sexta-feira, 29 de março de 2013

Um debate na televisão

     Na semana passada participei de um debate sobre o amor num programa da televisão inglesa. Éramos eu, que venho da literatura, um professor de filosofia e uma psicóloga. Um apresentador conduzia a discussão, e havia umas trinta pessoas presentes num pequeno auditório no estúdio. Como consequência desse programa, acabei adquirindo uma incômoda popularidade em certos círculos de Londres.
    Qual a razão dessa popularidade? É que, durante o debate, assumi uma postura provocadora e passei a exprimir ideias que foram consideradas um tanto exóticas pelos telespectadores britânicos. Entre outras coisas, num deliberado exagero, fiz apologia da burrice como necessária aos amorosos, relegando a inteligência aos guetos da academia, dos debates políticos, da arte de vanguarda, dos fãs de James Joyce. No amor, quanto menos presunção, quanto menos racionalização, melhor. Citei até Alberto Caeiro:

     Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
     E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
   
   Quando a discussão se encaminhou para o tema dos desassossegos do amor, citei também uma frase de meu amigo Doc, filósofo da Vila Mariana, que em seu prosaísmo costuma dizer: "Amar é um saco!"
   Mas o fato é que, com uma ironia que às vezes descambava para o franco sarcasmo, ataquei a visão idealizada e romântica do amor e bem-humoradamente desloquei-o para fora do centro de nossas vidas. E lembrei o conselho do poeta William Butler Yeats: "Never give all the heart".
     No fim das contas, acredito que não foram minhas ideias que provocaram algum rebuliço já durante o debate, envolvendo os debatedores, o auditório e os espectadores. Afinal, as coisas que eu disse já foram faladas ou escritas por muitos outros antes de mim. Certamente foi a forma como as disse que provocou as reações mais disparatadas. Alguns me consideraram de esquerda, outros de direita; para uns sou um defensor das mulheres, para outros sou um machista; para uns sou moderno, para outros antiquado... Houve quem telefonasse para o estúdio para dizer que minha fala os empolgou e houve quem telefonou para dizer que sou um maluco. A proprietária da casa onde moro disse que sou um atrevido (não sei se me elogiando ou me repreendendo). Sinceramente, é preciso ter muita paciência com o público.
     Nos dias seguintes a essa participação no programa de tv, especialmente na universidade onde trabalho, algumas pessoas comentavam o debate e me apontavam pelos corredores. Ainda bem que essa popularidade superficial de televisão vai passar logo. Em poucos dias, outro assunto assumirá o primeiro plano das conversas fiadas nos lugares que frequento.
     No fim do ano passado, quando passamos o dia juntos, perguntei-lhe jocosamente, enquanto almoçávamos, se você gostava de alguma menina na escola. Com uma inocente seriedade, meu menino me contou que não. Então lhe perguntei se alguma menina gostava de você. A resposta foi que sim, mas que ela é feia demais e que não sairá coelho desse mato.
     Dentro de mais uns dez anos você entrará na vida adulta como um belo latagão. E disseminará paixões em muitos corações femininos. E também se apaixonará. Por essa época, espero estar lá, para também lhe dizer, com Yeats: "Never give all the heart".

segunda-feira, 25 de março de 2013

Uma partida de futebol


     Acabo de chegar do estádio Stamford Bridge, do Chelsea, onde assisti ao jogo Brasil 1x1 Rússia. Infelizmente nossa seleção mais uma vez jogou mal. A Rússia, que tem um time muito bom, dominou o meio de campo e jogou melhor. Merecia até ter vencido.
     Ao estar ali, num estádios mais famosos do mundo, me lembrei de você e desejei que estivesse ao meu lado. Até hoje não tivemos a oportunidade de assistir a um jogo juntos, no estádio. Uma vez isso quase aconteceu, numa partida do Galo contra o Corinthians em São Paulo. Mas na última hora as coisas azedaram e não pude levá-lo. Mas nosso tempo ainda há de chegar.
     Em nossa família, há alguma tradição de bons jogadores. Meu pai foi  um duro zagueiro, eu sou um centroavante goleador e você aparentemente sairá um grande meio-campista. 
     Vai que numa dessas, num desses sonhos de pai, vejo-o nesta cena, completando de cabeça o cruzamento que virá e fazendo o gol da vitória, salvando o orgulho da pátria em chuteiras...

domingo, 24 de março de 2013

Equilibrar-se

     No meio do caminho da vida, transitando sem um guia pela selva escura da existência, venho tentando viver minimamente bem. Claro que me faltam muitas coisas, entre elas a sua presença. Mas vou tentando encontrar e manter meu equilíbrio. 
     Insuflar vida em nossa existência não é tarefa das mais fáceis. Muitas coisas conspiram para nosso enrijecimento. Por causa delas, muitos se acomodam numa mediocridade segura. Outros se autodevoram numa dissolução que pretende ir além de todos os limites. Ou a letargia ou a ira ressentida: dois extremos que nos afastam da vida. Espero que você, que ainda está no começo de sua jornada, saiba encontrar seu equilíbrio a despeito da instabilidade deste mundo, onde nada permanece.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Para sempre São Paulo

     Há alguns dias, escrevi aqui sobre a saudade de Minas. Mas chego em casa hoje e penso em São Paulo, onde você está vivendo desde os seus três anos e onde vivi por dezesseis anos. Aí estão a maioria dos meus amigos. Aí estão lugares onde vivi alguns dos momentos mais importantes de minha vida. Sem dúvida que a Pauliceia é parte fundamental de nossa geografia afetiva.
     Quando digo para meus amigos paulistanos que São Paulo é a melhor cidade do mundo, acham que estou brincando. Mas falo sério. Amar São Paulo é como amar uma mulher chata e neurótica. Temos sempre aborrecimentos com ela, mas também uma relação forte e apaixonada. Nunca perdi a ligação com essa cidade que hoje me habita, essa cidade a que devo tudo o que consegui me tornar.
     Assim que retornar ao Brasil, voltarei para São Paulo e para perto de você. Que nesse momento a vida, que tem sido tão cruel conosco, possa nos proporcionar um tempo mais feliz em que possamos estar juntos e resgatar um pouco de tudo o que temos perdido.
     Mas não vou cultivar melancolia. Estou muito bem aqui, onde tive uma necessária renovação em meus projetos e um arejamento em meu coração. Se aguardo uma felicidade possível num incerto futuro, não estou deixando de viver bem a vida que tenho agora.

domingo, 17 de março de 2013

Um acontecimento

     Nesta úmida manhã de domingo, acordei bem cedinho e, não sei por que, ainda na cama me lembrei de um acontecimento de tirar o fôlego que se deu com nós dois. Se não me engano foi em 2007 ou 2008, durante um tempo extremamente duro da minha vida, em que eu estava deprimido e sem perspectivas. 
     Mas o fato é que você estava comigo em Divinópolis por alguns dias. Frequentemente eu o sentava em meus ombros e saíamos andando meio sem rumo pela cidade, conversando e contemplando as coisas em volta. Me recordo de que tínhamos ido passear pela parte alta do bairro Bom Pastor e estávamos próximos a uma região com poucas casas, alguns córregos e algumas áreas verdes. Foi num momento em que eu vinha carregando-o nos braços. De repente fomos envolvidos por um enorme enxame de abelhas que deviam estar migrando de um lugar para outro. Em meio à nuvem daqueles perigosos insetos, podia-se ouvir um alto zumbido produzido por seu conjunto. Fiquei em estado de tensão ante a possibilidade de sermos atacados, mas procurei manter a calma e não fazer nenhum movimento brusco. Lentamente coloquei-o debaixo de minha camiseta, abracei-o com firmeza e procurei seguir nosso caminho com a naturalidade possível, preparado para nos jogar ao chão e me deitar sobre você, caso as abelhas atacassem. No entanto, após dois ou três minutos atravessando o enxame, saímos dele incólumes e retornamos para casa. Para não assustar minha mãe, que sempre achou que eu costumava lhe propor desafios ousados demais e meio malucos, não contei nem para ela nem para ninguém o que havíamos passado.
     Pouco depois você retornou não me lembro se para Belo Horizonte, se para São Paulo. Eu fiquei em Divinópolis resolvendo minha crise, que envolveu aspectos existenciais, econômicos e de redirecionamento no futuro.
     Ao me lembrar hoje dessa história, penso na fragilidade da vida e na inconsistência de nossas coisas. Aquele acontecimento fortuito, uma simples manifestação da natureza - "nossa mãe e nossa inimiga", conforme Machado de Assis -, poderia ter nos tirado tudo.

sábado, 16 de março de 2013

Viagens

     Acabo de ouvir, pela rádio CBN, uma entrevista com um casal de São Paulo que está viajando de carro pelo Brasil e também pelos países vizinhos com sua filha de três anos, para mostrar a ela um pouco deste mundo. A viagem vai durar três meses. Ela está exultante por conhecer tantas coisas novas a cada dia - pessoas, paisagens, bichos, praias, cidades, línguas, culturas diversas.
     Sempre sonhei em fazer algo semelhante para você e com você. Infelizmente só pudemos viver juntos por pouco tempo, tendo eu ainda passado por dificuldades que nos impediram de realizar algo assim. Depois de nossa segregação, a vida deu suas voltas. Hoje tenho viajado por muitos lugares e tenho encontrado a beleza em vários deles. Apesar de realmente aproveitar bem minhas viagens e de aprender bastante com elas, sempre penso em você num quarto de hotel num país distante, diante de uma paisagem de cartão postal, ao provar uma comida diferente ou por ocasião de um acontecimento pitoresco. Se você estivesse comigo, nos divertiríamos juntos e conversaríamos bastante. Eu ouviria suas impressões e lhe explicaria o funcionamento das coisas. Mas a vida ainda haverá de dar outras voltas. Dentro de mais alguns anos, quando você for mais independente, este mundo ainda estará por aí, e será uma grande felicidade poder explorá-lo a seu lado.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Saudade de Minas


     Sinto sempre muita falta de Minas e, após tantos anos vivendo longe de lá, me percebo como sendo cada vez mais mineiro. Isso transparece nos meus valores fortes, na minha fala cadenciada e até na minha casmurrice. Num dos últimos poemas de Carlos Drummond de Andrade, "A ilusão do migrante", ele definiu muito bem esse sentimento de trazer Minas para sempre dentro da gente. Lembro-me bem desta estrofe:

     Os morros, empalidecidos
     no entrecerrar-se da tarde,
     pareciam me dizer
     que não se pode voltar,
     porque tudo é consequência
     de um certo nascer ali.

     Desejo que você nunca perca a ligação com sua terra e sua cultura, já que, nascido em Belo Horizonte e frequentador assíduo de Divinópolis durante sua primeira infância, está agora sendo criado em São Paulo e sendo preparado para se tornar uma pessoa cosmopolita, metropolitana e aderente aos valores modernos.
     Aí está uma charge que reatualiza o folclore em torno do mineiro na cultura brasileira. Nele o nosso conterrâneo sempre parece sonso e simplório, fazendo inclusive uso de uma linguagem acaipirada, mas é sempre muito sagaz, deixando os nativos de outros estados, especialmente o paulista, em muito maus lençóis.
     E há as frases sobre mineiros. "O mineiro não perde o trem", "O mineiro trabalha em silêncio", "O mineiro não dá ponto sem nó". Para Guimarães Rosa, "ele escorrega para cima". Para Fernando Sabino ele é "manhoso, ladino, cauteloso, desconfiado - prudência e capitalização". Para Otto Lara Resende, o mineiro não tem cautela, tem "pré-cautela". Nelson Rodrigues atribui ao mesmo Otto Lara uma famosa e terrível frase dostoievskiana: "O mineiro só é solidário no câncer". Manuel Bandeira, numa crônica, chamou a atenção para a força de nosso humor: "O mineiro sonso será o nosso grande humorista: na massa anônima da população de Minas Gerais, tenho certeza, existe em potencial a força de um Swift". E atribui-se a um mau governador de Minas outra boa frase: "Mineiro não briga, mas também não perdoa". Até Machado de Assis, em Quincas Borba, ao caracterizar seu protagonista, escreveu: "Certo é que o nosso Rubião, singelo como um bom mineiro, mas desconfiado como um paulista, ia cheio de cuidados, pensando em retirar-se quanto antes"...
     Enfim, espero que Minas para sempre habite o seu coração, onde quer que você esteja. E que nunca deixe de andar por lá, de ver aquelas montanhas e respirar daquele ar, de comer daquela comida, de torcer pelo Galo, de ter aquele jeito de lidar com as pessoas. E já que nos recordamos de tantas frases, aí vai, para terminar, um verso da canção "Para Lennon e McCartney", de Fernando Brant, Márcio e Lô Borges, que talvez resuma tudo isso: "Sou do mundo, sou Minas Gerais".

sábado, 9 de março de 2013

Duas infâncias

   Nesta noite fria de sábado, estou trabalhando no computador, pois é época de exames na universidade onde dou aulas e tenho muitas coisas a fazer em casa. Enquanto isso, vou ouvindo música brasileira. De repente começa a tocar "Bola de meia, bola de gude", de 14 Bis. Imediatamente meu pensamento viaja até você, até Minas, até os anos 1970:

     Há um menino, há um moleque, 
     morando sempre no meu coração
     Toda vez que o adulto balança 
     ele vem pra me dar a mão
     (...)
     Ele fala de coisas bonitas que eu acredito 
     que não deixarão de existir
     Amizade, palavra, respeito, 
     caráter, bondade, alegria e amor
    
     Este adulto que tantas vezes tem balançado, apesar de sua reputação de força e independência, muitas vezes tem dado a mão ao menino que ele foi: um menino pobre que ainda chegou a jogar futebol descalço com bola de meia em campinhos de terra batida onde também jogava bola de gude.
   Hoje sua infância é bastante diferente da que tive, possuindo coisas melhores e coisas piores. Sua condição econômica é muito melhor do que a que tive quando criança. Isso me dá alguma tranquilidade, pois sei o quanto é revoltante passar falta de coisas básicas. De todo modo, os desafios e acidentes de nossa existência nos ensinam a ser flexíveis e criativos. Espero que você, que enfrenta dificuldades de outra ordem, jamais venha a perder, no turbilhão da vida, aquelas "coisas bonitas", que hoje tem de sobra.

segunda-feira, 4 de março de 2013

"Papai é mágico!"

     Nesta noite sonhei que estava fazendo mágicas para você. Agora, nesta manhã de segunda-feira, me levanto e fico pensando no tempo em que eu realmente fazia mágicas quando você ia para minha casa em São Paulo. Comprei alguns apetrechos e li um livro que ensinava alguns truques com cartas e pequenas coisas escondidas nas mangas do paletó ou atrás da orelha. Me recordo de seu olhar fascinado para aquele espetáculo inocente. E me lembro de você na rua, ao encontrar outros meninos ou mesmo pessoas adultas, dizendo: "Papai é mágico!".
     Se aquelas mentiras lúdicas serviram para estimular sua imaginação e para ver este mundo para além da forma convencional, elas valeram a pena.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Paisagens rurais


     Gosto desta foto que tirei no interior da Inglaterra em meados do ano passado. Trata-se de uma região rural próxima da cidade de Salisbury e das conhecidas pedras de Stonehenge. Não sei por que, olhando para esta imagem, me lembrei das áreas rurais do interior de Minas, de onde vieram meus pais. Em algumas poucas ocasiões, tive a oportunidade de estar junto com você nesses amplos espaços pouco povoados e mais próximos da natureza. Foi muito bom carregá-lo nos ombros e seguir pelas trilhas rurais conversando com você ou sentar a seu lado na beira de um riacho, onde você gostava de jogar pedras para ver a água saltar. 
     Durante alguns anos cheguei a acalentar a ideia de um dia adquirir um sítio, para onde iríamos nas férias e nos fins de semana. Seria uma alegria poder correr com você pelas campinas, ter cachorros, gatos, passarinhos, patos, galinhas, cavalo, vacas e talvez até algum macaco de estimação. E ao menos alguns pés de jabuticaba, um córrego que passasse por perto, uma horta. Possivelmente a cultura caipira, que respeito muito e que hoje está quase morta, seja ainda muito forte em mim e eu tenha nostalgia de um lugar como esse, que nunca possuí e onde não muitas vezes estive de fato, pois desde o nascimento tenho vivido na cidade.
     Hoje, tendo a vida tomado rumos tão inesperados e estando apartado de você, nem penso mais em ter um lugar alternativo no campo. De todo modo, às vezes minha ancestralidade e a memória das coisas boas vividas por lá fazem com que ele esteja presente em minha vida.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Outra educação


     Acabo de retornar de Atenas, onde fui falar sobre a tragédia grega, uma das mais extraordinárias criações da cultura ocidental. Aproveitei para ficar mais três dias e passear pela cidade. Foi uma bela experiência e um encontro direto com algumas maravilhas da brilhante civilização que se desenvolveu ali, muito especialmente nos séculos V e IV a.C.
     Aí está uma escultura em bronze do Museu Arqueológico que mostra um menino cavalgando um animal em rápido galope. As crianças recebiam, então, uma educação muito diferente da que recebem os meninos de hoje, preparando-se para se tornarem guerreiros e cidadãos verdadeiramente participativos. 
     Desejo que sua educação seja, em parte, como a deles. Espero que, ao lado do estudo das letras e das ciências, você pratique esportes e se exercite nas artes, que discuta os problemas do nosso tempo e defenda as causas humanistas e o bem geral, que aprenda a amar o Brasil e a nunca aceitar as injustiças de nossa sociedade, contrapondo-se a elas e enfrentando os injustos, que se exercite na solidariedade e na generosidade também. E, em meio a tudo isso, que salvaguarde sua personalidade própria e sua individualidade. Não seja jamais um homem-massa e nunca pense automaticamente com nenhum grupo.
     Claro que tudo isso não é fácil e deve ser uma prática e um esforço cotidiano e para toda a vida, ainda mais num mundo em que imperam tamanhas tentações para a banalidade, o entretenimento vazio e o consumismo vulgar. Mas fazer frente a esse desafio talvez seja a mais ampla forma de heroísmo do nosso tempo.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Troca de dentes

     Ontem, numa aula sobre temas da cultura brasileira, tratei das festas juninas, e o assunto acabou desaguando nas simpatias. Entre outras que mencionei como exemplo, me lembrei de uma que trouxe de imediato sua imagem a minha mente, tal como o vi na última vez em que nos encontramos. Você está trocando os dentes e sua boca está cheia de janelinhas. Vi que os dentes novos e definitivos estão nascendo saudáveis e fortes. Tal como os meus, os seus incisivos possuem serrinhas.
     Mas, voltando às simpatias, me recordo de uma que minha mãe me punha a fazer sempre que algum dente de leite caía. Era preciso jogá-lo sobre o teto da casa e dizer:

     Leão, leão
     Leva este dente ruim 
     E traz outro bão!

     Tinha de ser "bão" para rimar com "leão". Além do mais, estávamos no interior de Minas. Menino de sete anos, eu não tinha nem força suficiente para conseguir facilmente jogar o dente sobre a casa, e várias tentativas tinham de ser feitas até conseguir, sempre falando esses versinhos antes da nova tentativa. Deve ter funcionado, pois sempre tive, de fato, dentes muito bons, que nunca me causaram problemas.
     Eu desejaria muito estar a seu lado neste momento e repetir esta simpatia, que certamente seria vista por você de forma encantada e mágica, tal como aconteceu comigo quando eu tinha a sua idade. E essas coisas, tal como aconteceu comigo, iriam fertilizar a sua imaginação.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Seu aniversário

     Acordei bem cedinho hoje e me lembrei de que é o dia de seu aniversário. 8 anos! Rapidamente você cresceu e se tornou um rapazinho inteligente e pleno de vivacidade, mas esse tempo tem passado muito lentamente após você ter sido apartado de mim.
     Me lembro em detalhes do dia em que nasceu, em 2005, um domingo de sol radiante em Belo Horizonte. Desde o começo da semana, houve toda uma preparação para recebê-lo. E na sala de parto, por não compreender bem o que se passava e ficar num canto enquanto o médico e seus auxiliares metiam mãos à obra, fiquei muito apreensivo e um tanto perdido em minha ansiedade. Até que você nasceu chorando fortemente. Pesava 3,625 kg. Peguei-o no colo ainda meio sem jeito, antes de você ir para uma sala com outros bebês nascidos no mesmo dia, para ficar em observação. Muitas vezes cheguei até o vidro para contemplá-lo. Quando estava no quarto, via-o por um circuito interno de tv, enquanto se revirava e se debatia. De imediato seus grandes olhos negros chamaram a atenção de todos. Até que chegou o momento de você vir para o quarto. Foi uma felicidade tê-lo no colo ou, ainda bem pequeno, dormindo sobre o meu peito.
     Neste dia de tanta importância na sua e na minha vida, gostaria de lhe desejar que consiga atravessar a vida com garra, que possua sensibilidade e força para superar suas dificuldades, além de capacidade de reorganização para seguir em frente diante dos seus fracassos, que a crueza com que inevitavelmente temos de nos defrontar não mate a alegria que irradia de seus olhos e o bom humor que é parte de seu espírito.
   

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Caju


    Tenho agora um novo cachorro. Este belo golden retriever, que é um excelente nadador, é Caju, de onze meses, que me foi oferecido por seus ex-donos ao se mudarem de uma fazenda para a cidade.
     Gostaria que você, que está sendo criado numa cidade como São Paulo, aprendesse a amar os animais e a protegê-los. Por ocasião de suas estadias na casa de minha mãe, sua pouca familiaridade com os bichos fez com sempre se mostrasse com medo de Pérola, a golden de minha irmã, que é o cachorro mais dócil que já conheci. Espero que ainda possamos, nós dois, correr pelos parques com Caju e jogar bolas ou galhos de árvores sobre os lagos, para que ele vá buscá-los.
     Dentro de mais algumas semanas, começará a primavera, e o tempo ficará melhor em Londres. Muitas flores se abrirão numa explosão de cores e cheiros. A cidade fica lindíssima e muita gente vai para os parques. Sei que vou desejar tê-lo ao meu lado e vou nos imaginar disputando corridas de 50m, soprando dentes-de-leão, jogando pedras sobre as águas, experimentando o mundo sem pressa e sem compromissos.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Da escola primária


     No fim do ano passado, num dos dias em que estive em Divinópolis, passei diante do prédio da Escola Estadual Jovelino Rabelo, onde fiz os quatro primeiros anos dos estudos primários. O prédio continua muito parecido com o que era nos anos 1970, quando fui aluno da severíssima D. Vitória, que, à parte o excessivo rigor de disciplinadora, era ótima professora.
     Quanto à escola Jovelino Rabelo, cujo homenageado não foi nosso parente, era (e ainda é) uma escola de meninos pobres onde aprendi coisas fundamentais. No meu tempo, a alfabetização ainda era feita com o uso de certa Cartilha Sodré, que vinha de gerações anteriores, dos anos 50 e 60. Mas era bem feita. Naquele tempo fiz muitos bons amigos, que foram se perdendo no turbilhão da vida. Me lembro de correrias, risos, brigas e futebol no pátio escolar. E me lembro de uma grande pedreira nos fundos da escola, onde os alunos subiam em suas brincadeiras e em sua curiosidade pelas lagartixas que lá habitavam. Dessa época me recordo ainda de uma festa junina em que me vestiram de caipira para dançar uma quadrilha. Muito tímido, me senti ridículo ao ir pelas ruas, de casa para a escola, naqueles trajes, com aquele falso bigodinho, aquela falsa falha nos dentes, aquela camisa xadrez avermelhada, a calça remendada atrás e uma botina velha...
     Hoje você está no segundo ano primário, estudando em uma boa escola particular de meninos da classe média paulistana. Vi que está escrevendo muito bem e que tem um excelente nível de linguagem. Minha única preocupação é a possibilidade de você vir a partilhar da mentalidade miserável - direitista e reacionária - da maioria esmagadora dos pais de seus colegas. Sei que é grande a possibilidade de os valores dessa corja lhe estarem sendo transmitidos. Também por isso quero estar próximo de você, acompanhar o que faz e discutir o que pensa.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Um longo intervalo

     Há algumas semanas não lhe escrevo pelo fato de o acesso à administração do blog de repente me ter sido negado, em virtude algum problema com o login e a senha. Mas, felizmente, após fazer muitos contatos com os administradores desta rede de blogs, recuperei a prerrogativa de fazer novas postagens neste espaço. É uma alegria poder voltar a lhe falar do que se passa em nossas vidas. Para mim, isso é uma forma de resgatar a paternidade e vivenciá-la da maneira possível nas circunstâncias em que estamos.
     Já faz quase um mês que estou de volta à Inglaterra. Neste período, telefonei muitas vezes para o número do celular que lhe dei no final do ano passado, mas ele está sempre desligado. Imagino que  isso aconteceu por uma ação deliberada, para que eu não consiga me comunicar com você. Mas vamos seguir a vida e esperar a nossa vez.
     Neste semestre, tenho trabalhado muito, mas tenho me sentido renovado e reencantado depois do encontro que tivemos em São Paulo. Tenho muitos planos para este ano e um pressentimento de que ele será muito rico em experiências pessoais e muito produtivo no meu trabalho.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Paisagem do meu quintal


     Este foi mais um dia de neve. No meio da tarde ela parou, e as árvores no quintal de casa ficaram assim. Teoricamente esse frio e a escuridão que ele traz para a maior parte do dia intensificam a solidão de quem está longe de casa e longe daqueles a quem ama. No meu caso, não me sinto só, pois trago comigo a lembrança de tantas coisas boas vivenciadas com você, minha família e meus amigos. Estou aqui de passagem. Dentro de mais algum tempo, estarei de volta ao Brasil. Você estará crescido e mais independente, e isso será fundamental para que voltemos a ficar juntos. Portanto, estou bem e estou me divertindo neste frio intenso.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Pedagogo


Li hoje que a palavra “pedagogo” se referia, na Grécia antiga, ao escravo que conduzia as crianças aristocráticas até a escola. Tal escravo ia explicando para o menino o que se via pelo caminho, e este aprendia, no trânsito para a instituição, como funcionava a cidade, como as pessoas se comportavam, como se estabeleciam as relações de poder e tudo o mais. No pouco tempo em que vivemos juntos, ao colocá-lo  em meu ombro e sair caminhando com você pelas ruas da cidade, seja em Belo Horizonte, seja em Divinópolis, seja em São Paulo, também fui, para você, uma espécie de pedagogo à maneira grega. 
Na última vez que nos encontramos, há pouco mais de um mês, embora você esteja grande e pesado, não resisti a colocá-lo em meus ombros e fazer uma curta caminhada assim, conversando sobre os assuntos mais diversos.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Do calor para o frio


     Retornei a Londres há apenas três dias, após ter passado cinco semanas de muito calor no Brasil. Passei abruptamente de 32°C para -5°C. Incluindo este fim de semana, teremos aqui quatro dias seguidos de uma neve fininha caindo constantemente. Agora há pouco dei um passeio pelo parque que fica perto de minha casa. Alguns meninos tinham acabado de fazer este homem de neve. Outros guerreavam com o gelo. Pais puxavam trenós com seus filhos. Cachorros corriam e rolavam pelo chão gelado.
     Gostaria que você estivesse ali comigo. 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Dostoiévski e as crianças

     Lendo  hoje  o  Diário  de  um  Escritor,  de  Dostoiévski, duas passagens me chamaram muito a atenção e me fizeram pensar em você. Tenho muitas afinidades com as ideias do grande escritor russo acerca das crianças e do modo de se relacionar com elas. Desde que você era ainda muito pequeno, sempre o tratei como uma pessoa inteligente e capaz, sempre ouvi o que você pensava e tinha a dizer, sempre aprendi muito com a forma que você tem de ver o mundo.
     Em  fevereiro  de  1876,  escreveu  Dostoiévski:  "Não devemos ser arrogantes com as crianças, somos piores que elas. E se lhes ensinamos alguma coisa a fim de torná-las melhores, elas também nos ensinam muito e também nos tornam melhores já com o simples contato com elas. Elas humanizam a nossa alma com seu simples aparecimento entre nós".
     Pouco  tempo  depois,  em  maio  do  mesmo  ano,  ele escreve: "Uma criança de cinco, seis anos às vezes sabe mais a respeito de Deus ou do bem e do mal coisas tão surpreendentes e de uma profundidade tão inesperada que você conclui involuntariamente que a natureza dotou essa criança de certos recursos de aquisição de conhecimentos que nós não só desconhecemos, mas, com base na pedagogia, deveríamos quase refutar... ela possivelmente sabe sobre Deus tanto quanto você e talvez bem mais que você sobre o bem e o mal, sobre o que é vergonhoso ou lisonjeiro".
     São  profundas  reflexões  que  vão  de  encontro  ao senso comum, que pensa a criança como uma espécie de idiota a ser tutelado e controlado o tempo todo, apenas um imaturo a quem só se ensina as coisas e de quem nada se aprende. Para mim, que tive a sorte de ter um filho inteligente e sensível como você, as palavras de Dostoiévski são uma realidade muito palpável. Apenas espero que a mediocridade e a ganância das pessoas nunca matem a poesia, a verdade e a eternidade que hoje pulsam em você e que hoje brilham em seus olhos.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Uma longa jornada

     Acabo de chegar de volta a Londres, após ter ficado por cinco semanas no Brasil. Nesse período, lamentei muito haver perdido a senha do blog, em virtude de uma formatação da memória do computador. Com isso, não pude lhe escrever durante as últimas quatro semanas.
     Estou cansado de uma longa viagem com conexão em Madri, onde cheguei bem cedinho e onde esperei outro avião por mais de duas horas. E estou com o sono e a fome desregulados, por não dormi nem um minuto e comi completamente fora dos horários a que estou acostumado. Comida de avião!
     Viajei para São Paulo no fim de semana apenas para jogar futebol na USP com meus amigos, no domingo. No entanto, após driblar dois e tentar um chute forte de longe, de pé esquerdo, chutei o chão e me machuquei de forma relativamente grave. Tive de sair do jogo de imediato e passei o resto do dia mancando e com muitas dores. Ainda estou mancando e cheguei a pensar que poderia ter quebrado algum ossinho do pé. Mas já estou tomando remédio e me tratando.
     Durante todo o tempo que passei no Brasil, fez um calor tremendo, com grande sensação de abafamento. Foi a conta de chegar a Londres para adentrar num frio terrível. Há pouco saí para ir ao supermercado e vi que todos soltam fumaça pela boca ao falar e ao  respirar. E todos estão muito encapotados. Há sinais de que nevou por estes dias.
     Amanhã mesmo já recomeço os meus cursos no King's College. Pretendo trabalhar bem e estou confiante nas potencialidades deste ano. Há inclusive a possibilidade de eu passar a dar aula de Literatura Brasileira na Universidade de Cambridge, que é a melhor da Inglaterra, caso eu seja bem sucedido num concurso que ocorrerá em breve.
     Nas vésperas de embarcar para cá, alguns amigos me perguntaram se eu estava triste ou alegre por mais uma vez sair do Brasil e ir para o exterior. Respondi-lhes que não estou triste nem alegre, que foi uma felicidade estar no Brasil, mas que também será bom estar na Inglaterra, pois tenho bons projetos para 2013, em Londres, e já estou envolvido neles. E é muito provável que eu vá ao Brasil em maio, não passando todo um ano tão longe de casa.
     Se me perguntassem qual for o melhor momento de minhas férias no Brasil, eu diria que foi a alegria de reencontrá-lo. Pena que pudemos estar juntos para apenas algumas horas, no dia 13 de dezembro. Mas aquelas foram horas intensas e eternas. 
     No decorrer de 2013, em todos os momentos, estarei pensando em você, imaginando o que você está fazendo e como se lembrará de mim. Em todos os seus momentos, portanto, seu pai estará a seu lado e do seu lado.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Uma tarde, um reencontro

     Cheguei há pouco da região sul de São Paulo, próximo de sua casa, onde fui encontrá-lo. Angustiado com o atraso de 20 minutos da babá que veio trazê-lo, fiquei pensando no que aconteceria quando nos víssemos após dois anos inteiros distantes. Quando chegou, eu, que pensava não ter mais lágrimas após ter passado por tantas coisas atrozes, simplesmente o abracei e ficamos ali por alguns minutos, sem falar nada, apenas chorando.
     Tenho buscado não ter uma atitude sentimental diante da vida, que é muito cruenta e indiferente a nossos dramas. Mas simplesmente não contive minha emoção ao revê-lo. Só eu sei o que tenho passado após ter sido exilado de você, de haverem buscado reduzir judicialmente meu papel de pai ao de um idiota a lhe entreter a cada dois fins de semana, a ser servo de um procedimento da burocracia mais burra. Só eu sei o quanto penso em você. Só eu sei da angústia que sinto por não saber o que você tem feito, o que tem pensado, se tem valorizado coisas que estão muito além da banalidade pequeno-burguesa.
     Me surpreendi com sua altura e com as janelinhas nos seus dentes. Os novos, que estão nascendo, são de serrinhas, como os meus. Você disse haver se surpreendido com meu cabelo, que está bem curto. 
     Entreguei-lhe os presentinhos que trouxe da Inglaterra e recebi dois de seus presentes, preparados na escola para o Dia dos Pais e guardados até que nos encontrássemos.
     Fiquei sabendo que você está jogando futebol. Vi até duas medalhas de campeão que me deixaram orgulhoso. Outra surpresa foi saber que você tem jogado de lateral direito. Eu gostaria de vê-lo como atacante ou meio-campo. Mas tudo bem. Sou centroavante, mas meu pai, seu avô, era zagueiro. Apesar de jogar na defesa, fiquei sabendo que você faz muitos gols e que é excelente cobrador de pênaltis. Também gostei de ouvir suas opiniões firmes sobre os melhores jogadores do mundo. Você me contou que Messi é o melhor jogador, mas que gosta mais de Ronaldinho. Eu, que gosto dos dois, vi que estava diante de um já profundo conhecedor do beautiful game.
     Almoçamos juntos e, após brincarmos de joguinhos numa loja de eletrônicos de alta tecnologia, fomos ver um filme em 3D, A Origem dos Guardiões. Essas foram, para mim, experiências novas, pois não estou acostumado a esse tipo de entretenimento. 


     Por fim, antes que sua babá viesse buscá-lo, nos sentamos numa mesa para tomar um refrigerante neste de dia de forte calor, bem como para continuar a conversar sobre nossas vidas. Contei-lhe muitas coisas da Europa, e lembramos muitas coisas de alguns anos atrás. Ouvi suas histórias da escola e sua declaração de que sente muita falta de mim.
     Ao retornar para casa, enquanto enfrentava o caos paulistano de fim de tarde, atravessei um pedaço da cidade com um aperto no coração, pois sei que demoraremos muito tempo até nos encontrarmos de novo. E fui acossado por um forte sentimento de raiva, uma revolta que remexe minha cabeça e me faz pensar na violência dessa situação e na violência que um dia estive prestes a cometer. Mas felizmente me restabeleci e segui minha vida com dignidade. Será que a vida, ou Deus, ou o Diabo, ou o câncer, o que quer que seja, um dia punirão essa harpia?

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Um reencontro necessário


     Aí está uma típica paisagem paulistana, localizada no caminho do centro da cidade para minha casa, na zona oeste.
     Cheguei a São Paulo há dois dias, tendo saído de um frio de 3°C em Londres - com um céu cinzento e neve na semana passada - para um calor de mais de 30°C e um sol glorioso. Depois de passar um ano inteiro longe do Brasil, estou emocionado por reencontrar nossa gente e nossas coisas. E revoltado ao reencontrar alguns de nossos graves problemas também.
     Depois de muito esforço e muitos telefonemas para sua atual babá e para uma de suas ex-babás, consegui fazer com que nos encontremos na próxima quinta-feira. Estou ansioso por esse encontro, que não acontece há muito tempo e vem sendo muito aguardado. Quero lhe contar de minha vida e ouvir da sua. Escrevi-lhe uma cartinha, que deixarei para você juntamente com seus presentinhos. E desta vez vou lhe dar também um telefone celular, para que me ligue toda vez que desejar falar comigo, caso não o impeçam de fazer isso. Imediatamente eu retornarei a ligação e conversaremos tudo o que desejarmos. Veremos se isso vai realmente ocorrer.
     Estou feliz por estar prestes a revê-lo, por estar no Brasil, por poder me realimentar de nossa seiva mestiça. Você não tem ideia do quanto eu precisava disso!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Uma volta

     Estou às vésperas de viajar para o Brasil após um ano inteiro distante. Não vejo a hora de encontrá-lo e conversar longamente com você, saber o que tem feito e como está sua vida, ao mesmo tempo em que lhe contarei sobre muitas coisas interessantes que tenho feito. Meu coração baterá mais forte quando o avião se aproximar do aeroporto de Guarulhos, e eu vir nosso relevo lá de cima. É sempre bom retornar ao país de Garrincha e Carmen Miranda, de Machado de Assis e Macunaíma, de Santos Dumont e Aleijadinho. Sei que não vai ser fácil voltar para cá em meados de janeiro, mas assim é a vida.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Pequeno cavaleiro

     Trabalho perto de Trafalgar Square, onde fica esta escultura de um menino em seu cavalinho de pau. Sempre que passo por lá, olho para ela e penso em você. Uma vez lhe dei um parecido com este, quando vivíamos em Belo Horizonte. E muitas vezes o segurei, enquanto seu fogoso corcel galopava. Sinto saudade dessa inocência e dessas suas pequenas grandes aventuras. Será que você ainda galopa sobre cavalinhos de pau?

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Amarelos do outono

     É outono em Londres, e as folhas das árvores mudaram para várias tonalidades de amarelo e vermelho. O frio já está forte, ao menos para os padrões de um brasileiro, e tudo vai se preparando para a chegada do inverno. Ontem passeei por um parque vizinho de minha casa, o Tooting Bec Commom, onde muitas árvores trazem este amarelo vivo que Van Gogh pintaria. É belo. Porém já não vejo a hora de chegar ao Brasil após um ano inteiro a distância, me ausentando do inverno europeu durante um mês. Principalmente, preciso revê-lo e abraçá-lo, pois a saudade está me dando um aperto no coração.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Escrever é resistir

    Estive hoje na casa de Anne Frank, no centro de Amsterdã. Durante alguns anos, por ocasião da ocupação nazista, ela, sua família e alguns amigos judeus tiveram de viver escondidos ali, sem poder sair às ruas e contando com a colaboração e a proteção de amigos. Naquela casa, onde sofreu tantas privações, ela escreveu um diário que vai durar pela eternidade. Me lembro da comoção que tive ao lê-lo durante minha adolescência. Anne Frank encontrou na escrita uma forma de resistir e viver. Mas sua obra vai durar não apenas por isso, mas por haver sido escrita com beleza, testemunhando em profundidade o seu amadurecimento, a sua sede de saber, o sonho com um vida melhor que viria depois da guerra.
     Infelizmente um traidor, até hoje desconhecido, revelou aos monstros da extrema direita onde os membros da família Frank se escondiam. Eles foram presos e deportados para campos de concentração na Alemanha, em 1944, e Anne, aos 15 anos, veio a morrer de tifo sete meses depois, no campo de Bergen-Belsen, apenas um mês antes de sua liberação por tropas aliadas.
    Espero que, como Anne Frank, você utilize a sua sensibilidade para seguir em frente e sobreviver às situações difíceis que a vida lhe apresentar. Haverei sempre de conversar com você e de estimular sua sensibilidade e sua humanidade. O que conseguir realizar a partir disso, pode ter certeza, será o melhor que poderá obter da vida.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Crianças que sofrem

     Estou hoje em Bruxelas e amanhã partirei para Amsterdã. São as capitais de dois países dos mais estáveis da Europa. A propósito, cresci ouvindo dizer que os países europeus eram todos ricos e, em boa parte, igualitários. Pode ser que tenha havido uma época de ouro lá pelos anos 1960 e 70. Hoje, não é o que vejo toda vez que viajo pelo continente. Sempre encontro evidentes dificuldades econômicas e muitos despossuídos mendigando pelos locais onde passa muita gente. Hoje pela manhã mesmo, após uma noite muito fria, vi, no coreto de um parque na região central de Bruxelas, umas trinta pessoas ainda deitadas após terem passado a noite ali. Sempre fico revoltado com essas injustiças e jamais me acostumarei a elas. Mas fico entre comovido e indignado sempre que crianças estão entre esses abandonados. Tive uma infância muito carente no interior de Minas e conheço as marcas que isso deixa nas pessoas para sempre. E hoje tenho um filho, que felizmente tem as suas necessidades básicas resolvidas, mas o simples fato de tê-lo é suficiente para que eu me torne ainda mais sensível e solidário a esses meninos humilhados e ofendidos, que deveriam estar brincando em suas casas, estudando em suas escolas, jogando bola após comerem adequadamente. Num tempo em que a produção atingiu níveis tão elevados, é uma prova do fracasso da humanidade - ou ao menos dos poderosos de todos os quadrantes - o fato de haver tanta gente vivendo assim em praticamente todos os países.
      Espero que você jamais se acostume com a injustiça e lute sempre contra ela onde quer que venha a atuar. E no Brasil todos sabemos o quanto temos motivo para nos indignar e para lutar.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Um dente-de-leão



     Já está fazendo um frio muito forte em Londres. Tudo indica que o inverno que se aproxima será bastante rigoroso. Já não vejo a hora de partir para o Brasil, o que ocorrerá no começo de dezembro. Estou com muita saudade de você, de minha família em Minas, de nossa cultura. Partirei do frio para o calor, dos dias escuros e curtos para a nossa claridade e nossa exuberância. Quero lhe dar meu abraço e meu beijo, colocá-lo no meu ombro e sair com você para passear.
     Há pouco, vagando pelo computador, vi esta foto, que foi tirada em algum lugar no campus da USP, num dia em que estávamos juntos. Logo depois você colheu esse dente-de-leão e o soprou, provocando um voo de plumas, como gosta de fazer. E como se diverte!
     Sempre me impressiono com sua visão encantada das coisas e muito aprendo com ela. Que a vida adulta e suas inevitáveis desilusões nunca matem essa poesia viva que existe em seus olhos e em seu coração de menino.

domingo, 28 de outubro de 2012

Viajando pela ciência

     Começa a fazer um frio intenso em Londres, e as árvores já se preparam para o inverno, que se anuncia como intenso. Mas acho que estou me acostumando com esse frio, com esse vento cortante e com uma chuvinha fina que é frequente por aqui nesta época do ano.
     Como gosto de fazer aos domingos, andei hoje pela cidade. Pela manhã, assisti a um excelente coral que canta músicas sacras da tradição católica em latim, fui ao Museu de Ciências em seguida e andei pelo Hyde Park no fim de tarde. Pensei muito em você, especialmente enquanto estava no museu, onde passei mais de três horas. Se pudesse ter estado lá comigo, você ficaria fascinado com a engenhosidade humana, como eu mesmo sempre fico. E, como tantos outros meninos que visitam o local, brincaria muito nas áreas destinadas à interatividade com as crianças. 
     Me lembro de uma vez em que o levei à Estação Ciência da USP, na Lapa. Foi bom vê-lo encantado com as experiências que fizeram diante de nós e também as de que você participou. Gostaria de vê-lo como alguém interessado no conhecimento e uma pessoa inteligente e criativa diante dos desafios que o mundo nos apresenta a todo momento.
     Já deu para perceber que estou morrendo de saudade de você, não?

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Raça e amor


     Ontem assistimos a um dos jogos mais fantásticos do Galo. Precisávamos da vitória sobre o Fluminense de qualquer maneira, já que o título do Campeonato Brasileiro deste ano está sendo disputado entre nós. Durante o primeiro tempo, chutamos quatro bolas na trave, e o goleiro oponente fez defesas milagrosas. O time carioca não chutou nenhuma bola no gol do Atlético. E a primeira metade terminou 0x0. Veio o segundo tempo. Até os quinze minutos, tudo continuou na mesma, com o Galo bombardeando, mas não conseguindo fazer o gol. Como o futebol costuma ser muito cruel, o Fluminense pegou um contra-ataque e fez o primeiro gol do jogo. No entanto, não nos abatemos e continuamos a pressionar o adversário. Por volta dos 25 minutos, Jô empatou. Continuamos a pressão e, já perto dos 40 minutos, Jô marcou outra vez, mas, em outro contra-ataque e numa falha de nossa defesa, o Fluminense fez seu segundo gol já muito perto do fim do jogo, num empate que praticamente decidiria o campeonato a favor deles. No entanto, rapidamente recolocamos a bola no meio e recomeçamos a pressão, acreditando na vitória. Até que, aos 47 minutos do segundo tempo, Ronaldinho colocou a bola na cabeça de Leonardo Silva, que testou com firmeza e fez o nosso terceiro e definitivo gol. 
     Entre as fotos do jogo hoje na imprensa, me chamou a atenção uma de um pai com o filho pequeno no colo, tendo o rosto retorcido pela apreensão. Posteriormente, ao fim da partida, outra foto o mostra abrindo um largo sorriso.
    Este foi um jogo a que eu também gostaria de ter estado presente com você. Nunca pude vivenciar um momento como esse a seu lado. Uma vez, há alguns anos, quando o Galo foi a São Paulo enfrentar o Corinthians, cheguei a comprar ingressos para que fôssemos juntos vê-lo jogar, mas, já próximo da hora de pegá-lo para irmos ao estádio, as coisas desandaram e não pude fazê-lo. 
     Ao menos espero que, na vida, você cultive o espírito do Galo e de sua torcida nesta partida. Como diz o nosso hino: "Lutar, lutar, lutar/ Com toda a nossa raça pra vencer".

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Presentinhos para o Natal

    
     O fim do ano está se aproximando e já estou em grande expectativa por retornar ao Brasil, onde ficarei por cinco semanas entre dezembro e janeiro. Já comprei passagens e espero poder reecontrá-lo bem, lhe dar meu abraço e meu beijo.
     Há alguns dias andei pela cidade em busca de alguns presentinhos para você. Levarei alguns livros, um uniforme do Arsenal com o nome Rabelo escrito nas costas, um tipo de patinete que é muito popular entre os meninos ingleses. Há algum tempo, estive na Itália, onde adquiri um bonito boneco de Pinóquio em madeira de que você vai gostar. É produto de um fino artesanato.
     Mas o que eu queria de verdade era poder ler com você, jogar futebol com você, levá-lo para andar de patinete no parque Ibirapuera, lhe contar a história de Pinóquio junto com seu boneco. Contudo, nas circunstâncias atuais, teremos de continuar separados. 
     Que essas coisas ao menos o façam lembrar que seu pai nunca o abandonou e que, dentro de mais alguns anos, quando você tiver independência para se movimentar sozinho até ele ou mesmo para fazer a escolha de com quem quer ficar, estará sempre a seu lado.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Asas para voar

     Há alguns dias estive na cidade de York, ao norte da Inglaterra. Num jardim próximo da famosa catedral gótica da cidade, encontrei uma estátua de Hermes, o deus grego de pés alados. Logo me lembrei de você e de uma frase num quadro de Frida Khalo: "Pies, para qué los quiero, si tengo alas para volar". Que você também tenha esse espírito e que sua vida possa ir muito além do prosaísmo do cotidiano, do utilitarismo das coisas convenientes e do mercantilismo da sociedade de consumo. Dentro de mais alguns anos, quero reencontrá-lo humanizado de fato. E será uma felicidade se você for uma pessoa criativa e generosa. Espero que eu possa estar com você nesse momento, conversar muito com você e fazer muitas coisas junto com você.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Da solidão

     Esta é a terceira vez que saio do Brasil para viver no exterior. Isso nunca foi fácil para mim, pois sinto muita falta de nossa gente, de nossas coisas, de nosso jeito de ser. Naturalmente há também o lado bom dessas experiências, como a abertura de novos horizontes e o conhecimento que se adquire acerca das coisas do mundo. Há, porém, um lado ambíguo que se relaciona com a solidão. Se por um lado ela é fonte de sofrimento, por outro nos proporciona maturidade e autoconhecimento.
     Você há de crescer e construir seu próprio caminho por este mundo. Por certo também enfrentará momentos de solidão onde quer que esteja. Espero que saiba lidar bem com ela e possa tornar-se, a despeito dela e por causa dela, um homem íntegro, uma pessoa inteligente e sensível. 
     Mas sempre que se sentir sozinho, tenha consciência de que em algum lugar estará seu pai, a quem você poderá sempre recorrer em busca de apoio e proteção.

domingo, 23 de setembro de 2012

Dias de chuva

     Este é um domingo de chuva em Londres. Eu iria sair e fazer alguma coisa pelo centro da cidade, mas quando abri a porta vi que seria muito incômodo enfrentar uma chuvinha fina e um friozinho chato que durariam o dia todo. Diante disso resolvi ficar em casa com meus livros, alguma música e um filme.  E eu mesmo fiz o meu almoço sem pressa, uma boa experiência.
     Neste fim de tarde, penso em você e sinto saudade. E me vem à mente uma história em sua companhia num dia de chuva. Uma vez, em São Paulo, saímos para almoçar numa segunda-feira chuvosa de dezembro. Peguei-o no colo e saímos debaixo de um velho guarda-chuva. Íamos conversando e parando para olhar os ônibus que passavam sobre poças e atiravam longe a água ali acumulada, coisa com a qual você se divertia. E também parando para olhar a enxurrada adentrar pelos bueiros. De repente, veio um vento forte e virou nosso guarda-chuva pelo avesso. Além disso, ele escapou de minha mão e correu longe. Não sei se por causa do susto ou pela surpresa de se ver subitamente na chuva, você disparou a chorar. Corri para debaixo de uma marquise, acalmei-o e fui pegar o guarda-chuva de volta. E seguimos nosso caminho até o restaurante, com você no meu colo, falando bastante e me contando sobre sua visão das coisas. E sempre fascinado pelo que via pelo caminho.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Seu caderno


     Hoje me lembrei de um caderno que mantive em São Paulo, que era uma espécie de diário de nosso relacionamento durante o pouco tempo em que pudemos partilhar uma convivência esporádica depois que fomos afastados um do outro. Nele eu falava da nossos encontros, do que havíamos feito juntos, de suas frases para a eternidade, de suas descobertas e suas pequenas grandes aventuras. Há até mesmo uma mecha de seu cabelo colocada num saquinho de plástico e grampeada numa das páginas. E me lembrei também desta canção de Chico Buarque, aqui interpretada por Toquinho. Os dois captaram poeticamente a relação de uma menina com o caderno em que ela escreve sobre sua experiência. 
     Em seu caderno, que um dia espero lhe dar, tentei captar um pouco da alegria e da variedade de nossa convivência por algum tempo. Pena que mais da metade de suas páginas ficaram em branco. Elas representam, como diz um de nossos maiores poetas, "a vida inteira que podia ter sido e que não foi".

sábado, 8 de setembro de 2012

Você no teatro

     Sou uma pessoa próxima do teatro e tenho estado bem junto dele recentemente. Nestas duas últimas semanas, venho acompanhando um festival de teatro latino-americano, tendo a oportunidade de assistir a peças vindas do Brasil, do México, da Argentina e do Chile. Estou organizando um evento em Londres sobre nosso grande Nelson Rodrigues, que completaria 100 anos em 2012, caso estivesse vivo. E também tenho ajudado na produção de uma peça dele por uma companhia inglesa.
     Me lembro de uma vez em que o levei ao teatro, para assistir a uma montagem de O Médico e o Monstro, no Teatro do SESI, na Avenida Paulista. Sempre que o Dr. Henry Jekill se transformava no monstro e entrava uma música de suspense e efeitos de iluminação, você pulava para o meu colo e se abraçava a mim. Se isso incomodou um pouco os espectadores vizinhos, ao menos a peça teve um interessante efeito catártico sobre meu filho. E eu adorei protegê-lo em seu momento de medo e insegurança.

domingo, 2 de setembro de 2012

Solidão


     Este é um domingo de fim de primavera. Já começa a chegar um friozinho, que deve ir aumentando gradualmente até o ápice do inverno, que costuma ser no mês de janeiro. Andei hoje pela área de Portobello Road e do Kensington Gardens, ao norte da área central da cidade. A certa altura me sentei num banco do parque e fiquei olhando uns meninos dando comida aos patos e pássaros que habitam o local. Naturalmente pensei em você, que gosta de fazer esse tipo de coisa. No resto do dia, senti um aperto no coração. Às vezes me bate uma forte sensação de solidão aqui. É o que está me assolando hoje. Além disso, há a saudade do Brasil e dos nossos dias mais coloridos, mais ensolarados. Mas é preciso resistir à tristeza e seguir em frente.
     A propósito, aí vai esta foto de dois passarinhos que tomavam banho perto de mim.

sábado, 25 de agosto de 2012

Memórias de uma noite de sábado

     Esta é uma noite chuvosa de sábado em Londres, e estou aqui sozinho. De repente comecei a pensar em você, a me lembrar de nossos passeios, de quando você era bem pequeno, e eu o colocava para dormir e lhe contava histórias. Sua preferida era a dos Três Porquinhos, que eu tinha de lhe contar inúmeras vezes. De modo que você sabia algumas passagens de cor e repetia-as junto comigo.
     Também me recordo de nossos passeios com você no meu ombro, vendo o mundo de cima e comentando tudo, perguntando sobre tudo. E de nós dois subindo barrancos, jogando futebol, fazendo bolinhas de sabão, andando na chuva, jogando pedras nas águas de rios e lagoas. São coisas que perdemos, mas que foram feitas, de minha parte, com grande felicidade a seu lado.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O unicórnio


     No domingo passado estive em Hampton Court, que é um lugar lindíssimo nas proximidades de Londres. Na entrada do palácio de verão de antigos reis da Inglaterra, fica este unicórnio. E o palácio possui jardins lindíssimos onde vi muitos meninos correndo, brincando, alimentando os patos e os peixes nas lagoas. Naturalmente me lembrei de você e desejei que estivesse ali comigo. Eu o colocaria nos ombros - como você gosta - e nos perderíamos no labirinto que há no local, andaríamos por entre as flores e esculturas do jardim, lutaríamos na grama, disputaríamos corridas, brincaríamos de capoeira ou esconde-esconde.
     Há uma peça de teatro do americano Tennessee Williams, The Glass Menagerie, em que a personagem principal coleciona bichinhos de vidro. Seu favorito é justamente um unicórnio, símbolo de sua própria fragilidade que vem a ter o chifre quebrado no decorrer da ação, assim como ela também tem seus sonhos desfeitos. É mais ou menos assim que também me sinto numa hora como esta, mas sei que a vida dá suas voltas e que a fortuna é uma inconstante. Apenas prossigo minha vida tentando estar bem e agindo com ética e dignidade. É só o que me cabe por agora.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Galo na ponta


     Acabo de ver esta charge, que alude à liderança do Galo no Campeonato Brasileiro deste ano. Estamos jogando muito bem, e tudo indica que, depois de vários anos com times ruins, seremos campeões. Se o grande Atlético que vi jogar foi o de Toninho Cerezo e Reinaldo, por agora o seu grande Atlético é o de Bernard e Ronaldinho.
     Espero que você continue atleticano, pois isso faz parte de sua família e de suas raízes. Eu sempre ficava feliz quando alguém pelo caminho lhe perguntava, em São Paulo: "Para que time você torce, menino?" E você: "Para o Galo!"
     No fim deste ano, quando eu for a São Paulo, lhe darei outra camisa do nosso time. Espero que ela seja valorizada ainda mais com a confirmação do título do Campeonato Brasileiro.

domingo, 12 de agosto de 2012

Um dia

     Hoje é o chamado Dia dos Pais no Brasil. Não vou vê-lo nem vamos estar juntos. Não vamos sequer conversar. Mas obviamente vou sentir muito a sua falta, como acontece em todos os dias do ano.
    Nos últimos tempos, tenho buscado não ter uma relação sentimentalista com essas datas. Apenas espero que em dezembro, quando eu for ao Brasil, possamos conversar um pouco e que eu possa lhe dar o meu beijo, falar da minha vida e ouvir da sua. E espero tê-lo comigo dentro de mais alguns anos, vendo-o como uma pessoa de bem, um homem consciente, autêntico e honesto. Assim gostaria de reencontrá-lo sempre ao longo de nossas vidas.
     Sei que você deve ter feito os desenhos e cartões de escola por ocasião do Dia dos Pais. E que não terá como entregá-los. Se puder, guarde-os para o dia que virá. É o que tenho feito como forma de documentar meus sentimentos e preencher um pouco do vazio que ficou, de ter voz em meio ao silêncio e à distância em que fomos obrigados a nos manter.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Travis


     No fim do ano passado, quando tivemos um último contato, fui até a entrada do condomínio onde você mora e lhe deixei, entre outras coisas, uma cópia de Paris, Texas, de Wim Wenders, uma obra-prima do cinema recente. Sempre que assisto a esse filme, sou especialmente tocado pelo resgate da relação entre pai e filho após a desagregação da família de Travis, personagem com quem tenho grande identificação. Como ele, baixei aos infernos e tive de enfrentar sozinho a depressão, a falta de perspectivas, a necessidade de me reinventar e recriar a minha vida. Mas, também como ele, não tenho nenhuma mensagem edificante nem resolvi os meus dilemas e desafios. E, diferentemente dele, ainda não tive a oportunidade de refazer nossa convivência de pai e filho e encontrar um caminho possível à margem da canalhice que nos separou. 
     Um dia, quando você crescer um pouco mais, ao ver esse filme, haverá de compreender muito do que se passou em nossas vidas e de tomar consciência da precariedade das coisas humanas.

sábado, 4 de agosto de 2012

Um gato na Ucrânia


     Passei três dias em Kiev, na Ucrânia, e ouvi uma fantástica história em várias versões sobre este gato, chamado Pantyusha, que hoje é homenageado através desta estátua de bronze no centro da cidade. Acredita-se que passar a mão sobre ele da cabeça ao rabo dá sorte.
     Eu passava pelo lugar onde fica a estátua quando um senhor que ali estava me contou que há muito tempo ocorreu um incêndio na casa em frente, onde ele morava, e Pantyusha salvou a vida de seu dono, mas infelizmente veio a morrer nas chamas. Passa um tempinho, e chega uma guia com um grupo de turistas. Ela para na frente da estátua e conta que o bicho teria salvado várias pessoas por ocasião de um grande incêndio, mas morrido queimado. Passam mais alguns minutos, e o garçom do bar em frente, onde parei para tomar uma garrafa d'água, me conta que teria ocorrido um incêndio de proporções enormes, e Pantyusha salvou a cidade. Um quarto narrador que por ali me aparecesse certamente me contaria que o gato salvou o país de uma catástrofe. As proporções do incêndio e o número de vidas salvas aumentava a cada versão da história. Comum a todas elas é apenas a morte heroica do animal. Do contrário, a narrativa perderia muito de seu impacto.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Retorno de viagem


     Acabo de chegar de uma viagem pela Finlândia, a Rússia, a Ucrânia e a Alemanha. Pensei muito em você nos 17 dias em que fiquei longe, chegando a sonhar, numa das noites por lá, que brincávamos num paque de Moscou, após eu ter passado a tarde anterior nesse parque.
     Aí está uma fotografia de um lugar que me marcou muito por sua beleza: a Igreja da Ressurreição de Cristo, em São Petersburgo. A propósito, me apaixonei pela Rússia, que é um país muito parecido com o Brasil em suas qualidades e também em seus defeitos. E como sou um entusiasta da literatura, pude percorrer os caminhos trilhados por grandes escritores russos, como Dostoiévski, Tolstoi, Gogol, Tchekov, Pushkin e tantos outros. Desejo que você também os leia e os ame quando crescer.
     Tive algumas dificuldades com a língua por lá, pois eu não sei o idioma do país, e é relativamente raro encontrar alguém que fala inglês na Rússia. Nem ler as coisas eu conseguia, pois não estou familiarizado com o alfabeto cirílico. Para se ter uma ideia, aí vai o meu nome em russo, tal como escrito na ficha de registro do hotel em Moscou: Адриано де Паула Paбeлo.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A última conversa

     Me lembro da última vez em que conversamos. Foi no fim do ano passado. Deixei com sua babá alguns presentes para você e também uma carta em que me despedia, contava-lhe da tristeza que sinto por nosso afastamento e lhe dizia que estava de partida para muito longe.
     Em seguida fui para o centro de São Paulo, onde tinha de pegar um novo passaporte. Eu estava saindo do metrô quando recebi um telefonema. Era você, que chorava muito e me perguntava para onde eu iria. Não resisti e também me pus a chorar em plena Rua Barão de Itapetininga, por onde está sempre passando uma multidão. Disse-lhe que passaria a viver na Europa dentro de mais alguns dias. Conversamos por mais algum tempo, e você inocentemente me disse que queria vir morar comigo.
     Hoje faz exatamente seis meses que cheguei a Londres e aqui me estabeleci por tempo indeterminado. Tenho um bom emprego como professor numa ótima universidade, sou muito respeitado aqui e, depois de ter tido de enfrentar tantas porcarias, estou bem. Tenho a sorte de poder fazer o que gosto, de viver num lugar tão rico de história, arte e cultura, de aprender muitas coisas novas e enfrentar desafios estimulantes. Tenho até feito sucesso como centroavante nos campeonatos de futebol que tenho disputado por aqui. Mas há em mim um grande vazio. Penso em você todos os dias, sofro por nem sequer saber como você está, me lembro de você a propósito de meninos que encontro nos parques da cidade ou nas ruas por onde saio para correr nos fins de tarde. Mas mantenho a esperança de que vai chegar o tempo de você realmente vir morar comigo e realizar outra ruptura na sua vida. Se há alguma justiça no universo, esse dia há de chegar.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Seu caderno

     Deixei em minha casa em São Paulo um caderno de capa dura que foi uma espécie de diário de nossa convivência nos últimos meses em que pudemos nos encontrar. Nele registrei suas frases mais marcantes, seus gostos e suas extravagâncias, suas descobertas, nossos passeios e afazeres, seu perfil e sua visão de mundo de criança. Há coisas engraçadas e coisas muito pitorescas. Mas infelizmente, antes mesmo da metade desse caderno ser preenchida, muitas folhas ficaram em branco. Esta parte representa, como diz um de nossos grandes poetas, "a vida inteira que podia ter sido e que não foi". Fomos separados, enfrentei os piores momentos de minha vida, busquei me afastar diante do risco vir a cometer alguma atrocidade, segui adiante, vim para bem longe.
     Hoje tenho consciência de haver emergido de uma espécie de inferno. Tive de enfrentar o desemprego e a falta de perspectivas, uma depressão, dificuldades econômicas, um não saber para onde me virar. Mas o pior de tudo foi ter de fazer face a muita sujeira, foi ter de negociar com a canalhice. Passou.
     Espero que ainda não seja tarde demais para que eu possa lhe ensinar a medir o valor das pessoas apenas por suas qualidades humanas, a não tomar jamais o dinheiro como medida de todas as coisas nem a injustiça como coisa normal, a jamais baratear os seus sonhos em nome de uma domesticidade ordinária. Se eu puder influenciá-lo nessa direção, considero que meu papel de pai terá sido bem cumprido.