muito intensa. Na minha impulsividade, nem sei do que eu mesmo seria capaz de fazer contra o ofensor.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Um Natal e uma praça

     Cheguei a Divinópolis na véspera do Natal. Aí está a Praça da Catedral, na vizinhança da casa de minha mãe. Muitas vezes o levei para brincar neste lugar, que possui toda a atmosfera acolhedora do meio provinciano. Quando você era bem pequeno, gostava de subir escadas, descer rampas correndo, empoleirar-se em árvores, brincar na areia com seu baldinho e sua pá. Eu me mantinha sempre a seu lado, brincando com você e protegendo-o de pequenos perigos.
     Há dois dias, na noite de Natal propriamente, trocamos mensagens pelo telefone. Você me disse que gostaria de estar comigo em Divinópolis, na "casa da Vovó". Eu lhe mandei meu abraço e meus votos de que possamos estar juntos mais vezes e por mais tempo em 2014. Apesar de tudo o que temos perdido, nos últimos tempos tenho estado mais sereno. Sei que nossos laços de afeto nunca foram rompidos e que, dentro de mais alguns anos, quando você for mais independente, passaremos outros Natais juntos, faremos outras viagens juntos, assistiremos a outros jogos juntos e nós mesmos jogaremos juntos. O tempo sempre ajusta as coisas em nossas vidas. Portanto, este impaciente vem tendo, há alguns anos, boas lições de espera e de esperança.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Bola pra frente!

     Reencontrei-o hoje. Almoçamos juntos e passamos a tarde numa longa conversação sobre o que anda acontecendo em nossas vidas. Acabo de lhe enviar algumas fotos que tirei de nós na seção infanto-juvenil da livraria Saraiva, onde ficamos por algum tempo.
     Estes são os presentinhos de Natal que lhe dei: uma fantasia de leão para lutarmos sobre a cama, uma camisa do Galo, uma camisa amarela de mangas compridas (para você jogar futebol em dias frios), um caneco com o tema de bichos da fazenda (para você tomar seu café pela manhã), um desses telefones chamados "inteligentes" (para estarmos em contato através de um programa de envio e recebimento de mensagens instantâneas), o livrinho A Arca de Noé, de Vinicius de Moraes. Desde que retornei para casa, já recebi muitas mensagens suas dizendo que me ama "muuuuuuuuuuuuito". Respondi-lhe à altura e lhe enviei as fotos tiradas hoje.
     O Galo perdeu hoje na semifinal do Mundial Interclubes e não estará na decisão. Mas, como lhe expliquei numa mensagem pelo telefone, a derrota faz parte da vida. Temos de levantar a cabeça e partir para outra.
    Iríamos nos encontrar novamente no sábado, para jogar bola, mas há pouco você me comunicou que isso não será possível, pois vai viajar. Fiquei triste, mas tudo bem. Ao menos agora poderemos estar em contato através da tecnologia moderna. Bola pra frente!

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Um coraçãozinho feliz

     Andando vagamente pelas ruas de São Paulo, me deparei hoje com este coraçãozinho feliz desenhado sobre uma pedra do calçamento de uma rua do Butantã. Houve uma identificação imediata, pois é assim que o meu está se sentindo diante da iminência de encontrá-lo e passar o dia com você. Telefonei-lhe muitas vezes, mas seu celular estava sempre desligado. Liguei para a empregada de sua casa, mas o aparelho dela também estava indisponível. Até que consegui falar com sua ex-babá, que mais uma vez intermediou nosso encontro, que deve acontecer depois de amanhã. Tenho muita coisa para conversar, muitas histórias para lhe contar e muito a ouvir de você.
     No próximo domingo, o Galo deve disputar a final do mundial interclubes contra o Bayern de Munique. Minha intenção era ir para Minas no sábado, mas considero seriamente a possibilidade de ficar em São Paulo até domingo, a fim de que possamos assistir ao jogo juntos. Será algo marcante vermos juntos o Galo sendo campeão mundial. Se é que nos será possível fazer isso. A experiência pregressa não é nada auspiciosa nesse tipo de ocasião.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Outro retorno provisório

     Acabei de chegar a São Paulo, após uma viagem muito longa a partir de Londres, com conexão em Madri. Estou cansado, mas ainda assim fui resolver algumas questões bancárias e também fui visitar a feira de livros da USP. Ainda no aeroporto telefonei para você, mas seu celular estava desligado. Não vejo a hora de reencontrá-lo.
     É sempre uma felicidade estar novamente no Brasil. No caminho do aeroporto para casa, já pude sentir de novo os nossos cheiros, a nossa conversa, o nosso jeito de ser. Saí de uma temperatura de 2°C para quase 30°C. Vi também muitos dos nossos problemas pelo caminho: caos urbano, poluição dos rios, transporte público de péssima qualidade, muitas pessoas vivendo mal.
     No avião, vários de nossos patrícios viajavam com a camisa da Seleção Brasileira como uma espécie de senha para o resto do mundo. De minha parte, apesar de amar o futebol e a Seleção, não sou desses patriotas de Copa do Mundo.
     Mas o que importa é que estou novamente no Brasil, para as festas de fim de ano e principalmente para revê-lo após aguardar por isso durante alguns meses em que minha cabeça não saiu daqui. Espero poder falar com você mais tarde e marcar mais um desses poucos mas intensos encontros que temos tido por ano.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Velhos da minha infância

     Minha infância em Divinópolis foi povoada por velhos, e eu era muito próximo de alguns deles. Me lembro de meu avô materno, que era um homem de forte personalidade, sempre fumando um cigarro de palha e próximo de um fogão a lenha que havia em sua casa. Originário de regiões rurais nas proximidades de São João del Rey, ele encarnava a riqueza da cultura caipira, com todo o seu acervo de histórias, músicas e trejeitos originais. Ainda no campo da cultura caipira, me recordo de Carrico, um velhinho de 1,50m de altura, sempre com seu chapéu na cabeça, fumando um cachimbo. Morava de frente a minha casa, numa ruazinha sem calçamento significativamente chamada de Passa Tempo. Com uma fala arrastada e voz fina, vivia contando, para os meninos da vizinhança, histórias de seus encontros com onças pintadas, lobisomens e sacis.
     Três casas para cima da nossa, vivia uma senhora chamada Maria Vilela. Devia ter perto de 80 anos e não se cuidava muito bem, pois tinha uma aparência de bruxa de contos de fadas, com vestidos remendados, cabelo em desalinho, dentes com falhas, uma grande verruga no nariz e voz rouca. Corria que era feiticeira, e todos temiam seus possíveis poderes sobrenaturais. Vivia com seu filho Zé Vilela, já um quarentão lá pelo começo da década de 1980, de quem me lembro gabando-se para as mulheres de que se parecia com o príncipe Charles!
    D. Deolinda era uma benzedeira a quem minha mãe costumava me mandar sempre que me surgia alguma erupção de pele por passar o dia jogado futebol na rua ou em campinhos de terra, ou em virtude de contatos com sapos e outros bichos não muito limpos. Aparentemente suas benzeduras funcionavam muito bem.
   Havia Nilo da Peroba, um misterioso andarilho, permanentemente cruzando a cidade de um lugar para outro, em silêncio. Era altíssimo, e ninguém nunca ouviu sua voz.
     E havia os velhos que ficavam furiosos quando alguém aludia a seus defeitos físicos ou psicológicos. Boneca era uma senhora que sempre passava pela rua Passa Tempo acompanhada por um séquito de uns trinta cachorros. Se alguém lhe gritava o apelido, ela jogava pedras na direção do atrevido, e seus cachorros disparavam a latir em coro. Mazzaropi, um velho que realmente se parecia com o personagem do cinema, também perdia as estribeiras ao ser chamado pelo apelido, prometendo, aos gritos, capar o ofensor. Venerando e Lúcia eram dois velhos irmãos mudos, que só emitiam sons inarticulados. Possuíam gatos, que eram tratados como filhos, e também ficavam fera se alguém aludia a sua mudez ou assustasse seus vários felinos.
     De minha parte, sempre me senti bem na companhia dos velhos e tenho admirado bastante alguns deles. Ainda vivi um tempo em que envelhecer não era um crime, em que os velhos não eram descartados em asilos ou quartinhos no fundo das casas, mas participavam plenamente da vida comunitária. Minhas duas avós mesmas, que morreram recentemente, ambas com quase cem anos, foram pessoas com vida ativa e voz na família.
     Crescendo num apartamento em São Paulo, frequentando uma escola de professores jovens, transitando o tempo todo por entre uma fauna juvenil, você tem tido pouco contato com pessoas mais velhas. No entanto, sempre que puder, aproxime-se dos velhos. Eles têm sempre um tesouro de lembranças, experiências e episódios imaginários que vale a pena compartilhar. Esse modo adolescente de estar no mundo que está hoje em voga não passa de uma moda que haverá de passar sem deixar muitos vestígios.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Trabalho e sucesso

     Neste fim de ano, por estar tendo de me haver com dois empregos, me sinto meio irritado com a absorção de meu tempo de ler, escrever, ouvir música e praticar esportes. Felizmente entraremos num período de férias, que passarei no Brasil. Estou sentindo falta de você, das pessoas queridas e de nossas coisas.
     Essa dedicação a dois trabalhos vai terminar em breve. Dentro de alguns meses, quando terminar um de meus contratos, não vou renová-lo. Preciso de mais dinheiro por agora e acabei me sujeitando a ficar me desdobrando entre um emprego e outro, uma cidade e outra, em diferentes dias da semana. Sou radicalmente antipático ao atual culto do chamado "sucesso profissional" como parâmetro para a avaliação das pessoas, em especial como aspecto determinante da boa vontade alheia em relação a nós.
     Sempre que vou ao Brasil, sou incensado por alguns amigos me consideram um bem-sucedido por trabalhar em duas universidade importantes da Europa, publicar alguma coisa aqui e ali e ter meu nome em jornais de vez em quando. Não partilho de seu entusiasmo, apesar de saber que tenho tido uma trajetória pouco convencional. Tenho fracassado muito mais que obtido sucesso em meus empreendimentos. E minhas realizações tem sido muito pequenas. Gostaria de realizar algo bem mais significativo, possivelmente no campo da literatura. Se tenho tido algum mérito, este tem sido o da coragem de percorrer um caminho de perspectivas bastante limitadas, buscando seguir minha vocação e fazer com paixão o que gosto de fazer.
     Recentemente assisti, no teatro, a uma montagem da peça The Glass Menagerie, de Tennessee Williams, uma das minhas favoritas em toda dramaturgia mundial. Desde o primeiro contato, me apaixonei pela personagem Laura Wingfield, que passa a vida cuidando de uma coleção de bichos de cristal e cuja existência se realiza através da mais pura poesia.
     Talvez eu esteja escrevendo isto para lhe dizer que não há nada de errado com alguém que escolhe passar a vida criando os filhos, ou viajando pelo mundo, ou tocando um instrumento musical, ou escrevendo poemas. Tenho conhecido pessoas maravilhosas que vivem à margem dos costumes hoje dominantes. Jamais tenha medo de seguir contra a corrente ou de enxergar a vida de um ponto de vista diferente.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Do exotismo



      Gosto de sair em Londres à noite e observar a cidade e as pessoas. A cidade parece ficar ainda mais bonita com as luzes acesas, tantas coisas acontecendo por todo lado e muita vida nas ruas. As pessoas são sempre uma surpresa. As tribos urbanas parecem preferir a noite para se mostrarem. Os mais exóticos, muitas vezes os mais espantosos visuais se mostram por todo lado. Apesar de não ter interesse em fazer nada semelhante no plano da aparência física, tenho simpatia por essas pessoas que confrontam as convenções, o óbvio e o consagrado como “normal” ou “de bom gosto”.
     Na noite de ontem, fui ao National Theatre para assistir a uma montagem da peça Da Manhã à Meia-noite, do expressionista alemão Georg Kaiser. Logo depois, fui ao encontro de alguns amigos num bar à margem sul do Tâmisa, onde fiquei até relativamente tarde. Quando voltava para casa, encontrei muitas daquelas criaturas da noite pelo caminho. Acho curiosa a naturalidade como todos por aqui convivem com elas. Ninguém sequer as olha, só eu, que serei para sempre este mineiro do interior. 
   Dentro de mais alguns anos, você entrará na adolescência. Pode ser que venha a ter alguma atração por algumas bizarrices visuais, apesar de eu achar que isso não deve acontecer com intensidade, pois sua personalidade parece tender a certa seriedade e contensão. Mas a rebeldia natural dessa fase pode até encontrar alguma vazão nesse tipo de atitude. Quero estar lá para ver e acompanhar isso.