domingo, 30 de março de 2014

Um lugar para conversas e disputas


     Se a primavera não é a melhor estação por aqui, pois costuma chover bastante, é definitivamente a mais bonita. Os parques ficam muito coloridos e cheios de vida. Junto com a exuberância das flores, os pássaros, as abelhas e as borboletas retornam após um inverno que costuma ser muito longo e muito frio. E os ingleses são muito bons na arte da jardinagem.
     O parque vizinho de minha casa, em Battersea, bem na beira do rio, já está cheio de vida - humana, vegetal e animal. É um bom lugar para suas correrias e para sua curiosidade. Diante de tantas flores diferentes, você me faria muitas novas perguntas, desejando saber por que este mundo é como é. E disputaríamos várias corridas de 50m, pois você também é muito competitivo em relação a mim. E você ganharia quase todas elas, como sempre acontece. Sem falar nas lutas na grama e nas longas conversas sobre assuntos os mais aleatórios... 
     Como lugares assim nos fazem falta no Brasil! Como os poucos que possuímos estão mal cuidados e mesmo vandalizados! E como precisamos reformar profundamente nossa relação com o patrimônio público e promover um novo senso de cidadania.

terça-feira, 25 de março de 2014

Ao fim de uma aula

     Na última aula de um curso de literatura e cultura brasileira hoje, tratei de Cidade de Deus, o livro e o filme, além do livro Cidade Partida, de Zuenir Ventura. Naturalmente o tema foi a revoltante divisão de classes no Brasil, a violência, a corrupção e a precariedade da cidadania dos pobres. Essas coisas foram relacionadas às recentes manifestações de rua, com protestos em favor de uma melhor qualidade de vida nas cidades e melhores investimentos sociais por parte do governo.
     Num momento de crise econômica nos países hegemônicos da Europa e da América do Norte que abraçaram o neoliberalismo dos anos 1990, muitos olham para o Brasil como uma nova Canaã. Vários de meus alunos falam em ir viver aí após terminarem seus cursos. No entanto, apesar de algumas melhorias nos últimos dez a doze anos, sabemos que ainda temos um longo caminho a percorrer. De todo modo, tendo passado minha adolescência nos anos 1980, a "década perdida", sinto que o país realmente mudou para melhor em muitos aspectos. Me recordo, por exemplo, de meu pai frequentemente desempregado naquele período, além de sua emigração para o estrangeiro por dois anos, já nos anos 1990. 
     Desejo realmente que as previsões dos videntes da nova ordem mundial se confirmem e que possamos construir uma nação bem melhor, mais reconhecida e mais influente. E que você possa viver num tempo menos difícil que o da minha infância e adolescência, ajudando inclusive nesse processo com seu talento e sua criatividade. Mas todos sabemos que não vai ser fácil promover mudanças estruturais sem destronar os vampiros dessa elite vagabunda que temos, a qual domina os três poderes, a grande imprensa e a publicidade. De todo modo, ao menos boa parte do povo está lutando contra eles nas ruas já há algum tempo. Quando você crescer, será um orgulho vê-lo fazendo o mesmo.

domingo, 23 de março de 2014

Estes fragmentos

     Na pressa da vida moderna - que condeno -, tenho escrito eu mesmo estes fragmentos como uma voz a se manifestar no fundo de nossa separação. Gostaria de realizar algo mais denso ainda que bem-humorado, algo mais extenso que cobrisse aspectos mais amplos de nossa história ou de nossa atual "des-história". 
     Já nem sei se você me lê. Se o faz, não sei como minhas palavras repercutem sobre sua sensibilidade. Muito do que trato aqui sequer pode ser compreendido por um garoto de 9 anos, e talvez estas palavras sejam cartas para o futuro, quando você tiver mais consciência das coisas.
    Obviamente estes fragmentos poderiam ser melhores, caso eu pudesse desenvolvê-los mais e fosse melhor escritor. Porém no mínimo eles são expressão de um amor que sobreviveu intocado às infâmias às quais tive de fazer frente há alguns anos, bem como a ódios que quase me moveram a um ato de violência. Hoje, distanciado no tempo e no espaço, pude recuperar a serenidade e me livrar de alguns venenos que a vida nos inocula. 
     Sinto falta do Brasil e desejo retornar a São Paulo, mas sei que sou outra pessoa e que terei de me reajustar na volta, pois não mais caberei nos limites do que estava vivendo por aí quando parti. Muito especialmente teremos de lidar com nossa relação de pai e filho, que terá de ser recriada. E ao reconstituirmos nossa totalidade, estes fragmentos não precisarão mais ser escritos.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Mais só

     Retornei hoje para casa no meio da tarde, por não estar me sentindo muito bem, apesar de ter alguns trabalhos para realizar em meu escritório na universidade. Nos últimos tempos, estive em choque com alguns alunos e com a chefia do departamento onde trabalho. Ando intolerante à mediocridade desses jovens e também da própria instituição. A seu ver, desde que formalidade banais sejam atendidas, tudo está bem, ainda que a qualidade do ensino e do debate intelectual seja pífia. Como tenho pouco freio nas palavras, fiz uso de alguns termos mais pesados para qualificar tais alunos e também a chefia do departamento durante o conflito. Assim, acabei me tornando orgulhosamente persona non grata para uma parte de colegas e alunos. 
     Felizmente o período em que dou aulas está bem perto de terminar, indo somente até o fim da semana que vem. Esse desencanto será compensado por um tempo em que poderei me dedicar mais a minhas leituras e também à escrita. Além disso, tenho algumas boas viagens programadas para os próximos tempos. Pela primeira vez estarei no Oriente por algumas semanas. Tudo isso me anima bastante. Entrarei nesse novo período de cabeça erguida e cheio de planos.
     Quero vê-lo também distante da banalização da vida, ainda que isso represente um choque permanente com os bem ajustados, os desanimados e os desanimadores. Sartre escreveu que "o inferno são os outros". É verdade, mas o paraíso também são os outros. Por isso, aproxime-se dos desajustados, dos anticonvencionais, dos que possuem uma visão poética do mundo, dos veementes. Estes são muito mais interessantes e colocam a vida antes dos formalismos. Converse muito com eles e aprenda a ver as coisas por ângulos inusitados. Nunca pense com um grupo ou um líder qualquer nem espose juízos massificados. Como diz um personagem de Ibsen numa de suas melhores peças, "o homem mais forte do mundo é o que está mais só".

segunda-feira, 17 de março de 2014

Um intervalo

     Nesta noite fria de segunda-feira, penso em meu menino, que está seguramente desfrutando do calor úmido dos trópicos nesta época do ano. Há já algumas semanas que não conversamos, talvez em virtude de seus compromissos com a escola, de suas aulas de violão e outros afazeres. Eu mesmo estou num período de muito engajamento em atividades relacionadas ao trabalho. No entanto, nunca deixo de pensar em você, de imaginar como está e o que está fazendo, se está bem, se aguarda minha ida ao Brasil no fim de maio, para que possamos ver parte da Copa do Mundo juntos e também para que possamos jogar futebol juntos nós mesmos.
     Assim que o encontrar, daremos uma batida de peito antes do abraço e do beijo carregados da saudade arrastada ao longo destes meses todos. Que a vida nos conceda mais alguns momentos como esse e muito tempo em que não mais teremos momentos como esse, após estarmos juntos ou no mínimo bem próximos. E que esse tempo possa chegar em breve.

terça-feira, 11 de março de 2014

Com você em Paris


     Acabo de retornar de Paris, onde estive mais uma vez. É uma cidade mais bonita que Londres, cheia de excelentes museus, monumentos aos grandes homens e às grandes criações da cultura francesa, variados pontos de encontro e socialização, um urbanismo percursor do que se tornou comum nas grandes cidades contemporâneas. Tenho muitas afinidades com a cultura francesa e, se tivesse uma oportunidade, viveria em Paris. 
     Me lembro de um dia em que estive lá, no começo do ano passado. Era seu aniversário e fazia muito frio. Comprei um cartão para lhe enviar, mas, por não ter seu endereço após você ter se mudado de residência, não tinha sequer para onde enviá-lo. Não pude fazer nada além de guardá-lo até setembro, quando fui ao Brasil e o entreguei pessoalmente.
     Um dia, quando estivermos juntos ou quando você simplesmente for mais independente, quero trazê-lo a Paris. Há tantas coisas que desejo lhe mostrar lá, tantos assuntos sobre os quais poderemos conversar, tantos lugares por onde flanaremos despreocupados como fazíamos há alguns anos nas ruas bem mais modestas de Divinópolis! E gostaria de vê-lo soltando a língua em francês, o que acrescentaria em sua personalidade mais uma camada de charme. Quando possível, buscarei um curso para você em São Paulo.

terça-feira, 4 de março de 2014

Volta

     Retorno de viagem a um país distante já tendo outras jornadas internacionais programadas para os próximos tempos, inclusive uma para o Brasil pouco antes do início da Copa do Mundo. Até o fim deste mês estarei envolvido com muitas atividades relacionadas a meu trabalho, mas sei que vou pensar em você tal como o fiz quando estava na Turquia. Cheguei mesmo a lhe enviar um cartão postal de Istambul por ocasião de uma visita a torre de Galata, no centro antigo da parte ocidental da cidade.
     Tenho tido a oportunidade de ver muita coisa interessante e muitos lugares bonitos, bem como de conhecer algumas pessoas especiais. Nos últimos anos, a vida tem sido um pouco mais generosa comigo, após uma sequência de anos infaustos. Mas há nela o vazio da distância, do tempo que possamos sem nos ver, dos dias sem nenhum contato, de às vezes eu não ter ideia do que se passa com você.
     Cada vez que o vejo, na idade em que está, com as mudanças começando a se acelerar como sinal da pré-adolescência, percebo-o diferente e me surpreendo com sua altura, seu tipo físico, o formato de seu rosto, seus novos interesses. Fico triste pela vida toda que estamos perdendo, mas já não podemos fazer muito diante dos rumos que as coisas tomaram. Vivamos o presente e olhemos para frente. E sejamos felizes com a alegria de fazer aquilo de que gostamos, a felicidade de estarmos bem de saúde e a esperança de estarmos juntos em algum momento após meu retorno ao Brasil.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Entre o Ocidente e o Oriente

     Tendo uma semana de folga no trabalho, vim para Istambul, um lugar cheio de história e de uma refinada cultura na fronteira do Ocidente com o Oriente. A própria cidade fica parte na Europa e parte na Ásia. Estou impressionado não somente pela beleza e o significado do lugar, mas também pela culinária turca, que é fantástica, e pelo povo turco, que tem sido muito gentil comigo. Tenho acordado todos os dias com um canto islâmico chamando os fiéis de Maomé para suas orações. Anteontem visitei essa mesquita de imponente arquitetura. Mas fiquei ainda mais impressionado com Hagia Sofia, o magnífico templo erguido pelos cristãos e que posteriormente foi transformado em mesquita, funcionando hoje como um museu. 
     Após muitos desastres e reveses da vida perante a indiferença de Deus, perdi completamente a fé, se é que a tive em algum momento. No entanto, reconheço o poder de agregação e solidariedade das grandes religiões, a despeito do fanatismo, da ignorância e da violência que elas também têm promovido. O saldo me parece amplamente negativo. Por isso, preferencialmente gostaria de vê-lo distante de todas as religiões. Mas, se vier a cultivar alguma, que tome muito cuidado com seu senso crítico, sua inteligência e sua individualidade.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Nove anos e o devir

     Hoje é seu aniversário e mais uma vez não poderei abraçá-lo nem festejar com você esta entrada em seus nove anos de vida. Mas estamos bem. Outros dias quaisquer em que temos nos encontrado têm sido muito especiais e têm compensado um pouco do tempo e da vida que temos perdido em nossa relação de pai e filho.
     Na semana passada lhe enviei um cartão, calculando que ele lhe chegará exatamente hoje. Confiemos na precisão dos correios britânico e brasileiro.
     Nestes anos de distanciamento, nossa vida têm sido uma história de desintegração e renovação depois de tantos percalços e tantos acidentes. Há alguns anos esteve em voga um livro muito instigante do pensador americano Marshall Berman, cujo título é uma frase de Marx: Tudo o que é Sólido Desmancha no Ar. A tese ali defendida é a de que na modernidade esfacelaram-se a estabilidade, as certezas e os valores perpétuos de outras épocas. Assim, ser moderno é justamente renovar-se permanentemente no devir da vida, que se caracteriza pela agitação, a insegurança, a contradição e a angústia. Na instabilidade desse fluxo, no entanto, as coisas fazem sentido quando aceitamos a movimentação de tudo e também nos movemos em busca de uma construção de novas formas de beleza, justiça, felicidade. Essa brevíssima elucubração via Berman tem por fim chamar a sua atenção para a necessidade de hoje sermos flexíveis e versáteis para a recriação de nosso mundo. Tenho aprendido isso à base de seguidos fracassos e muito sofrimento. Nossa vida mesma é a história de um desmanche sobrecarregado de agitação e angústia. Mas ela vem sendo renovada e estamos renascendo do modo como nos é possível. Dentro de mais alguns anos, espero estar próximo de você e fazer parte de seu dia a dia com a alegria que temos cultivado juntos ao longo destes últimos nove anos.
     Que o seu aniversário seja um momento de encontro e diálogo com seus amigos. E que tenhamos, nós mesmos, a oportunidade de um diálogo, ainda que breve, no decorrer do dia.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Nossas lutas

     Num dia chuvoso em que dei aula apenas pela manhã, retornando para casa depois do almoço, repassei, num intervalo entre leituras, um vídeo seu que me foi enviado no fim de semana. Nele você dá chutes no ar, para me mostrar suas habilidades no tae kwon do, arte marcial que agora está praticando com entusiasmo. Quando me enviou esse vídeo, lhe perguntei se também não lhe interessava a nossa capoeira, e o interesse foi prontamente confirmado.
     Me recordo de nossas lutas na cama, ocasiões em que, desde muito pequenininho, você se empenhava para me vencer, o que quase sempre ocorria. Seu grande prazer aos três ou quatro anos era me jogar para fora da cama e depois se lançar sobre mim, no chão, onde a luta era finalizada.
    No fim do ano passado, nossas lutas tiveram uma inovação: uma fantasia de crocodilo e outra de leão que comprei em Londres e levei para o Brasil. Num sábado que passamos juntos em São Paulo, as duas feras africanas se digladiaram num duelo surreal. Mais uma vez, você, trajado de leão, levou a melhor...
     Tenho muitas memórias desses momentos e dessas brincadeiras. Elas me vêm à mente nesta noite fria em que estou sozinho no meu quarto, ao lado de minha cama, cuja grande superfície seria um ótimo ringue para mais um desafio em que, como sempre, o filho busca superar o pai.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Uma viagem a sua primeira infância


     Hoje pela manhã, fui a uma grande loja de departamentos vizinha de onde moro, tendo em vista comprar uma roupa de que estou precisando para uma viagem à Turquia que farei dentro de algumas semanas. Casualmente, no entanto, passei por uma área de livros infantis. Meio de repente, ao pegar um dos livrinhos ali expostos, viajei ao tempo que passamos juntos, quando você ainda era bem pequeno. Era a história dos Três Porquinhos, sua favorita dentre todas as que eu costumava lhe contar à beira da cama, quando o colocava para dormir. Me lembro de que tinha de contá-la dia após dia, milhares de vezes, em algumas ocasiões à noite e também pela manhã, quando você acordava. No momento em que o lobo dava um assoprão para derrumar as casas de palha e de madeira, eu enchia o peito de ar e dava o mesmo assopro em sua direção, com você disparando a rir. Também havia encenação do lobo caindo no caldeirão de água fervente preparado pelos porquinhos e de uma canção entoada por eles no final, quando cantávamos juntos. 
     Tenho saudade daquelas noites e daquelas manhãs.
     Acabei comprando o livrinho para lhe dar quando eu for ao Brasil, agora para que ele o ajude em seus estudos de inglês na escola. Será que meu rapazinho, às vésperas de completar nove anos, ainda se interessará por essas histórias de menino pequenininho?

domingo, 26 de janeiro de 2014

Outro menino de Dostoiévski


     Nesta tarde chuvosa de domingo, tenho passado o dia em casa. Assim, acabo de assistir a uma filmagem de Os Irmãos Karamázov após haver relido a obra-prima de Dostoiévski durante o tempo que passei no Brasil. O filme fez com que eu prestasse mais atenção e me comovesse mais com a história do menino Iliúcha, filho do ex-militar e agora alcoólatra Snieguirióv. Este, chefe de uma família miserável numa Rússia recém-saída da servidão, fora humilhado publicamente por Dimítri Karamázov, mas se recusou a desafiá-lo para um duelo. Após esse episódio, Iliúcha passa a sentir um ódio tão grande por Dimítri que, agravado pelas condições desfavorecidas em que vivia, virá a adoecer e morrer. Antes, porém, ele deseja crescer logo para poder substituir o pai e vingar a ofensa, matando Dimítri num duelo. Além disso, defende a honra de seu pai contra seus colegas de escola, que o insultam, e morde a mão de Aliócha, irmão do agressor de Snieguirióv. Em vez de cultivar vergonha e ressentimento pelo pai, Iliúcha demonstra possuir espírito nobre ao defendê-lo contra todos, em nome da verdade e da justiça. Através desta personagem, Dostoiévski ressalta sua simpatia por aqueles que, mesmo no infortúnio, não perdem o senso de dignidade nem abandonam a prática efetiva da solidariedade. 
     Como essas coisas permanecem fundamentais hoje em dia! Espero que você seja para sempre uma pessoa generosa, que jamais aceite a injustiça e nem barateie seus valores, seus sonhos, suas atitudes. Em linhas muito gerais, essa é a educação que desejo lhe dar.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

São Paulo: a catedral e a cidade

     Hoje tive de resolver alguns problemas nas margens do Tâmisa, próximo da Tate Gallery. Na volta, passei diante da Catedral de São Paulo ou "Saint Paul's Cathedral", com esta cúpula e esta torre. E meu pensamento voou para uma cidade com o mesmo nome. No frio do inverno de uma manhã que começou com muita neblina e foi se tornando clara e ensolarada, pensei em nossa última conversa pelo telefone. Você me disse que gostaria de vir a Londres e estar aqui comigo. Eu lhe disse que o levaria para um passeio de barco pelo rio e outras pequenas grandes aventuras, que seriam muito especiais por serem realizadas em sua companhia, mostrando-lhe tantas coisas bonitas deste lugar, que você veria pela primeira vez. E faria comentários e perguntas surpreendentes, eu sei.
     Daqui a pouco saio correndo para uma aula. Estou entusiasmado por essa proximidade que o telefone que lhe dei no fim do ano tem nos proporcionado. Nunca o abandonei, nunca o abandonarei.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Divagações de uma noite de inverno

     Este é um período de muito frio, muitas aulas na universidade e dias que escurecem muito cedo. É um pouco aborrecido, pois isso é um desestímulo para as atividades ao ar livre, e a vida gira muito em torno da casa e do trabalho. Penso nas semanas que passei no Brasil e sinto falta dos dias ensolarados e da atração exercidas pelas ruas, as praças, os campos de futebol, os parques. Sinto falta muito especialmente de sua companhia nesses lugares.
     Mas não reclamo de nada. Estou bem, tendo bons projetos para 2014 e a expectativa de no final de maio viajar para o Brasil, onde ficarei durante a Copa do Mundo.
     Em meu último dia em São Paulo, antes de retornar à Europa, passei perto de uma loja de instrumentos musicais em Pinheiros, e um cavaquinho na vitrine me chamou a atenção. De imediato imaginei-o a tocá-lo, agora que tem estado próximo do violão. Sendo fã do choro, pensei em "Tico-tico no fubá", "Odeon", "Delicado", grandes composições e tão profundamente brasileiras. Está decidido: quando eu for ao Brasil e quando nos encontrarmos de novo, vou lhe dar um cavaquinho.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Partindo outra vez

     Já estou de malas prontas e partirei nesta noite para São Paulo e depois para Londres. Vamos nos manter em contato via aplicativos de mensagens instantâneas em nossos telefones móveis. Como lhe disse em nosso último contato, desejo que conversemos com vídeo qualquer da desses, para que eu lhe mostre minha casa e também lugares bonitos da cidade onde hoje moro, onde tenho vivido muitas coisas boas e onde meu trabalho é valorizado e respeitado. E você me prometeu me enviar um vídeo com você tocando violão.
     Partir é sempre meio triste. Neste momento mesmo em que escrevo, Pérola, nossa golden retriever, como se soubesse que me ausentarei por muito tempo, está deitada a meus pés após me acompanhar pela casa o dia inteiro. Como manifestação de carinho, ela de vez em quando lambe minha perna. Alguns amigos já me ligaram para se despedir, parentes me visitaram e minha mãe até preparou um almoço diferente e melhor.
     De todo modo, depois de tantas viagens, de viver longe por tanto tempo, já não sofro muito com esses momentos nem tenho com eles uma relação sentimentalista. Simplesmente é preciso partir de novo, e estou pronto para isso.
     Pretendo acompanhar seu desempenho na escola, seus afazeres e seus projetos. Neste ano, com seu novo telefone, vamos ter um contato mais estreito. E vamos ver parte da Copa do Mundo juntos, em meados do ano, momento que aguardo com grande expectativa.
     Desejo que você fique bem, que esteja feliz e viva generosamente.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Do tempo

     Nestes dias em Divinópolis, tenho sofrido um pouco com o excessivo calor do alto verão tropical. Nunca gostei do excesso de calor e sou um dos poucos brasileiros que não gostam de praia, por exemplo. Talvez por mineirice, prefiro a montanha. 
     No último fim de semana, passei pelo relógio de sol às margens do Itapecerica, que realmente marca as horas com precisão. Quando bem pequeno, você gostava de brincar por ali, sentando-se em seu arco.
     O tempo está passando rapidamente, e na semana que vem já terei de partir de volta para a Europa. Dentro de mais alguns dias, retornarei a São Paulo, mas tudo indica que não nos encontraremos mais uma vez antes de minha longa jornada sobre o Atlântico.
     Tenho um sentimento de que 2014 será um ano especial. De minha parte, tenho vários projetos literários, profissionais e de viagens que, se forem bem desenvolvidos, resultarão em realizações interessantes. E passarei dois meses no Brasil, entre meados de maio e meados de julho, por ocasião da Copa do Mundo. Outro importante projeto é assistir a um dos jogos em São Paulo com você, no estádio. Enfim, há toda uma agenda já com uma variada programação.
     O relógio de sol divinopolitano me lembra que o tempo tem sido aqui um tema constante. Especialmente um utópico mas palpável "dia que virá" me faz seguir adiante como o pai que você nunca perdeu, apesar de tudo o que temos passado nos últimos seis ou sete anos.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Da crueldade contra as crianças

    Para mim, há alguns escritores essenciais. Um deles é o russo Dostoiévski, que toca sempre algo de muito profundo na condição humana, mesmo que para isso – ou por isso mesmo – tenha de lançar mão de explorar nosso lado mais cruel e mais sombrio. Me lembro de que, em outra ocasião, escrevi aqui sobre a relação dele com as crianças, reproduzindo uma passagem de seu diário em que o escritor trata da visão de mundo dos pequenos e sua forma ativa de se relacionar com a realidade. O próprio escritor era alguém que costumava, ao andar pelas ruas de São Petersburgo, parar para conversar com os meninos que encontrava pelo caminho.
     Relendo Os Irmãos Karamázov neste período de férias no Brasil e de reencontro com minha biblioteca, me reencontrei hoje com esta reflexão do personagem Ivan Karamázov, que, após contar algumas histórias chocantes, trata da crueldade daqueles que infligem tormentos às crianças:

...é precisamente o lado indefeso dessas criaturas que seduz os torturadores, e a credulidade angelical da criança, que não tem onde se meter nem a quem recorrer, é o que inflama o sangue abjeto do torturador. Em todo homem, é claro, esconde-se uma fera, a fera da cólera, a fera da excitabilidade lasciva com os gritos da vítima supliciada, a fera que desconhece freios, desacorrentada, a fera das doenças, da pobreza e dos fígados adoecidos na devassidão.

    Busquei sempre ter uma postura firme e estabelecer uma noção muito clara de seus limites. Cheguei inclusive a castigá-lo uma vez, em Belo Horizonte, quando desrespeitou uma interdição de não jogar uma série de pedrinhas que cobriam a terra de uma planta no piso do apartamento onde morávamos. Foram cinco minutos trancado em seu quarto. Você devia ter quatro anos na época. Chorou, mas nunca voltou a fazer aquilo. No entanto, jamais me passou pela cabeça a prática de qualquer ato cruel, humilhante ou desumano por causa de qualquer incidente entre nós. Acho até que tenho sido um pai generoso e protetor, apesar de também instigá-lo a correr pequenos riscos.
     Sempre fico muito indignado ao saber de crianças que sofrem violências por parte de adultos cruéis. Esta é uma de minhas preocupações em virtude da distância em que nos mantemos já por longo tempo. Que as garras da besta-fera que habita todo homem jamais o atinjam, pois isso me atingirá de forma muito intensa. Na minha impulsividade, nem sei do que eu mesmo seria capaz de fazer contra o ofensor.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Um Natal e uma praça

     Cheguei a Divinópolis na véspera do Natal. Aí está a Praça da Catedral, na vizinhança da casa de minha mãe. Muitas vezes o levei para brincar neste lugar, que possui toda a atmosfera acolhedora do meio provinciano. Quando você era bem pequeno, gostava de subir escadas, descer rampas correndo, empoleirar-se em árvores, brincar na areia com seu baldinho e sua pá. Eu me mantinha sempre a seu lado, brincando com você e protegendo-o de pequenos perigos.
     Há dois dias, na noite de Natal propriamente, trocamos mensagens pelo telefone. Você me disse que gostaria de estar comigo em Divinópolis, na "casa da Vovó". Eu lhe mandei meu abraço e meus votos de que possamos estar juntos mais vezes e por mais tempo em 2014. Apesar de tudo o que temos perdido, nos últimos tempos tenho estado mais sereno. Sei que nossos laços de afeto nunca foram rompidos e que, dentro de mais alguns anos, quando você for mais independente, passaremos outros Natais juntos, faremos outras viagens juntos, assistiremos a outros jogos juntos e nós mesmos jogaremos juntos. O tempo sempre ajusta as coisas em nossas vidas. Portanto, este impaciente vem tendo, há alguns anos, boas lições de espera e de esperança.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Bola pra frente!

     Reencontrei-o hoje. Almoçamos juntos e passamos a tarde numa longa conversação sobre o que anda acontecendo em nossas vidas. Acabo de lhe enviar algumas fotos que tirei de nós na seção infanto-juvenil da livraria Saraiva, onde ficamos por algum tempo.
     Estes são os presentinhos de Natal que lhe dei: uma fantasia de leão para lutarmos sobre a cama, uma camisa do Galo, uma camisa amarela de mangas compridas (para você jogar futebol em dias frios), um caneco com o tema de bichos da fazenda (para você tomar seu café pela manhã), um desses telefones chamados "inteligentes" (para estarmos em contato através de um programa de envio e recebimento de mensagens instantâneas), o livrinho A Arca de Noé, de Vinicius de Moraes. Desde que retornei para casa, já recebi muitas mensagens suas dizendo que me ama "muuuuuuuuuuuuito". Respondi-lhe à altura e lhe enviei as fotos tiradas hoje.
     O Galo perdeu hoje na semifinal do Mundial Interclubes e não estará na decisão. Mas, como lhe expliquei numa mensagem pelo telefone, a derrota faz parte da vida. Temos de levantar a cabeça e partir para outra.
    Iríamos nos encontrar novamente no sábado, para jogar bola, mas há pouco você me comunicou que isso não será possível, pois vai viajar. Fiquei triste, mas tudo bem. Ao menos agora poderemos estar em contato através da tecnologia moderna. Bola pra frente!

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Um coraçãozinho feliz

     Andando vagamente pelas ruas de São Paulo, me deparei hoje com este coraçãozinho feliz desenhado sobre uma pedra do calçamento de uma rua do Butantã. Houve uma identificação imediata, pois é assim que o meu está se sentindo diante da iminência de encontrá-lo e passar o dia com você. Telefonei-lhe muitas vezes, mas seu celular estava sempre desligado. Liguei para a empregada de sua casa, mas o aparelho dela também estava indisponível. Até que consegui falar com sua ex-babá, que mais uma vez intermediou nosso encontro, que deve acontecer depois de amanhã. Tenho muita coisa para conversar, muitas histórias para lhe contar e muito a ouvir de você.
     No próximo domingo, o Galo deve disputar a final do mundial interclubes contra o Bayern de Munique. Minha intenção era ir para Minas no sábado, mas considero seriamente a possibilidade de ficar em São Paulo até domingo, a fim de que possamos assistir ao jogo juntos. Será algo marcante vermos juntos o Galo sendo campeão mundial. Se é que nos será possível fazer isso. A experiência pregressa não é nada auspiciosa nesse tipo de ocasião.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Outro retorno provisório

     Acabei de chegar a São Paulo, após uma viagem muito longa a partir de Londres, com conexão em Madri. Estou cansado, mas ainda assim fui resolver algumas questões bancárias e também fui visitar a feira de livros da USP. Ainda no aeroporto telefonei para você, mas seu celular estava desligado. Não vejo a hora de reencontrá-lo.
     É sempre uma felicidade estar novamente no Brasil. No caminho do aeroporto para casa, já pude sentir de novo os nossos cheiros, a nossa conversa, o nosso jeito de ser. Saí de uma temperatura de 2°C para quase 30°C. Vi também muitos dos nossos problemas pelo caminho: caos urbano, poluição dos rios, transporte público de péssima qualidade, muitas pessoas vivendo mal.
     No avião, vários de nossos patrícios viajavam com a camisa da Seleção Brasileira como uma espécie de senha para o resto do mundo. De minha parte, apesar de amar o futebol e a Seleção, não sou desses patriotas de Copa do Mundo.
     Mas o que importa é que estou novamente no Brasil, para as festas de fim de ano e principalmente para revê-lo após aguardar por isso durante alguns meses em que minha cabeça não saiu daqui. Espero poder falar com você mais tarde e marcar mais um desses poucos mas intensos encontros que temos tido por ano.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Velhos da minha infância

     Minha infância em Divinópolis foi povoada por velhos, e eu era muito próximo de alguns deles. Me lembro de meu avô materno, que era um homem de forte personalidade, sempre fumando um cigarro de palha e próximo de um fogão a lenha que havia em sua casa. Originário de regiões rurais nas proximidades de São João del Rey, ele encarnava a riqueza da cultura caipira, com todo o seu acervo de histórias, músicas e trejeitos originais. Ainda no campo da cultura caipira, me recordo de Carrico, um velhinho de 1,50m de altura, sempre com seu chapéu na cabeça, fumando um cachimbo. Morava de frente a minha casa, numa ruazinha sem calçamento significativamente chamada de Passa Tempo. Com uma fala arrastada e voz fina, vivia contando, para os meninos da vizinhança, histórias de seus encontros com onças pintadas, lobisomens e sacis.
     Três casas para cima da nossa, vivia uma senhora chamada Maria Vilela. Devia ter perto de 80 anos e não se cuidava muito bem, pois tinha uma aparência de bruxa de contos de fadas, com vestidos remendados, cabelo em desalinho, dentes com falhas, uma grande verruga no nariz e voz rouca. Corria que era feiticeira, e todos temiam seus possíveis poderes sobrenaturais. Vivia com seu filho Zé Vilela, já um quarentão lá pelo começo da década de 1980, de quem me lembro gabando-se para as mulheres de que se parecia com o príncipe Charles!
    D. Deolinda era uma benzedeira a quem minha mãe costumava me mandar sempre que me surgia alguma erupção de pele por passar o dia jogado futebol na rua ou em campinhos de terra, ou em virtude de contatos com sapos e outros bichos não muito limpos. Aparentemente suas benzeduras funcionavam muito bem.
   Havia Nilo da Peroba, um misterioso andarilho, permanentemente cruzando a cidade de um lugar para outro, em silêncio. Era altíssimo, e ninguém nunca ouviu sua voz.
     E havia os velhos que ficavam furiosos quando alguém aludia a seus defeitos físicos ou psicológicos. Boneca era uma senhora que sempre passava pela rua Passa Tempo acompanhada por um séquito de uns trinta cachorros. Se alguém lhe gritava o apelido, ela jogava pedras na direção do atrevido, e seus cachorros disparavam a latir em coro. Mazzaropi, um velho que realmente se parecia com o personagem do cinema, também perdia as estribeiras ao ser chamado pelo apelido, prometendo, aos gritos, capar o ofensor. Venerando e Lúcia eram dois velhos irmãos mudos, que só emitiam sons inarticulados. Possuíam gatos, que eram tratados como filhos, e também ficavam fera se alguém aludia a sua mudez ou assustasse seus vários felinos.
     De minha parte, sempre me senti bem na companhia dos velhos e tenho admirado bastante alguns deles. Ainda vivi um tempo em que envelhecer não era um crime, em que os velhos não eram descartados em asilos ou quartinhos no fundo das casas, mas participavam plenamente da vida comunitária. Minhas duas avós mesmas, que morreram recentemente, ambas com quase cem anos, foram pessoas com vida ativa e voz na família.
     Crescendo num apartamento em São Paulo, frequentando uma escola de professores jovens, transitando o tempo todo por entre uma fauna juvenil, você tem tido pouco contato com pessoas mais velhas. No entanto, sempre que puder, aproxime-se dos velhos. Eles têm sempre um tesouro de lembranças, experiências e episódios imaginários que vale a pena compartilhar. Esse modo adolescente de estar no mundo que está hoje em voga não passa de uma moda que haverá de passar sem deixar muitos vestígios.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Trabalho e sucesso

     Neste fim de ano, por estar tendo de me haver com dois empregos, me sinto meio irritado com a absorção de meu tempo de ler, escrever, ouvir música e praticar esportes. Felizmente entraremos num período de férias, que passarei no Brasil. Estou sentindo falta de você, das pessoas queridas e de nossas coisas.
     Essa dedicação a dois trabalhos vai terminar em breve. Dentro de alguns meses, quando terminar um de meus contratos, não vou renová-lo. Preciso de mais dinheiro por agora e acabei me sujeitando a ficar me desdobrando entre um emprego e outro, uma cidade e outra, em diferentes dias da semana. Sou radicalmente antipático ao atual culto do chamado "sucesso profissional" como parâmetro para a avaliação das pessoas, em especial como aspecto determinante da boa vontade alheia em relação a nós.
     Sempre que vou ao Brasil, sou incensado por alguns amigos me consideram um bem-sucedido por trabalhar em duas universidade importantes da Europa, publicar alguma coisa aqui e ali e ter meu nome em jornais de vez em quando. Não partilho de seu entusiasmo, apesar de saber que tenho tido uma trajetória pouco convencional. Tenho fracassado muito mais que obtido sucesso em meus empreendimentos. E minhas realizações tem sido muito pequenas. Gostaria de realizar algo bem mais significativo, possivelmente no campo da literatura. Se tenho tido algum mérito, este tem sido o da coragem de percorrer um caminho de perspectivas bastante limitadas, buscando seguir minha vocação e fazer com paixão o que gosto de fazer.
     Recentemente assisti, no teatro, a uma montagem da peça The Glass Menagerie, de Tennessee Williams, uma das minhas favoritas em toda dramaturgia mundial. Desde o primeiro contato, me apaixonei pela personagem Laura Wingfield, que passa a vida cuidando de uma coleção de bichos de cristal e cuja existência se realiza através da mais pura poesia.
     Talvez eu esteja escrevendo isto para lhe dizer que não há nada de errado com alguém que escolhe passar a vida criando os filhos, ou viajando pelo mundo, ou tocando um instrumento musical, ou escrevendo poemas. Tenho conhecido pessoas maravilhosas que vivem à margem dos costumes hoje dominantes. Jamais tenha medo de seguir contra a corrente ou de enxergar a vida de um ponto de vista diferente.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Do exotismo



      Gosto de sair em Londres à noite e observar a cidade e as pessoas. A cidade parece ficar ainda mais bonita com as luzes acesas, tantas coisas acontecendo por todo lado e muita vida nas ruas. As pessoas são sempre uma surpresa. As tribos urbanas parecem preferir a noite para se mostrarem. Os mais exóticos, muitas vezes os mais espantosos visuais se mostram por todo lado. Apesar de não ter interesse em fazer nada semelhante no plano da aparência física, tenho simpatia por essas pessoas que confrontam as convenções, o óbvio e o consagrado como “normal” ou “de bom gosto”.
     Na noite de ontem, fui ao National Theatre para assistir a uma montagem da peça Da Manhã à Meia-noite, do expressionista alemão Georg Kaiser. Logo depois, fui ao encontro de alguns amigos num bar à margem sul do Tâmisa, onde fiquei até relativamente tarde. Quando voltava para casa, encontrei muitas daquelas criaturas da noite pelo caminho. Acho curiosa a naturalidade como todos por aqui convivem com elas. Ninguém sequer as olha, só eu, que serei para sempre este mineiro do interior. 
   Dentro de mais alguns anos, você entrará na adolescência. Pode ser que venha a ter alguma atração por algumas bizarrices visuais, apesar de eu achar que isso não deve acontecer com intensidade, pois sua personalidade parece tender a certa seriedade e contensão. Mas a rebeldia natural dessa fase pode até encontrar alguma vazão nesse tipo de atitude. Quero estar lá para ver e acompanhar isso.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Uma referência identitária

Hoje, na universidade, conduzi uma atividade em que meus alunos fizeram uma excelente apresentação sobre Clarice Lispector, centrada no romance A Hora da Estrela e no conto “Laços de família”. Fiquei feliz com o resultado, pois percebi que eles foram tocados pela obra da grande escritora brasileira. Muito se falou na questão da identidade, que é um tema constante de Clarice. Ela mesma, como seus personagens, foi alguém que se perguntou o tempo todo quem era, nunca tendo encontrado resposta satisfatória.
De minha parte, vivendo no exterior e tendo passado por diversos recomeços na vida, sempre preciso encontrar uma ancoragem identitária, me afirmando como brasileiro, homem, pai, filho, professor, escritor, amante da literatura, do teatro e do futebol e tantos outros papéis, tantas outras máscaras que são assumidas às vezes ao longo de um único dia.
Se nesta altura da vida, apesar de meus marcos identitários, não possuo uma identidade monolítica nem estritamente coerente, imagine-se você na exuberância de seus oito anos! De todo modo, como o que somos é algo construído com os outros, quero estar presente em sua vida e ser uma referência para a construção de sua personalidade, inclusive no que se refere a coisas que você haverá de negar e não aceitar.

sábado, 23 de novembro de 2013

Dos seus valores

    Acabo de ler no jornal uma série de números impressionantes relacionados ao suicídio. Por ano, mais de um milhão de pessoas se suicidam em todo o mundo. No Brasil, a despeito de nosso estereótipo de povo otimista e feliz, ocorrem, em média, 25 suicídios por dia. Em nossa família mesma houve um suicídio nos anos 1970, quando eu tinha seis ou sete anos. Desde que esse meu tio por parte de mãe pôs termo à vida, o assunto se tornou um tabu nas conversas entre meus parentes. E na adolescência também perdi assim um amigo, ficando muito chocado por muito tempo após receber a notícia.
     Sem dúvida que a principal causa do número elevado de suicídios no mundo atual é a desvalorização da vida e a desumanização das pessoas em prol da supervalorização das mercadorias, do dinheiro e do chamado "sucesso". Os deserdados desse paraíso do mercado são considerados "fracassados", "vagabundos", "indesejáveis", "gente que não vale nada". Quantas vezes na vida eu mesmo fui considerado assim por certa gentalha pequeno-burguesa que um dia foi próxima de mim e - ainda pior - quantas vezes eu mesmo me senti de fato assim! 
     Se levei algum tempo para entender que não havia nada de errado comigo e que eu apenas possuía valores diferentes, a meu ver mais sólidos, gostaria que você não tivesse de passar pelos conflitos que passei para entender o que hoje entendo. Por coisas assim é que considero muito importante que eu seja sempre próximo de você. 
   Viva sempre sem medo da opinião dos outros. Especialmente não participe dos valores desses eunucos morais da classe média paulistana. Cultive sempre o conhecimento, a amizade de pessoas não convencionais, uma experiência de vida qualificada em que você se arrisque em coisas novas, em relações apaixonadas e vitais. Jamais trate as pessoas como coisas nem acredite que exista alguém que nada valha ou nada tenha a dizer.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Um outono invernal

     Estamos avançados no outono, mas já com temperaturas de inverno. Nos parques e praças, o chão está coberto de folhas que caíram para que as árvores possam se proteger e reservar energia para as épocas mais amenas do ano. Neste momento, faz 3°C lá fora. Ainda bem que passarei um mês no Brasil entre dezembro e janeiro! 
     Já não vejo a hora de reencontrá-lo. Estou sentindo muita saudade de você, a ponto de, noite passada, haver sonhando que o carregava nos ombros pelas ruas enquanto conversávamos sobre diversos assuntos, como costumávamos fazer há alguns anos, quando você era ainda bem pequeno.
     Amanhã é aniversário de minha mãe, sua avó. Telefonarei para casa e lhe darei minhas congratulações. Ela tem sido alguém muito importante em minha vida. Se tenho tido as oportunidades que tenho tido, devo-lhe muito disso. Além da educação para a integridade que me proporcionou, me recordo sempre do quanto ela trabalhou duro - chegando a lavar roupas de famílias de classe média alta e a fazer duras faxinas em suas casas - para que seus filhos pudessem ter um mínimo, pois meu pai andava sempre desempregado no decurso dos anos 1980 e 90. No meu caso, a despeito de tantas privações, pude não ter de começar a trabalhar muito cedo e me dedicar intensamente aos estudos. Se hoje estou aqui, devo isso em boa parte a minha mãe, que sempre se lembra de você e lamenta o longo tempo em que fica sem contato com sua conversação, seu abraço e seu beijo.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Rumo ao fim do ano

     Estou hoje em Cambridge, onde tenho passado as noites de segunda para terça-feira. Me lembro de que meio subitamente faltam pouco mais de três semanas para que eu embarque para o Brasil. Nos dias que passarei em São Paulo, desejo que façamos várias coisas juntos. Gostaria inclusive de lhe dar uma pequena câmera fotográfica que tenho aqui e que possamos sair para um passeio pela área central da cidade, a fim de fotografá-la em todo o esplendor de sua história, todas as suas contradições e sua miséria. Pode ser algo muito interessante com que ambos aprendamos bastante. E muito conversaremos sobre essa experiência.
     Outra coisa que gostaria de fazer com você é assistir ao mundial de clubes, em que o Galo estará presente, sendo provável que faça uma final com o Bayern de Munique, um time poderoso. Inclusive lhe darei outra camisa de nosso time. Espero ainda que possamos também jogar futebol juntos, ambos com a camisa do Galo.
     Enfim, estes são meus pequenos grandes planos para o tempo restrito que teremos para nos encontrar, já que não nos será permitido passar, por exemplo, Natal ou Ano Novo juntos. Mas seremos felizes e faremos nossas festas em dois ou três dias comuns de dezembro.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

No fim de uma aula

    Como  parte  do  curso  de  literatura  brasileira contemporânea que estou conduzindo neste semestre, tenho tratado, nesta semana, de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar. Acabo de chegar a meu escritório, vindo de uma aula em que falei sobre essa obra com brilho nos olhos, pois é um livro inesgotável, que está entre o que de melhor se tem publicado no Brasil, nas últimas décadas. À parte o âmbito estético - o que importa essencialmente - para mim a narrativa de Nassar tem um significado ainda mais forte, pois centra-se na relação de um patriarca autoritário com um filho que se rebelou e fugiu de casa, retornando após algum tempo para presenciar a destruição da família. Ao finalizar minha análise de Lavoura Arcaica em sala de aula, levanto para mim mesmo uma série de questões, algumas delas relacionadas a como não ser pai.
     Meu  próprio  pai  foi  uma  pessoa  distante,  um  homem estranho e pouco afetivo a quem nunca me senti vinculado e a quem nunca compreendi. No entanto, quero algo bem diferente com você. A despeito desta distância obrigatória em que tenho de me manter, quero ser um pai que participe de seu desenvolvimento e de sua formação para a liberdade. Muito especialmente desejo ser um companheiro em quem você confia, com quem possa partilhar seus momentos de felicidade e a quem possa recorrer nos momentos de dificuldade, medo e aflição.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Para não esquecer

     Neste meu último dia em Budapeste, visitei um museu chamado Casa do Terror, que conta a história das muitas infâmias que a Hungria teve de enfrentar ao longo do século XX, praticadas pelos regimes totalitários do nazismo e do comunismo soviético. Apesar de antagônicos politicamente, tais regimes foram parecidíssimos na sua essência e deixaram um legado de horrores que não pode ser esquecido. Por isso, apesar das histórias chocantes que vemos contadas nesses museus, eles são fundamentais e devem ser visitados. Como escreveu George Santayana: "Os que esquecem o passado estão condenados a repeti-lo". 
   Como nossa espécie pôde ser capaz de tanta monstruosidade! Na própria história do Brasil, pontuada por várias ditaduras, a tortura, o assassinato e toda sorte de horrores foram cometidos por fanáticos que se apossaram do Estado e eliminaram toda contestação através do crime. O pior é que não é difícil encontrar imbecis que defendem o autoritarismo como solução para nossos problemas. E ainda pior é não termos até hoje acertado as contas com os fascínoras de nossa última de ditadura, vários ainda vivos e em liberdade.
     Jamais se torne escravo de nenhuma ideologia, seja ela política, religiosa ou de qualquer âmbito. Jamais se fanatize por nada. Muito cuidado com lideranças muito fortes e muito carismáticas. Jamais siga a multidão. Questione sempre seus professores, seus colegas, a mim mesmo. A realidade e a verdade são construções sociais que precisam sempre ser reformuladas. Seja você mesmo, pense por você. Isso não quer dizer que não deva ter nenhuma ideologia. Eu mesmo sou claramente um homem de esquerda, que deseja ver a riqueza que o homem produz ser utilizada para promover a felicidade de todos. No entanto, jamais me identiquei com o jeito grosseiro e acéfalo de ser de esquerda nem jamais vou aceitar que a busca de igualdade seja feita ao custo da liberdade das pessoas, de sua massificação e sua desumanização, como infelizmente ocorreu no que um dia se chamou de "socialismo real".

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Duas surpresas em Budapeste

     Há alguns dias declarei uma paixão súbita por Viena. Não imaginava que pouco tempo depois gostaria ainda mais de Budapeste. Nestes quatro dias que estou passando na Hungria, tenho ficado muito impressionado com a beleza da cidade, sua cultura e sua gente. Espero que você também possa conhecê-la um dia. 
    Agora há pouco saí para jantar num restaurante nas proximidades do hotel onde estou hospedado. Ao entrar no salão onde ficam as mesas, subitamente fui transportado ao Brasil por uma dupla de músicos húngaros que tocam bossa nova a noite inteira. Tocaram (e bem) muito Tom Jobim, muito João Gilberto, muito Carlos Lyra. Cantavam algumas canções em português com sotaque, sem entender o que estavam dizendo, mas com boa pronúncia. Pela primeira vez na vida, ouvi "Garota de Ipanema" numa versão para o húngaro. Foi a minha vez de não entender nada, mas de me divertir com algo tão familiar tornado tão exótico para nós. Quando o garçom soube que eu era brasileiro, foi avisar aos músicos para capricharem. Sem dúvida, a trindade bossa-novista (Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto) fez muito pelo Brasil, que deve a eles uma parte da popularidade de que desfrutamos no exterior.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Uma algazarra

     Andando hoje por uma praça no centro de Viena, me deparei com este grupo de crianças perseguindo e estourando bolas de sabão feitas por uma senhora que transportou para lá todo um equipamento para fazê-las. Aí está uma típica brincadeira que o diverte. Adoro esse júbilo gratuito que se vê expresso no rosto desses meninos e que estaria também no seu, caso estivesse aqui comigo. Felizmente ainda há muita coisa boa que não está na dependência do dinheiro nem das atitudes pragmáticas para se realizarem. A alegria de viver é uma delas.

sábado, 2 de novembro de 2013

Uma paixão à primeira vista pela Áustria

     Depois de uma semana em que estive envolvido com uma variedade de compromissos nas duas instituições em que estou trabalhando, começou hoje para mim uma semana de folga. Assim, resolvi partir para Viena, onde cheguei hoje pela manhã. Estou impressionado com a beleza da cidade e sua efervescência cultural, especialmente no campo da música. Não por acaso, a Áustria é a terra de tantos grandes mestres da música erudita. Uma de minhas primeiras visitas aqui foi ao Hofburgtheater, que fica na área central, próximo ao rio Danúbio. Você que, para minha surpresa e minha alegria, tem revelado grande interesse e aparentemente talento musical, estaria muito bem aqui. 
     Amanhã, que será um domingo com um chuvisco indo e vindo, visitarei o palácio Schönbrunn, que foi a residência de verão dos Habsburgos, família imperial da Áustria dos séculos XIII a XVIII, mas cuja completa dissolução só ocorreu em 1918. Será uma boa aula de história.
     Ainda estarei aqui mais alguns dias. Há ainda muito o que fazer. Somente na quarta-feira partirei para Bratislava, na Eslováquia, numa viagem de barco pelo Danúbio, cujas águas são tema de uma valsa eterna de Strauss. Na quinta pela manhã, irei para Budapeste, cidade pela qual tenho grande interesse.
     Hoje comprei um cartão para lhe enviar. Se não posso tê-lo aqui, ao meu lado, ao menos tentarei partilhar com você um pouco das coisas que tenho encontrado pelo caminho.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Dos sentimentos

     Relendo algumas passagens das coisas que lhe escrevo por aqui, me dou conta de que às vezes o sentimento transborda. Mas não me importa. A esta altura da vida, depois de tudo o que já passei, não tenho nenhum medo de parecer ou mesmo de verdadeiramente ser sentimental. Se num ensaio sobre algum tema literário, escrito em conexão com meu trabalho, tenho de tentar manter certo distanciamento, com você mantenho toda a proximidade possível. Jamais serei contido nem buscarei uma frieza sofisticada quando o assunto for meu filho. Aliás, para ser sincero, não faço isso em nenhuma outra situação. Pertencemos a um povo incandescente de paixão, que costuma viver de paroxismo em paroxismo. Isso tem sido nosso céu e nosso inferno. Mas antes ser assim a representar um refreamento afetado de bom-tom.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Um resfriado

     Um tanto de repente, diante das mudanças do tempo e principalmente pelo fato de pegar metrô bastante cheio todas as manhãs, peguei um forte resfriado que está me chateando muito. Quando chega a noite, as coisas pioram e o mal-estar aumenta. Nessas horas, sinto ainda mais saudade do Brasil, onde estão minha família e meus amigos; onde está você. Quando não nos sentimos bem vivendo no estrangeiro, passamos a ter uma consciência ainda maior de nossa solidão e de nossa precariedade neste mundo. Porém já estou me tratando, e o ciclo do vírus que adquiri haverá de se completar em breve.

domingo, 20 de outubro de 2013

No primeiro dia

     Não me lembro se é de Millôr Fernandes esta frase: "Só há uma coisa mais indefesa que um recém-nascido: um recém-pai". Ela me veio à memória agora há pouco, quando repassava algumas fotografias na tela de meu telefone e vi uma do dia de seu nascimento, tirada por mim. Você está deitado numa balança, em seu primeiro minuto neste mundo, chorando fortemente e se debatendo com braços e pernas. O painel do aparelho mostra 3,625 kg. Me recordo de que, após limparem-no e cobrirem-no com um manto verde, peguei-o no colo, ainda meio sem jeito. 
     Há também uma foto daquele dia em que estou recostado na cama, com você, pequenino, aninhado sobre meu peito. Em geral sou visto como uma pessoa forte (e tenho tido de sê-lo realmente). Mas naquela manhã de domingo ensolarada em Belo Horizonte, num momento crucial de minha vida, com meu bebê ali dormindo sobre mim, eu me sentia tão indefeso quanto você, ou mais. Porém feliz.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Uma reviravolta da vida

     Ontem recebi um telefonema da chefia do Departamento de Espanhol e Português da Universidade de Cambridge, que é uma das melhores e mais prestigiosas do mundo, me convidando para trabalhar lá dois dias na semana. Hoje fui visitar a instituição e me reunir com as pessoas responsáveis pelos Estudos Brasileiros. Assinei um contrato por apenas um ano acadêmico e darei poucas aulas, apenas nas segundas e terças-feiras. De todo modo, jamais imaginei que um dia seria professor em Cambridge.
     Como sempre dormirei por lá de segunda para terça daqui para frente, aproveitarei os fins de tarde para correr às margens desse riacho que passa pelo campus. E sempre nos imaginarei jogando bola por esses amplos espaços abertos, com gramado muito bem cuidado.
     Obviamente estou feliz por estar bem aqui e por ver meu trabalho valorizado e respeitado, ainda mais depois de tudo o que passei no Brasil, muito especialmente entre os anos de 2006 e 2010, quando fui muito achacado, tendo, de quebra, de enfrentar a falta de perspectivas e uma situação financeira muito precária. Mas o pior não foi isso. Eu sabia que me reergueria. O pior foi ter sido obrigado a me manter a distância de você. Esta foi (e ainda tem sido) a minha grande perda.

sábado, 12 de outubro de 2013

Individuum

     Relendo Nietzsche agora há pouco, em Aurora, pensei nas muitas vezes em que o tenho aconselhado a ser você mesmo, a preservar sua individualidade e a jamais fazer parte de qualquer tipo de rebanho humano. No caso, o grande pensador tratava da ideologia do trabalho como algo desumanizador. Escreve ele:

     Na glorificação do “trabalho”, nos infatigáveis discursos sobre a “bênção do trabalho” vejo o mesmo pensamento secreto que nos louvores dirigidos aos atos impessoais e úteis a todos: a saber, o medo de tudo o que é individual. No fundo, sentimos hoje, perante o trabalho – queremos sempre significar com esta palavra o duro labor do nascer ao pôr do sol –, que ele constitui o melhor dos polícias, que segura os homens pelas rédeas e se dedica a entravar poderosamente o desenvolvimento da razão, dos desejos, do gosto da independência. Justamente porque consome uma quantidade extraordinária de energia nervosa e a subtrai à reflexão, à meditação, ao sonho, aos desejos, ao amor e ao ódio, apresenta à vista um objetivo mesquinho e assegura satisfações fáceis e regulares. Assim, uma sociedade em que se trabalha contínua e duramente, terá maior segurança: hoje em dia adora-se a segurança como se fosse a suprema divindade. – E depois! Horror! O próprio “trabalhador” tornou-se perigoso! O mundo formiga de “indivíduos perigosos”! E atrás deles o perigo dos perigos – o individuum!

     Espero vê-lo, ao longo da vida, a se dedicar àquilo de que gosta, honrando seu tempo com aquilo que lhe dá prazer e que faz com amor, mesmo se o que estiver fazendo não for algo muito popular, muito útil nem muito rentável. Que inclusive não abra mão do honorável tempo de não fazer nada. Quase sempre é na lentidão, no silêncio, no intervalo de grandes agitações que as coisas mais significativas da vida acontecem. Portanto, nunca tenha medo de ser uma pessoa autêntica, o indivíduo a que se refere o filósofo.